Ensaios e Resenhas

março 2020 / Ensaios e Resenhas / Arsenal sofisticado

Texto publicado na edição #239

Arsenal sofisticado

Livros da norte-americana Ursula K. Le Guin se sustentam para além do rótulo de ficção científica

> Por FABIO SILVESTRE CARDOSO

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O futuro, em ficção, é uma metáfora.
Ursula K. Le Guin

Ursula K. Le Guin morreu em janeiro de 2018. À época, a repercussão foi significativa, digna de uma autora que, para todos os efeitos, tinha combatido o bom combate, acabado a carreira e guardado a fé na literatura. Autora de romances como A mão esquerda da escuridão e Os despossuídos, lançados no Brasil pela Aleph, sua obra, ao menos em tese, está contida no gênero ficção científica, uma divisão que, até pouco tempo atrás, não era motivo de muita estima para o cânone das boas letras. Para uma parcela considerável de leitores (e de críticos), essa literatura imaginativa perde em valor exatamente porque lida com cenários abstratos, distantes e marcadamente influenciados pela tecnologia. Ocorre que uma leitura mais cuidadosa mostra que essa produção literária, por mais distantes do realismo que possam parecer, guarda ampla conexão com o tempo e a época da vida presente, especialmente quando essas obras se valem das distopias, que, cada vez mais, têm sido a chave utilizada para ler o momento político, cultural e social que vivemos.

Como observa o autor Gregory Claeys[1], num estudo que apresenta a trajetória e a evolução da ideia de distopia ao longo dos tempos, é mesmo possível observar a seguinte transição: se, no passado, as distopias se referiam a deuses e monstros — como é o caso da punição divina por ocasião do dilúvio —, no presente, elas se aproximam da realidade como numa projeção de um futuro que não operou conforme o que se idealizava, consequência, por exemplo, da opressão política — como nos frequentemente citados Nós (1924), de Yevgeny Zamiátin; Admirável mundo novo (1932), de Aldous Huxley; e 1984, publicado em 1949, de George Orwell; e, mais recentemente, O conto da Aia (1985), de Margaret Atwood, adaptado para a série da emissora Hulu The Handmaid’s Tale. De algum modo, esses livros, outrora clássicos de nicho, transcenderam esses campos e se tornaram populares graças a um processo de ressignificação. Dito de outro modo, para além das narrativas que essas histórias propõem, foi acrescentada a marca d’água da mensagem política. E, de certa maneira, é o que pode estar acontecendo com os escritos de Ursula K. Le Guin.

Não que ela ambicionasse por isso. Como escritora, Ursula não pretendia que suas histórias tivessem essa ou aquela mensagem política; sua preocupação parecia ser com a narrativa. É o que ela própria revelou em entrevista[2] concedida quando já estava estabelecida como escritora. Ao mesmo tempo, ela entendia que o contexto político do feminismo era importante para que ela pudesse escrever o que desejasse, dando voz a um tipo de escritura própria das mulheres, ecoando, inclusive, o que pensou Virginia Woolf em Um teto só seu (1929). Essa profissão de fé, no entanto, só tem valor porque a obra de Ursula se sustenta como literatura, para além da distinção do gênero de ficção científica.

Além do enquadramento
Sim, a obra de Ursula K. Le Guin se mantém graças a um arsenal de recursos literários que a fazem superar as divisões propostas pela crítica e pelo mercado editorial. É de grande literatura que se trata, a ponto de, muitos anos depois de concebida, o trabalho da autora conseguir capturar o espírito tempo numa chave que vai além de certa especulação comparativa. Não que essas questões estejam defasadas. Pelo contrário. No entanto, é necessário observar como chegamos à opressão a partir das histórias. No caso de Ursula, quando se nota a temática central de A mão esquerda da escuridão estamos numa rotação distante da sátira política. Tudo isso porque a obra problematiza a seguinte questão: “Qual é a diferença entre homem e mulher?”. Para responder a essa pergunta, a autora avança numa obra cujos personagens são andróginos, e que podem assumir um gênero somente uma vez por mês. É inegável que a associação mais imediata aqui seria com a urgência da discussão relacionada à identidade de gênero, uma das pautas mais controversas e polêmicas dos tempos que seguem, que, não por acaso, foi sequestrado pela dicotomia política. Ocorre que a perspectiva abordada por Ursula tem a ver com uma leitura mais abrangente, relacionada, por exemplo, à forma de conquistar uma voz original em termos de criação artística.

Na história, o leitor tem acesso a uma série de documentos oficiais relativos ao planeta Gethen, dos quais é possível destacar as impressões elaboradas por Genly Ai, um diplomata cuja missão é persuadir os líderes de Gethen a ingressar numa liga ecumênica; passagens do relato pessoal de Estraven, personagem gethiana; bem como poemas e lendas de Gethen. Essa tempestade de gêneros compõe a narrativa de A mão esquerda da escuridão de tal maneira que o leitor se vê envolvido por um universo particular.

Com efeito, o que se lê no romance é, sim, uma distopia que pode ser encampada pela leitura política da vida contemporânea, tendo em vista, essencialmente, a maneira como um líder autocrático, para dizer o mínimo, exerce o seu poder assumindo que está acima do bem e do mal. Acontece que, na medida em que se lê essa obra hoje, tomando como gancho essa premissa, a mensagem embutida nessa interpretação — que, lembremos, é uma interpretação — se sobrepõe à narrativa ficcional. De maneira que, exagerando o argumento aqui exposto, o debate político se torna mais importante que a literatura — algo que faria a autora lamentar profundamente.

Dito de outro modo, embora essa agenda seja mais do que relevante e faça com que as mulheres se tornem mais empoderadas, é o talento da autora que merece louvor, sobretudo porque Ursula se estabelece num ambiente hostil, onde as referências femininas praticamente inexistiam. É certo que Mary Shelley sempre pode ser citada como ponto cardeal. Mas no contexto do século 20, num momento em que as tensões sociais e políticas grassavam, conquistar o espaço significava mesmo instaurar novos modelos. E é exatamente isso que fez Ursula Le Guin.

Nesse sentido, a discussão sobre gênero não se torna inédita nos dias que correm exatamente porque, há 50 anos, a autora de A mão esquerda da escuridão enfrentou esse tema numa perspectiva artística, de ficção, abrindo a possibilidade para que o futuro assim fosse imaginado, reiterando, talvez no limite naquele contexto, o poder da criação literária, marcada, aqui, pela preocupação em se colocar no lugar do outro — o que, na prática, é impossível, se torna viável e concreto na concepção artística. Vem daí a força desse texto hoje? Uma hipótese que levasse em consideração o significado político desse texto daria ênfase ao conteúdo desse relato. Só que essa proposta só se torna legítima porque existe todo um cuidado formal para com o acabamento dessa ficção — seja na construção das personagens, seja na condução do relato — e isso, por fim, faz toda a diferença.

A descrição a seguir, extraída de A mão esquerda da escuridão, é um caso exemplar nesse quesito:

Tínhamos parado junto ao portão do jardim murado. Lá fora, as dependências e os telhados do Palácio assomavam num caos escuro e nebuloso, iluminado aqui e ali, em alturas variadas, pelo fraco brilho dourado das fendas das janelas. Em pé sob o arco estreito, olhei para cima me perguntando se aquela pedra-chave também fora cimentada com osso e sangue. Estravem pediu licença e retirou-se; ele nunca exagerava nos cumprimentos e despedidas. Atravessei os pátios e becos do Palácio, minhas botas esmagando a neve fina iluminada pela lua, e rumei para casa, pelas vielas da cidade. Estava com frio, inseguro, atormentado por perfídia, solidão e medo.

Duas utopias
Se, em A mão esquerda da escuridão, a perspectiva do gênero dominante é colocada em xeque, em Os despossuídos é a própria ideia de equilíbrio que aparece como elemento central da narrativa. Na história, os planetas Anarres e Urras representam o duplo um do outro, e o leitor toma não somente conhecimento dessas particularidades, como também aprende a jornada de Shevek, o protagonista que segue de Anarres para Urras, oferecendo a leitura de certo desencanto para com as utopias — um golpe duro para aqueles que, ingenuamente, veem a utopia como contraponto válido e legítimo às distopias.

É a noção de equilíbrio, aliás, que se torna um dos motores dessa narrativa, que, num primeiro momento, pode soar como absolutamente fora do esquadro político que se tinha notícia em meados da década de 1970. Num resgate que hoje talvez seja necessário, no momento em que foi publicado o livro (1974), a China ainda não era a potência que é atualmente; a Guerra Fria, embora no período da distensão, seguia na agenda internacional; e a própria corrida espacial tinha perdido um pouco da sua atração, depois da missão que levou o homem à Lua em 1969.

Então, por que Os despossuídos é obra digna de sensação, antes e agora? Em verdade, as duas utopias que mobilizavam a imaginação, os corações e as mentes mais preparadas nos anos 1960 e 1970 são o corpo e a alma do livro, haja vista que, de um lado, em Anarres, a simplicidade, o cuidado e a compaixão são mais do que abundantes, enquanto em Urras o modelo convencional e hierárquico da sociedade capitalista está preservado. Para além do embate político da sua época, essa história também ganha relevo num cenário de ampla polarização que existe no mundo contemporâneo.

Em um trecho que poderia ser lido como uma defesa pelo desejo de conhecer o outro, Shevek, o protagonista da história, é o veículo para a virtude da moderação sugerida por Ursula K. Le Guin:

Vocês entendem, eu sei muito pouco. Estudamos sobre Urras, mas principalmente sobre a época de Odo. Antes disso são 8500 anos de história! E depois, desde a Colonização de Anarres, já se passaram cento e cinquenta anos; desde que a última nave trouxe os últimos Colonos… ignorância. Nós os ignoramos; vocês nos ignoram. Vocês são nossa história. Nós somos talvez seu futuro. Quero aprender, não ignorar. Foi por isso que eu vim. Devemos nos conhecer. Não somos homens primitivos. Nossa moralidade não é mais tribal, não pode ser. Essa ignorância é errada, da qual surgirão erros. Por isso vim aprender.

Em que pese essa contundência, tal como acontece em A mão esquerda da escuridão, Ursula faz de Os despossuídos uma plataforma onde exibe seu talento literário e o pleno domínio da técnica narrativa, de modo que o livro não é fruto “apenas” da fértil imaginação da escritora. Nesse sentido, ganham relevo aqui a intrincada construção narrativa, onde os capítulos são seccionados conforme o planeta e os eventos políticos aparecem como sombras, dando cor ao cenário.

Não resta dúvida de que a política dos dias que seguem parece um prato cheio para que as interpretações das obras literárias reforcem a marca de que as distopias são capazes de antecipar os eventos futuros. Nesse ponto, a tentação maior é tomar determinadas obras de ficção científica como capítulos de uma Revelação. De acordo com essa leitura dos acontecimentos, portanto, estaríamos fadados aos piores pesadelos que foram imaginados. E o caráter de profecia tende a se tornar ainda mais catastrófico quando existe certa leitura moralizante desses textos, levando em conta que essas histórias são capazes de funcionar como um vaticínio do pior que está por vir. Mais alarmista, impossível.

O contraponto, nesse caso, parece vir exatamente da pena de Ursula Le Guin, que, ainda na introdução de A mão esquerda da escuridão, atenta para o óbvio ululante: “o trabalho do romancista é mentir”. Ou, por outra, a missão e a responsabilidade dos escritores de ficção científica não podem estar associadas às previsões de um futuro tenebroso. A literatura escatológica de ocasião é uma roupa que veste bem os (falsos) profetas. Aos escritores de ficção científica convém imaginar e fazer uso da palavra do modo mais sofisticado possível. Parece simplório, mas mesmo uma autora como Ursula Le Guin não conseguira fazê-lo sem o uso das metáforas.

Em um mundo onde o fato e a ficção se confundem; onde o poder e a opressão se complementam; e onde o lugar de fala se impõe como modo de silenciar o outro, as lições que Ursula K. Le Guin tem a nos oferecer vão além do proselitismo. É uma experiência que somente a literatura pode proporcionar.

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A mão esquerda da escuridão
Ursula K. Le Guin
Trad.: Susana L. de Alexandria
Aleph
304 págs.

 

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Os despossuídos
Ursula K. Le Guin
Trad.: Susana L. de Alexandria
Aleph
384 págs.

A AUTORA
Ursula K. Le Guin
Nasceu na Califórnia (EUA), em 1929. É um dos principais nomes da ficção científica e fantasia do mundo. Suas obras são influenciadas pelos movimentos culturais dos anos 1960 e apresentam temas como sexualidade, feminismo, etnografia e religião. Ganhou mais de 50 prêmios literários. Morreu em 2018.

NOTAS

[1] CLAEYS, Gregory. Distopia: A natural history. London: Oxford University of Press, 2017.

[2] A entrevista em questão pode ser acessada a partir do link a seguir <https://www.youtube.com/watch?v=M73cyc9lhhI&t=1277s>

 

 

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