Poemas de Elizabeth Molver

Leia os poemas "Outro dia", "Festejando cinza", "Epílogo 2" e "Segundo os olhos"
A poeta argentina Elizabeth Molver
01/03/2011

Tradução: Ronaldo Cagiano

Outro dia

Alvorada do absurdo
segue minha vida de pé
canto na última esquina versos azuis
percorre a ruazinha
mais lamentos que cores
às vezes o anel
ganho tempo e sigo
E quando não pode?
já veremos. Vou
feliz por ser feliz, às vezes
/por agora/
salvo-me
não sei amanhã
não sei ao final.

Festejando cinza

Teu adeus sem luzes
traça meu caminho
vestida somente de perguntas
repetidas
imóveis

Quantos milagres hão de passar
para saber-te distante?
Quanto verão invernará aconchegante?
Quanto mais haverei de sangrar
para que o esquecimento chegue
e se instale
com caminho definido
céu limpo nos olhos
cheiro de pêssego na pele
carícia verdadeira
como um menino adormecido em meu peito.

Epílogo 2

Outra maneira de inventar-te
para crer no que foste
me seguro ao nada sem linhas
que sustentem essa pele adormecida
estas cinzas que se esparramam ao vento
e volta a juntá-las e não sou eu
porque já sou outra
o não sou ainda.

Segundo os olhos

De acordo com quem olha
o futuro pode ser
rosa     sensível         pálido
celeste      limpo     aleatório
negro    opaco    final
vermelho   urgente   intenso
amarelado   triste   gasto
verde     fresco     sereno
cinza    solitário     incerto
branco    vazio   nu
azul    eterno   único.

De açodo com os olhos
o futuro pode ser
ou não.

Elizabeth Molver
Nasceu em 1969, em Buenos Aires. É professora de educação especial e ministra oficinas literárias. Autora de Según los ojos (2004).
Ronaldo Cagiano

Nasceu em Cataguases (MG). Formado em Direito, está atualmente radicado em Portugal. É autor de Eles não moram mais aqui (Contos, Prêmio Jabuti 2016), O mundo sem explicação (Poesia, Lisboa, 2018), Todos os desertos: e depois? (Contos, 2018) e Cartografia do abismo (Poesia, 2020), entre outros.

Rascunho