Rodapé

junho 2017 / Rodapé / Aula sobre São Bernardo

Texto publicado na edição #206

Aula sobre São Bernardo

(Ou como ler uma obra literária nestes nossos tempos)

> Por RINALDO DE FERNANDES

Amados alunos:
[silêncio na sala]
A aula de hoje é sobre o romance São Bernardo, cujo autor, Graciliano Ramos, era comunista — mas não vem ao caso. Não vem mesmo. Paulo Honório é um exemplo de vencedor. Exemplo de obstinação, de dedicação ao trabalho. E só com o trabalho se vence! Paulo Honório afastou do mundo o desânimo, a paralisia. Aprendam como se põe energia nas coisas, como se faz um grande negócio, como se toca pra frente um empreendimento: Paulo Honório! Afaste de seu caminho os que não querem trabalhar, os que não querem fazer o país crescer. É seu dever afastá-los! Chame pessoas certas para lhe auxiliar — e bote essa gente para trabalhar! Faça-as ver que o país é mais importante do que elas. Que elas trabalham, não para enriquecer ninguém, mas para fazer o progresso do país! Façam como fez Paulo Honório — grite, ameace, avance contra os preguiçosos! Você estará fazendo uma grande coisa para a nação! Se for mulher, se case com um homem trabalhador. Ache um Paulo Honório para a sua vida! Se for homem, não se case com mulher que é muito instruída, que saiba mais que você. Não queira mulher que saiba mais que você! Não seria melhor você saber mais ou saber tanto quanto sua mulher? E não se case com mulher fraca feito a Madalena. Um mau exemplo de esposa! Um mau exemplo de quem quer demolir o marido exigindo dele coisas que ele não pode, querendo que ele dê coisas para gente que devia mais era ter respeito e ir trabalhar sempre e sempre. Há parasitas que só querem tirar de quem ganha suando! Pra que escola pros meninos dos outros? Vão, como fez Paulo Honório, vender cocada! Remédio pra quem se feriu trabalhando? Foi o acaso e você não é hospital! Remédio quem paga é a prefeitura, se tiver um prefeito que preste e que seja ativo. Trabalho! Trabalho! Isso é que faz a vida ter saúde! Paulo Honório não comprava matérias em jornais e nem fazia o juiz lhe dar benefícios. Ora! As instituições não beneficiam quem trabalha — elas têm é o dever de estar do lado de quem trabalha, do empresário de visão, que não pensa nele, mas que opera pelo país! Paulo Honório não mandou matar Mendonça, quem disse que mandou? Paulo Honório tava fazendo era a propriedade dele produzir, progredir, e o Mendonça era um demente que estava avançando nas terras de Paulo Honório. Vamos julgar com honestidade: tu deixarias livre, andando pelos caminhos, uma pessoa que quer tomar tuas terras, que quer atrapalhar o progresso do teu país? Uma pessoa que, se passasse mais tempo, podia ela mesma te mandar matar? Olhe, há certas coisas que é bom ter em mente: antes ele do que eu! São Bernardo é um grande livro! Paulo Honório é um exemplo de brasileiro!
[aplausos e um assovio]
Sigam Paulo Honório! Hastag Paulo Honório!

Print Friendly