Poemas de Carlos Dariel

Leia os poemas traduzidos "A morte de bicicleta", "Balas perdidas", "Rayuelas", "Urbano", "Ecos do entardecer" e "Como se"
01/02/2010

Tradução: Ronaldo Cagiano

A morte de bicicleta

o aço cravado nas costas
uma manhã em duas rodas

uma manhã
mão assassina
duas rodas mudam de dono

essa manhã
punhal erguido
luto na fábrica
seus companheiros

Balas perdidas

no campo de batalha
não é prudente
levar luz delatora

como evitá-lo
expor-se
é condição necessária

osso sobre osso
perfilam-se
ardis
condenados ao fracasso

o ruído das armas
oferece seu engano
ao melhor impostor

Rayuelas

tua presença me devolve
à rua da infância

tomo distância de meus negócios
e volto a traçar a amarelinha
recuperar pipas
evoco cavaleiros vencedores

acho onde guarnecer-me
nestas horas
de névoa e areia

a tua boca pequena
a confio ao riso

Urbano

através da janela do trem
vejo minha sombra avançar sobre cascalhos
tocos de cigarros
papéis enrugados sob a pálida luz do sol

minha sombra avançando sobre as coisas
ou sobre restos delas
sobrevoando ao abandono
governada por uma alteridade que se descuida
de propósitos e intenções

penso
como se tratasse de semelhanças
um pouco também assim
minha própria carnalidade
sobrevoa o mundo sem tocá-lo
desatenção
dir-se-ia
descuido que
útil para não confrontar
não logra enganar-me de todo

porque é a hora
precisamente
enquanto vejo avançar minha sombra
quando me detenho a examinar
implicâncias e controvérsias
disputas
entre o mundo e minha pessoa

Ecos do entardecer

a doença e o remédio
conspiram e se embriagam
nas ruas da cidade

em uma praça
as flores
digerem as últimas cinzas

cães vagabundos
se despedem da sede

há no ar um tambor desesperado

não é a paisagem
o que lastima
não
mas sim o despropósito de uma jogada
como lamento que chega  a extemporâneo

Como se

às seis da tarde
a cidade chega ao seu clímax
milhares de pernas vão e vêm
mendigando um coração desnudo
ou um pedaço de Deus

sentado na mesma mesa de um bar
busco um sinal oculto na tarde
uma língua que fale
o idioma da luz

o olhar vaga na penumbra de mais outra tarde

saber ser margem e suportá-la
provocar a eficácia de uma ponte

cada mesa de bar tem o rosto da cidade que a contém
como a ferida
a marca do corte

um gole de café
o olhar na mão oposta
os olhos perdidos nesse olhar
a mão bebendo só um café frio

que vá este idioma
incapaz de acertar
com a pergunta adequada
sequer a escuridão com que iluminar
um nó na garganta

eu tampouco tenho a mão
a chave de nenhuma porta

não quero ser juiz nem parte
tampouco
claro
busco ficar a salvo
como poderia?

quisera
sim
terminar este café
e fazer de conta que não estive lá

Carlos Dariel
Nasceu em Buenos Aires, em 1956. Reside na cidade de Haedo, onde realiza o ciclo de poesia Farandol e coordena uma oficina literária. Tem poemas publicados em revistas literárias e virtuais no Brasil, Colômbia e Itália. É autor de Según el fuego (2004) e Cuestión de lugar (2007).
Ronaldo Cagiano

Nasceu em Cataguases (MG). Formado em Direito, está atualmente radicado em Portugal. É autor de Eles não moram mais aqui (Contos, Prêmio Jabuti 2016), O mundo sem explicação (Poesia, Lisboa, 2018), Todos os desertos: e depois? (Contos, 2018) e Cartografia do abismo (Poesia, 2020), entre outros.

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