Dom Casmurro

dezembro 2011 / Dom Casmurro / Azul-corvo

Texto publicado na edição #124

Azul-corvo

Trecho do romance de Adriana Lisboa

> Por ADRIANA LISBOA

Ilustração: Felipe Rodrigues

O ano começou em julho. O lugar era estranho. O suor corria por dentro, por trás da pele — eu suava e meu corpo continuava seco. Era como se o ar fosse duro, sólido, um ar de pedra. Eu bebia um copo d’água depois do outro até sentir a barriga estufada e pesada mas era sempre isso, o suor seco e o ar duro e o sol com um ferrão em cada raio. Não havia nenhuma brisa, nenhum hálito que viesse me aliviar um pouco entrando pelas frestas da blusa, levantando a barra da saia ou sacudindo meu cabelo com promessas de salvação.

Em compensação, eu nunca via baratas.

Barata americana: Periplaneta americana. Li certa vez que elas têm a capacidade de se auto-regenerar, dependendo da gravidade da injúria. Eu as conhecia intimamente, de convívio e de fama (as únicas capazes de sobreviver a uma hecatombe nuclear etc.), de encontros-surpresa na cozinha e no hall do elevador de serviço. Em Copacabana, elas estavam em toda parte. Mas ali eu não via baratas. Era até possível que elas existissem, e conseguissem tolerar a constante falta de umidade e a seriedade do inverno, quando fosse inverno. Mas eram bem mais discretas.

Eu tinha treze anos. Ter treze anos é como estar no meio de lugar nenhum. O que se acentuava devido ao fato de eu estar no meio de lugar nenhum. Numa casa que não era minha, numa cidade que não era minha, num país que não era meu, com uma família de um homem só que não era, apesar das interseções e das intenções (todas elas muito boas), minha.

Os nós dos dedos ficavam esbranquiçados, querendo rachar. Era estranho. Eu parecia me transformar progressivamente em outra coisa, como se estivesse passando por uma lenta mutação.

Talvez eu virasse um lagarto ou uma daquelas plantas capazes de vicejar no deserto. Talvez eu me mineralizasse e virasse um rio temporário, daqueles que somem no leito crestado, na seca, e depois incham e escorrem felizes como se tudo não passasse disso, escorrer felizes, sem qualquer ameaça. Como se a sua própria vida de rio não fosse sazonal e quebradiça.

Mais de uma vez pensei, durante os primeiros meses, que aquele não era um lugar feito para os seres humanos, não mais do que para as baratas. E no entanto havia treze milênios que os seres humanos viviam ali, numa queda de braço com o lugar, muito antes das minas de ouro e prata do século dezenove. Muito antes de Buffalo Bill.

Naquele mês de julho, o primeiro mês do meu Ano-Novo, Fernando me levou a uma piscina pública. As pessoas de pele clara se estatelavam nas espreguiçadeiras em busca de um bronzeado que custava a chegar, e que quando chegava tinha um certo avermelhado óbvio demais, avermelhado demais.

Assim como os outros latinos, e como os indianos, minha pele já bem marrom na origem ficava ainda mais marrom com uma hora de sol. Eu não sabia muito bem o que fazer com toda aquela melanina fácil, leviana, que se entregava de coração ao sol como se fosse voluntária de algum rito sacrificial.

Uma mulher falou comigo quando passou pela minha cadeira voltando da piscina, disse que eu tinha um belo bronzeado. Quando ela sorriu, seus olhos se afundaram nas dobras de gordura que cobriam seu rosto. Pensei: ela parece um travesseirinho de plumas. Ela usava um maiô com saiote e tinha mãos muito pequenas na ponta dos braços obesos, mas caminhava com seus pés atarracados como se tivesse medo de tocar o chão. Caminhava como se o chão machucasse.

Cogitei elegância. Não era elegância. Talvez uma certa desconfiança no ato de caminhar. Talvez aquela mulher nos lembrasse que é preciso fazer cerimônia com o mundo, que isto aqui não é de brincadeira, que isto é coisa séria e perigosa, e que o simples gesto de pisar no chão já te confere uma responsabilidade inimaginável. Ou talvez fosse apenas seu jeito de caminhar e não tivesse nada a ver com responsabilidade e ninguém tivesse, aliás, nada a ver com isso.

Na piscina, emergi ao lado de um homem bonito, com cordas grossas de músculos enrolados nos braços duros, e olhei de perto e percebi que ele tinha cílios louros. Eu não sabia que existiam pessoas de cílios louros. O homem bonito trocava sorrisos e palavras (mais sorrisos do que palavras) com uma jovem elástica de sobrancelhas cinzeladas.

Afundei de novo e abri os olhos lá embaixo e vi uma multidão de pernas de vários formatos, tamanhos, tonalidades e espessuras. Tentáculos de um leviatã de águas cloradas, oscilando para cá, para lá, sem critérios nem sincronia.

Antes, em Copacabana, havia: biquínis minúsculos. Bundas de fora. Uma ou outra mulher passando água oxigenada nas pernas para alourar os pêlos. Dependendo do ponto, muitas crianças. Dependendo do ponto, algumas prostitutas. Corpos musculosos correndo sob o sol. Corpos flácidos correndo sob o sol. Sungas apertadas delineando o saco dos homens e revelando para que lado ficava o pênis. Quando eu não tinha mais nada para fazer, na praia, brincava de elaborar estatísticas — se havia mais homens com o pênis para o lado esquerdo ou para o lado direito.

Agora, em Lakewood, havia: biquínis e maiôs grandes em tecidos que às vezes formavam papadas na bunda. Homens de bermuda. Na beira da piscina, pessoas comendo hambúrguer e batata-frita e bebendo cerveja e refrigerante em copos king size de papel.

O tamanho das coisas me surpreendia.

São muito caras? perguntei ao Fernando.

Não, ele me disse. Você quer?

Eu disse que não. E agradeci, conforme a minha mãe me ensinou a fazer.

O ano começou em julho. Não exatamente quando o oficial da imigração verificou o meu passaporte americano (que me identificava, mas com o qual eu ainda não me identificava). O ano começou semanas antes, quando Fernando telefonou.

Naquele dia, eu já estava com a minha única mala pronta. Coloquei tudo o que era importante na mala e ao aprontá-la descobri como a categoria Importante é uma categoria mole. Não se sustenta. A memória da cebola depois de descascada. Uma idéia que você faz da cebola e que não necessariamente corresponde à cebola de fato. As lágrimas por causa da cebola, que se originam na extremidade final de toda uma complexa cadeia de enzimas, gases, terminais nervosos e glândulas, como Mrs. Mojo explicaria em algum momento (no mesmo dia, aliás, em que Mrs. Mitchell revelaria que a pizza foi inventada em Chicago).

Quase tudo o que era importante deixava de ser quando confrontado com um olhar valente, com um olhar jogo do sério.

Eu considerava as minhas coisas:

Aqueles livros já lidos: não ia reler, ia? Faria sentido ficar rebocando por aí uma coleção de paralelepípedos de papel com capas coloridas como se eles fossem animais de estimação, cachorros babões e meio cegos precisando de cuidado extra no fim da vida?

Aqueles dois pares de tênis: um me machucava no calcanhar, era o mais bonito mas me machucava no calcanhar. A confrontação da beleza com a adequação pode ser algo bem constrangedor. E a utilidade de um par desconfortável de tênis, algo bem clandestino e precário. Ademais, sempre existiria alguém no mundo com pés um pouco diferentes dos meus — mais delicados, sem aquele osso tão saliente no canto. Essa pessoa seria a Cinderela do meu par mais bonito de tênis, e só me cabia dizer adeus e desejar que fossem felizes para sempre.

Aqueles quatro pares de brincos dos quais eu só gostava mesmo de três mas só usava mesmo dois e nem precisaria de dois, já que só tenho um par de orelhas: era melhor doar três dos quatro pares de brincos a alguém mais vaidosa no tempo e no espaço, e com planos menos migratórios do que os meus. Inclusive porque quanto menos brincos a gente tem, menos brincos a gente perde. Se eu deixasse aquele par de brincos atarraxado nas minhas orelhas dia e noite, havia uma boa chance de que eles fossem me acompanhar por um longo tempo, e por sorte orelhas não eram pés e brincos não eram sapatos.

Bichos de pelúcia? Uma coisa tola, inútil e colecionadora de ácaros. Eu poderia doá-los para alguma criança tola, inútil e os ácaros seriam bem merecidos.

E assim por diante.

As roupas de calor, noventa por cento do meu guarda-roupa, só serviriam durante parte do ano. As roupas de frio seriam insuficientes para o frio: um agasalho de moletom para temperaturas abaixo de zero?

Mas o que eram exatamente temperaturas abaixo de zero? Eu abria o congelador da geladeira de Elisa, fechava os olhos e inspirava um universo frost free, tentando imaginar. Vinte negativos? Sensação térmica de trinta negativos? Era verdade que o nariz e as orelhas podiam congelar e cair? As pontas dos dedos? (Recentemente, anos depois dessa reflexão pessoal sobre o mistério das temperaturas negativas, descobri na revista Papo de Homem que há coisa bem pior e que as pessoas que escalam o Everest têm de enfrentar setenta graus Celsius abaixo de zero. Aprendi isso numa coluna assinada por um senhor que se definia como um flamenguista ortodoxo, que toca bateria, ama cerveja e mulher — nessa ordem — e, nas horas vagas, é médico. Noutras seções da revista Papo de Homem eu também podia ler: Fim da polêmica: por que as mulheres vão sempre em dupla ao banheiro. Dicas para harmonizar os vinhos no réveillon. Como investir em imóveis mais rápido do que você imagina ser possível.)

Quantos sapatos fechados você tem?, Elisa perguntou.

Dois, esses dois tênis, mas um me machuca.

Elisa suspirou. Quanto você calça?

Trinta e seis.

Ela foi para o quarto e voltou com um par de sapatos de couro falso, salto ligeiramente alto.

Leve isto aqui, é trinta e sete mas vai servir. Se você tiver alguma ocasião importante e não puder ir de tênis.

Eu não conseguia imaginar que ocasião importante poderia vir a ter. Fernando trabalhava como segurança numa biblioteca pública. Nas horas vagas ele ganhava mais alguma coisa como faxineiro. Não era casado e não tinha filhos. Eu não achava que ocasiões importantes fizessem parte da sua rotina. Mas Elisa, a irmã de criação da minha mãe, queria que eu levasse os sapatos de salto mesmo assim.

A gente nunca sabe, ela disse.

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