Rodapé

outubro 2017 / Rodapé / As passagens benjaminianas: leituras (4)

Texto publicado na edição #210

As passagens benjaminianas: leituras (4)

Benjamin definia as passagens parisienses com "o templo do capital mercantil”

> Por RINALDO DE FERNANDES

Wagnervalter Dutra Júnior destaca, no artigo Breve leitura do espaço-tempo nas ‘Passagens’ de Walter Benjamin: contribuições para compreensão geográfica do capitalismo, um trecho em que Benjamin mostra como as passagens são descritas em um Guia Ilustrado de Paris da época: “Estas passagens, uma recente invenção do luxo industrial, são galerias cobertas de vidro e com paredes revestidas de mármore, que atravessam quarteirões inteiros, cujos proprietários se uniram para esse tipo de especulação. Em ambos os lados dessas galerias, que recebem a luz do alto, alinham-se as lojas mais elegantes, de modo que tal passagem é uma cidade, um mundo em miniatura”. As passagens “abrem espaço para o ‘baile’ das mercadorias”; são, para Benjamin, “o templo do capital mercantil”. A passagem é uma “rua lasciva do comércio, […] afeita a despertar os desejos” (Benjamin). Haveria, assim, uma “funcionalidade da arquitetura e da condição de vitrine das passagens”, que seriam “o paralelo do espaço-tempo da maquinaria da grande indústria”. Benjamin irá registrar, acerca das exposições universais (os megaeventos que, no século 19, em cidades como Londres e Paris, expunham de produtos artísticos a agropecuários e industriais; a Torre Eiffel, por exemplo, foi criada para a Exposição Universal de 1889, comemorativa dos 100 anos da Revolução Francesa): “O universo das mercadorias figura realizado na apoteose das exposições universais, possui a concreção de determinar a mercadoria como centro do mundo e Paris a sua capital”. O Barão Haussmann — que, escolhido prefeito de Paris pelo imperador Napoleão III, reformou e modernizou a cidade de 1853 a 1870, tornando-se conhecido na história do urbanismo — é, conforme observa ainda Dutra Junior, “o urbanista do capital por excelência, pois, captando os anseios da burguesia, edifica, em Paris, uma geografia do capital (imperialista), que fará longa carreira em todo mundo”. A haussmannização tinha como perspectiva os longos traçados das ruas e Benjamin vê esse ideal urbanístico “[…] correspondente à tendência continuamente manifesta no século 19 de enobrecer necessidades técnicas por meio de objetos artísticos”. É o caso dos boulevards, vias largas de trânsito tornadas conhecidas por Haussmann e que incorporavam em seus projetos a arte do paisagismo. Para Dutra Junior, “os boulevards, os magasins de nouveautés, as passagens, durante o século 19, foram a feição característica de espacialização do capital em Paris. Ligadas diretamente à expansão industrial e, consequentemente, à expansão da forma valor, adequavam-se à circularidade capitalista os fins do século 18 e meados do século 19”.

Print Friendly