Quase-diário

janeiro 2013 / Quase-diário / Arte e placebo

Texto publicado na edição #101

Arte e placebo

Sabemos que placebo tecnicamente é um falso remédio. É definido mesmo como uma substância, uma cirurgia e até mesmo “terapia […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

Sabemos que placebo tecnicamente é um falso remédio. É definido mesmo como uma substância, uma cirurgia e até mesmo “terapia de mentira”. É chamado também de “pílula de açúcar”, talvez indicando sua função de adoçar apenas, deixando o efeito por conta do auto-engano. O curioso é que o efeito placebo é mensurável tanto em indivíduos quanto em grupos.

Pode-se fazer uma aproximação pertinente entre o placebo e certa “arte” de nosso tempo. Os artistas que administram essas obras (ou drogas) sabem e alardeiam que estão servindo uma obra falsa (“fake”). Duchamp se gabava de ser “pseudo” e é infindável o número de artistas que cultuam o “pastiche”, a “cópia”, e se “apropriam” de obras originais de outros embaralhando questões éticas e estéticas. Muitos dizem claramente que não estão fazendo arte, como se dissessem não lhes estou servindo remédio, mas qualquer coisa substituta. E o mecanismo de deslocamento e substituição, por isso, se tornou o eixo estrutural desse tipo de arte que se gratifica em enganar o consumidor. Pode esse artista fazer uma exposição com nenhum quadro na galeria, pode acumular apenas lixo, pode assinar obras que não são suas, apresentar telas em branco, enfim, uma série de produtos que são o oposto do que o cliente/paciente espera.

O que faz com que uma pessoa confesse que teve êxtase diante de um quadro totalmente branco ou preto, ou numa galeria totalmente vazia? Na teoria do placebo crê-se na força psicológica da recepção. O receptor é que faz o remédio, como o receptor na acepção de Duchamp é que faz a obra de arte. Assim dizem os textos de medicina que “muitos acreditam que o efeito placebo seja psicológico , devido a um efeito real causado pela crença ou por uma ilusão subjetiva”.[1]

Observem as palavras “psicológico” e “crença”. E os relatórios médicos continuam a afirmar que “o fator crítico” é a vontade de acreditar, de aceitar o que diz a bula, o médico ( e/ou crítico e artista). “As crenças e esperanças de uma pessoa sobre o tratamento, combinadas com sua sugestibilidade, podem ter um efeito bioquímico sugestivo”[2]. No plano social as opiniões, o contexto em que cada um tem que exercer determinado papel, a insegurança e o desejo de acreditar precipitam a aceitação do placebo artístico.

Ainda neste sentido, a identidade entre o efeito placebo e o efeito artístico é irrecusável. Refiro-me ao aspecto da representação. O paciente que toma o placebo passa a representar, a atuar como se o remédio verdadeiro tivesse provocado o esperado efeito. Como diz o texto clínico, “há uma certa quantidade de representação de papéis pelas pessoas doentes ou feridas. Representação de papéis não é o mesmo que falsidade, é claro. Não estamos falando de fingimento”[3]. No espaço da arte, convenhamos, talvez a questão possa ser mais sutil e certamente há espaço para o fingimento e para a crença.

As estatísticas mostram que até 75% de certos tratamentos com placebos dão certo, o que talvez explique porque se constroem tantos museus de arte contemporânea no mundo hoje. Dizem ainda os relatórios que há casos de pessoas “viciadas em placebos”, casos de pessoas dependentes de placebo, que tomaram o falso pelo verdadeiro, verdadeiramente, o que torna questão ainda mais fascinante. Estamos em plena área bem-sucedida e terapêutica do auto-engano.

Esses textos médicos assinalam ainda: “o placebo pode ser uma porta aberta para o charlatanismo”.

No seu estudo sobre epistemologia e tendo que tratar de alguma maneira da questão da verdade e da mentira, Jean Piaget assinala que quando perguntaram a Bertrand Russel sobre “idéias falsas, infelizmente mais freqüentes que as verdadeiras”, o filósofo inglês redarguiu pontuando que elas “subsistem também, ao lado das verdadeiras, do mesmo modo como existem rosas vermelhas e rosas brancas”. Isso é bem melhor do que dizer como os sofistas duchampianos que todas as rosas têm a mesma cor, ou evitar responder a questão, como fazem outros sofistas, preferindo indagar, afinal o que é uma rosa?

Daí eu assinalaria que há que saber nomear as rosas e conhecer suas diferenças, quando não seja para apreciá-las, pelo menos para não enviar equivocadamente rosas brancas quando se quer enviar rosas vermelhas, pois a diferença cromática é já uma mensagem.

[1] Carroll, robert Rodd-“The skeptics Dictionary” http:// spekpedic. com/brzil/placebo.html,p 1

[2] Ob. cit. p .1

[3] idem ibidem.

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