Manual de garimpo

junho 2014 / Manual de garimpo / Asfalto selvagem

Texto publicado na edição #170

Asfalto selvagem

Se fosse feito um apanhado entre pessoas lidas, com alguma experiência em nosso cânone, não tenho muita dúvida de que […]

> Por ALBERTO MUSSA

Se fosse feito um apanhado entre pessoas lidas, com alguma experiência em nosso cânone, não tenho muita dúvida de que o Grande sertão de Guimarães Rosa seria eleito o maior romance brasileiro do século 20. E eu seria voto vencido, porque minha escolha teria sido Asfalto selvagem, de Nelson Rodrigues.

Talvez não seja justo comparar os dois gigantes. Guimarães quase criou uma língua; Nelson Rodrigues escreve como se estivesse narrando em voz alta, num estilo de frases lapidares, de espantosa oralidade. O milagre do último, por isso, me parece maior.

Embora seja mais reconhecido por sua obra dramatúrgica, como autor de alta literatura, não acredito que o romancista esteja num patamar inferior; e Asfalto selvagem bastaria para incluí-lo entre os grandes.

O romance trata da vida da personagem Engraçadinha, em dois momentos: dos doze aos dezoito anos; e depois dos trinta. É, em todos os sentidos, um típico bildungsroman (como dizem os alemães), um tradicional romance de formação — que considera o comportamento do indivíduo adulto uma resultante direta do meio social, de sua educação familiar ou de sua história adolescente. São, por isso, romances de tese, que pretendem analisar a psicologia das personagens em função do seu período de formação, quando se constitui a personalidade.

O subtítulo, aliás, se refere aos “amores e pecados” da Engraçadinha. Esse é o tema rodriguiano por excelência: a tensão entre os impulsos sexuais e as normas morais. Engraçadinha, dos doze aos dezoito, tem uma sensualidade muito à flor da pele e vive algumas experiências relativamente arrojadas, até que um trauma provoca nela uma grande retração. Aos trinta anos, é uma mulher casada, religiosa, que se recusa a manter relações com a luz acesa. Toda a segunda parte do livro é o processo do afloramento, nela, da antiga sexualidade recalcada. Não tenho medo de afirmar que Engaçadinha é uma das mais deslumbrantes figuras femininas da literatura ocidental.

Mas o romance, claro, não tem só ela. Há uma galeria de personagens inesquecíveis: Sílvio, que se mutilou como autoexpiação de um incesto involuntário; Letícia, prima apaixonada por Engraçadinha, que se suicida quando esta insiste em classificar o seu amor de “tara”; Zózimo, o marido estúpido e insatisfeito, obcecado por repetir com a mulher uma cena erótica de um filme francês; o juiz Odorico, que quer ser amante de Engraçadinha e pretende comprá-la com uma geladeira; Durval, o filho mais velho apaixonado pela mãe; Silene, a filha mais nova, que a mãe tenta reprimir para que sua história não se repita; o namorado de Silene, Leleco, que mata para não ser virar “mulherzinha”; e muitos outros.

Há pelo menos três lições que se podem tirar da leitura do romance: que ser um livro popular não o torna incompatível com a alta literatura; que o humor deliberado não implica superficialidade de pensamento; que os gêneros romanescos clássicos não estão esgotados.

Publicado primeiro em folhetins no antigo diário carioca Última Hora, Asfalto selvagem saiu em 1961 pela desconhecida editora J Ozon, em dois volumes. Curiosamente, só nos anos 80 surge a segunda edição, da Nova Fronteira, logo seguida pela do Círculo do Livro. A Companhia das Letras foi a primeira a editar o romance em volume único, no que foi seguida pela edição da Agir, que ainda está em catálogo. As duas últimas são as que recomendo, mas o garimpeiro deve preferir a da Companhia, que sai mais em conta, entre R$ 20,00 e R$ 30,00.

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