Ensaios e Resenhas

abril 2012 / Ensaios e Resenhas / As pegadas do gênio

Texto publicado na edição #144

As pegadas do gênio

Afonso é um andarilho. Passeia — como sugere o título do livro de Luciana Hidalgo, O passeador — pelas ruas […]

> Por FABIO SILVESTRE CARDOSO

Afonso é um andarilho. Passeia — como sugere o título do livro de Luciana Hidalgo, O passeador — pelas ruas de um Rio de Janeiro ainda em franca transformação. Mais do que um crítico intransigente na periferia do capitalismo, trata-se de um outsider que percebe a cidade em transição: no romance de Hidalgo, ele será um personagem; na história da Literatura Brasileira, será Lima Barreto, autor, entre outros, de Triste fim de Policarpo Quaresma e Recordações do escrivão Isaías Caminha. Obra oriunda de uma criativa imaginação literária (o argumento fundamental do romance, a vida de Afonso antes de ser Lima Barreto, é algo original por aqui), o livro de Luciana Hidalgo possibilita aos leitores, logo de cara, um conhecimento do universo ao qual o escritor pertencia. Oferece, nesse sentido, a chave de entrada para um ambiente que muitas vezes só é reconstituído graças aos livros de história da República Velha.

A motivação para tanto parece óbvia. Afinal, um dos “principais legados” da Semana de Arte Moderna em particular, e do modernismo em geral, foi efetivamente esvaziar de significado a geração que a precedeu. Note, leitor, que estamos diante de uma agenda cultural que obedecia, como poucas vezes visto por aqui, uma espécie de poética, a saber: a literatura brasileira e os demais segmentos artísticos deveriam, segundo essa perspectiva, romper com a tradição e com as movimentos que rezavam pela cartilha eurocêntrica do mundo. É bem verdade que aí reside uma bela contradição, afinal, alguns dos expoentes do modernismo brasileiro, sobretudo na primeira fase, tiveram sua formação e educação sentimental na Europa. Ainda assim, conforme exigia o manifesto de Oswald de Andrade, souberam superar essa influência, removendo o beletrismo da produção cultural brasileira. E é aí que a importância de um escritor como Lima Barreto se revela, uma vez que, mesmo antes dessa agenda (no começo do século 20), o autor havia se separado, do ponto de vista da linguagem, de certo artificialismo da produção cultural — para citar alguns nomes, Coelho Neto, Olavo Bilac. Com isso, a prosa do autor, contrastando de alguns de seus contemporâneos, é fluida, sem conter o rebuscamento oco da República dos bacharéis.

Nesse ponto, o livro de Luciana Hidalgo presta homenagem à altura ao escritor Lima Barreto, haja vista que a autora também se propõe a escrever de forma clara e lúcida, sem descuidar de certo apuro na forma. É bom que se diga: dos escritores brasileiros contemporâneos, incluindo aí alguns premiados, poucos conseguem manejar o texto em prosa de forma a um só tempo bem elaborada e com recurso de imaginação literária. Dito de outra maneira, embora o tema do livro em si seja bastante pertinente, é pela forma que a narrativa conquista o leitor. Vale a pena observar, a título de exemplo, a abertura do livro, dessas capazes de conquistar o leitor à primeira vista:

Afonso arrasta os pés pela terra seca, deixando uma trilha de pegadas displicentes. Tanto calor a essa hora o faz pensar num deserto desconhecido. Alheio ao sol, ele avança sonolento, olhos fixos no chão. A cabeça, sem pensamento, deixa-se conduzir pelos calcanhares ligeiros, estes sim sob o comando do corpo. Pousam, levantam, pisam em pontes improvisadas. Ao alcançar o trecho calçado, ele enfim encara a paisagem à sua frente. Tudo aí é de uma solidão cimentada. Está diante da avenida Central que, em construção, rasga, o centro do Rio de Janeiro num sorriso esburacado e perverso.

Com efeito, o parágrafo acima é a materialização de uma descrição bem estruturada, capaz de fazer com que o leitor observe efetivamente o passo a passo desse personagem. Na leitura, nota-se ainda como o narrador discorre sobre as partes do corpo deste Afonso (pés, cabeça, olhos); de modo semelhante, está evidenciada uma espécie de prosa poética, fruto, sem dúvida, de um envolvimento mais próximo com o universo da palavra. Isso não é pouco, mesmo em tempos, como os de agora, em que todos desejam posar como escritores. O narrador do romance de Luciana Hidalgo é muito mais do que uma testemunha de um gigante literário em formação. Trata-se, isto sim, de uma voz que se estabelece sem medo da grande referência que representa Lima Barreto para a literatura brasileira.

À medida que a narrativa avança, o leitor observa como surgiram os temas que forjaram a literatura de Lima Barreto. O artificialismo vazio; a estrutura social hierarquizada que remetia ao Antigo Regime, mesmo em tempos republicanos; a estrutura rígida do governo que acabava de chegar ao poder. Esses e outros pontos tornaram a prosa do autor de Clara dos Anjos o contra-exemplo da Belle Époque da capital federal. Nesse cenário, escritores desprovidos de talento genuíno ascendiam ao estrelato do grand monde das letras graças aos conchavos, enquanto Afonso, esse personagem idealizado, fica à margem, entre o riso e a melancolia, passeando pelas estantes, procurando as leituras que servirão de referência à sua obra.

Olhar atual
Especialista em literatura brasileira e pesquisadora da obra de Lima Barreto, Luciana não se vale desses títulos para compor esse livro. Em verdade, a não ser pelo enredo contemporâneo, o romance certamente poderia ser assinado por outro escritor que não tivesse as mesmas credenciais acadêmicas para tanto. Longe de ser um problema para a autora, trata-se, sim, de demonstração de sua capacidade de imaginação ficcional. Há que se notar, entretanto, que o livro utiliza como pressuposto um olhar contemporâneo e cínico, inventando um personagem que existe à frente de seu tempo. Em outras palavras, enquanto a literatura brasileira estava atenta a um momento extraordinário, com escritores fabricando uma cena intelectualizada artificialmente num país periférico, o Afonso de Luciana Hidalgo, como que repetindo o Lima Barreto visto pela lupa de nossos dias, é um satirista e um cínico em formação na melhor “tradição da pós-modernidade”.

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Luciana Hidalgo

Luciana Hidalgo. Foto: Divulgação

É jornalista e doutora em Literatura Comparada pela UFRJ, autora de Arthur Bispo do Rosário: o senhor do labirinto e Literatura da urgência: Lima Barreto no domínio da loucura, pelos quais ganhou dois prêmios Jabuti. Como jornalista, colaborou e editou importantes publicações do jornalismo cultural brasileiro, como a revista Bravo e o jornal O Globo (no caderno Prosa&Verso). O passeador é seu primeiro romance.

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Luciana Hidalgo
Rocco
192 págs.