Ensaios e Resenhas

agosto 2011 / Ensaios e Resenhas / Auto-investigação

Texto publicado na edição #136

Auto-investigação

A presença marcante da primeira pessoa em alguns tipos de narrativas — autobiografias, confissões, diários e memórias — permite a […]

> Por LUIZ HORÁCIO

A presença marcante da primeira pessoa em alguns tipos de narrativas — autobiografias, confissões, diários e memórias — permite a seu autor os papéis de criador e protagonista. Oferece ao leitor a possibilidade, equivocada, de tornar material um ser de linguagem. O autor invisível deixa suas pegadas, seus reflexos ao utilizar os gêneros citados. Mas até que ponto valeria a pena seguir tais pistas? E, ao segui-las, por mais evidentes que sejam, o leitor encontrará alguém que não lhe terá nada a dizer.

No livro Écrire, pourquoi?, a escritora e crítica de arte Véronique Pittolo discorre sobre o que ela entende serem as duas formas de escrever: “Ou se escreve sobre si a partir de uma experiência pessoal, autobiográfica, ou se escolhe um tema exterior para lhe fazer submeter todas as espécies de mutações e de metamorfoses”. À autoficção compete a primeira opção, ou seja, romancear a experiência vivida.

Siri Hustvedt escreve sobre si, sobre suas experiências, mesmo que ao leitor não afeito às questões neurológicas, às convulsões e à psicanálise, essa escolha acabe por gerar apenas estranheza. Nunca uma estranheza estimulante, cabe alertar. Algo beirando o tédio. Quem, e conheço muitos, tiver apreço por doenças encontrará em A mulher trêmula assunto para muitos debates; por outro lado, quem detestar o assunto talvez apenas se surpreenda com a coragem da autora.

Mas também é característica da autoficção a ambigüidade. Até onde Siri relata o acontecido, e não o imaginado? Confesso ser justamente essa indefinição o aspecto que mais me agrada na autoficção.

A mulher trêmula é fruto de uma experiência, de uma terrível experiência. Pelo menos é a informação/apelo a que o leitor tem acesso antes da leitura. Desde a infância, Siri Hustvedt, autora/narradora, era acometida de ataques de enxaqueca, fato que, a despeito do desconforto que provocava, não trazia maiores conseqüências. Mas durante uma solenidade na universidade onde deveria proferir um discurso em homenagem a seu pai, morto dois antes, seus braços perderam a força e suas pernas tremeram. Ela continuou seu discurso como se tivesse incorporado uma segunda pessoa, um orador calmo e seguro. Assustada, Siri foi buscar apoio num grupo formado por psicanalistas e neurologistas que estudam fenômenos como esse. E é o relato dessa experiência, do mergulho de Siri no mundo da psicanálise e da neurologia, que constitui a narrativa de A mulher trêmula ou Uma história dos meus nervos.

No trecho a seguir, a autora se refere a Desilusões de um americano:

Comecei a ler a respeito desses mistérios muitos anos antes da tremedeira vespertina em Northfield. Mas as investigações se intensificaram quando decidi escrever um romance com um personagem psiquiatra e psicanalista, um homem que passei a considerar meu irmão imaginário, Erik Davidsen. Criado em Minnesota por pais muito parecidos com os meus, foi o menino que nunca nasceu na família Hustvedt.

Percebe-se no trecho acima a interseção do discurso biográfico com o discurso ficcional. A voz da narradora/autora, primeira pessoa, tornando pública a atitude de investigar os meandros da mente humana e um dado ainda mais evidente ao criar o irmão imaginário, o menino que nunca nasceu na família Hustvedt. Mas até que ponto esse eu narrador coincide com o eu da autora? Essa incerteza, esse enigma é um dos atrativos do gênero da autoficção. Refaço a pergunta: por que tentar descobrir o autor como pessoa? Não é o mais importante.

A mim parece que retornar às vezes significa ir em frente. A busca pela mulher trêmula me faz dar muitas voltas, pois no final das contas ela é também uma busca pelas perspectivas capazes de esclarecer quem e o que ela é. Minha única certeza é que não me satisfaço em observá-la a partir de um único ponto de vista. Preciso vê-la por todos os ângulos.

A autora torna a mulher trêmula um personagem. O eu se vendo ou seria o caso de esse eu estar se procurando? A própria autora, páginas antes: “‘Eu’ existe apenas em relação ao ‘outro’. A linguagem ocorre entre pessoas, é adquirida através de outros, não obstante disponhamos do equipamento biológico necessário para aprendê-la”.

Cabe ao leitor criar seu quadro de imagens. A autora já criou o dela.

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Siri Hustvedt
Trad.: Celso Nogueira
Companhia das Letras
208 págs.