Entrevistas

janeiro 2018 / Entrevistas / As coisas estão desacontecendo em nosso país

Texto publicado na edição #conteúdo on-line

As coisas estão desacontecendo em nosso país

Marcelino Freire escolhe passar as férias em um lugar isolado e longe das tentações da boemia

> Por Jonatan Silva

Marcelino_Freire

Marcelino Freire não é “apenas” um escritor, mas um dos principais agitadores culturais do Brasil, ou como ele próprio se define: um guerrilheiro literário. Em 2012, a Balada Literária, evento organizado por Marcelino, conseguiu um feito quase inédito: tirar de casa Raduan Nassar, que havia anos não participava de encontros públicos para discutir literatura.

“As coisas estão desacontecendo em nosso país. Eu quero que o movimento aconteça, que o movimento sobreviva”, comenta o autor de Nossos ossos, seu livro mais recente. Para Marcelino, os meses de dezembro e janeiro são um momento de refúgio dos compromissos literários e uma chance para se debruçar sobre aquilo que escreveu ao longo do ano.

O Rascunho, como parte do Especial de Férias, bateu um papo com o escritor, que falou um pouco sobre os hábitos durantes os dias de recesso.

• Como são as férias para um escritor? Esse é um momento de leitura ou distanciamento dos livros?
São nas férias em que eu escrevo mais. Coloco as leituras em dia. Releio os contos que eu escrevi durante o ano e vejo qual livro eles estão pedindo. Sempre escolho um lugar isolado, longe de internet e da tentação da boemia. Aproximo-me mais dos livros e fujo, correndo, da vida literária.

• Você usa as férias como um período criativo? Como é a sua dinâmica nesse momento?
Tudo o que eu não faço em casa, eu faço nas férias. Acordo cedo, faço café, preparo o pão com queijo. Bebo muito chá, também feito por mim. E aí sento para escrever, rascunhar, organizar os escritos. Os meses de dezembro e janeiro, eu reservo para este isolamento. E gosto de viajar sozinho. Somos eu e a literatura — em lua-de-mel.

• Existe algum momento marcante das suas férias na infância que reverberou na sua literatura?
Eu não tinha férias na infância. Pobre não tem férias em família. Nem sabia o que era isso. Só vim ter noção de férias quando comecei a trabalhar. Aí, contava os dias para o período de férias, em que aproveitava para ficar mais próximo da literatura. Visitei muitos escritores nessa época em que eu tinha férias do trabalho com carteira assinada: fui visitar Manoel de Barros em Campo Grande. Visitei Wilson Bueno, Manoel Carlos Karam, Jamil Snege e Valêncio Xavier em Curitiba, por exemplo.

• Houve algum autor que você descobriu nas leituras de férias e que acabou por se tornar essencial na sua formação como leitor?
Eu vou muito a Buenos Aires nos períodos desse isolamento (que às vezes pegam idem um pouco do mês de julho). Aí fico ziguezagueando pelas livrarias argentinas. Descobri o chileno Pedro Lemebel por lá — acabei, até, trazendo-o em 2013 para a Balada Literária em São Paulo. Uma vez, em Montevidéu, descobri os uruguaios Felisberto Hernández e Mario Levrero. Conheci mais a poesia de Gabriela Mistral em Buenos Aires. O amigo e escritor argentino Washington Cucurto, eu tive o prazer de conviver mais com ele, diretamente, em uma dessas férias literárias.

• Além de escritor, você organiza eventos literários como a Balada Literária, que teve a participação de Raduan Nassar. Esse envolvimento com o universo dos livros é uma espécie de abrigo contra o mundo dito real?
Sem dúvida, eu invento esses casulos de resistência. Eu preciso acreditar na literatura. As coisas estão desacontecendo em nosso país. Eu quero que o movimento aconteça, que o movimento sobreviva. Escrever, fazer a Balada Literária são atos de guerrilha. É o jeito de eu manter a cabeça erguida, o sonho em pé. É uma maneira de eu não me sentir covarde, não me sentir bundão. Eu respiro quando eu estou escrevendo, quando eu estou colocando a literatura em circulação. Meu sangue circula junto.

• Que livro você indicaria como leitura para as férias?
Pai, pai, o mais novo romance de João Silvério Trevisan, publicado pela Alfaguara. No livro, Trevisan fala muito em férias, atormentadas, de alguma forma, oprimidas de alguma forma, mas foi ali, nas viagens em família, que João Silvério foi aprendendo a resistir, a ser e a combater a própria família. E por falar em Trevisan, serve também, para as férias em família, qualquer livro de outro Trevisan, o genial Dalton. Esse derruba qualquer ideia de família. E isto é uma boa diversão.

Print Friendly