Ensaios e Resenhas

maio 2015 / Ensaios e Resenhas / Areia movediça

Texto publicado na edição #180

Areia movediça

A casa cai, de Marcelo Backes, centra forças na vida, por vezes, mesquinha dos ricos brasileiros

> Por HARON GAMAL

Marcelo Backes

Marcelo Backes. Foto: Divulgação

Em seu novo romance, A casa cai, Marcelo Backes retoma a tradição da narrativa urbana, iniciada na literatura brasileira no século 19. Um narrador em primeira pessoa apresenta-se logo no início do livro dizendo: “Parecia mesmo que eu não ia conseguir voar”, frase enigmática que nos remete a várias direções, prometendo uma narrativa altamente metafórica. Na verdade, este personagem e uma mulher, que pouco a pouco ocupa cada vez mais espaço em sua vida, estão no interior do Rio Grande do Sul e, dali, têm a intenção de retornar ao Rio de Janeiro.

As quatro partes que compõem o livro são nomeadas: Final de 2011, hoje aurora; 1968, Anteontem; 2012, Sol a pino; Início de 2013, hoje, crepúsculo. Seguindo o curso de um dia, fazendo vez ou outra um flashback, o autor procura mostrar o desenvolvimento do personagem, de quem sabemos o nome apenas no final.

O esdrúxulo protagonista pertencente à classe alta da sociedade aparentemente desiste das benesses que o dinheiro poderia lhe oferecer e ingressa num seminário em Petrópolis, onde permanece durante doze anos. A retirada do mundo, no entanto, não proporciona a ele maiores aprendizados, nem em relação à vida moral nem à social. Sua atitude pseudorreligiosa, segundo nos conta, foi uma atitude de vingança contra o pai, por tê-los abandonado, ele e a mãe, num apartamento em Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro. Após a morte deste pai, o personagem, que é filho único, desiste do seminário e se volta à vida mundana, a desculpa é que precisa administrar sua herança. Ele descobre, então, que não precisará trabalhar; mas atitudes, como lidar com o advogado que administra o espólio e mesmo as operações com um simples cartão de banco, lhes são muito penosas.

Uma mulher chamada Lívia, com idade de ser sua mãe, inicialmente parece ser alguém interessada em ajudá-lo, mas logo depois passa a ser sua namorada e, mais adiante, sua esposa. A seguir, somos informados que ela também fora uma espécie de amante ou namorada do pai deste narrador. Portanto, ele não herda apenas o dinheiro e as propriedades, mas também a ex-mulher de seu pai.

É sempre positivo que a literatura investigue as mazelas sociais, de preferência quando elas vêm à tona a partir do ponto de vista de um personagem pertencente à elite. Pouco a pouco, através da investigação num cofre que permanecia trancado no apartamento em que o pai morou até falecer, na Delfim Moreira, avenida litorânea situada no Leblon, o protagonista descobre várias ações nada legais levadas a cabo por seu progenitor junto com políticos desonestos e outras pessoas inidôneas, a intenção era enriquecer ilicitamente. Todas essas ações têm a ver com a expansão do mercado imobiliário do Rio de janeiro a partir dos anos 1960. Tais pessoas promoviam a valorização artificial de terrenos e imóveis da zona sul da cidade, chegando a ponto de se tornarem mandantes de incêndios criminosos ocorridos nas favelas, atitudes que visavam à consequente remoção da população de baixa renda para bairros afastados possibilitando, assim, a construção de condomínios de luxo nos terrenos desocupados.

Verdadeiros abutres

Na tradição literária brasileira, quando deparamos com romances que apresentam personagens ligados à elite, não podemos esquecer Machado de Assis com seus dois principais livros, Memórias póstumas e Dom Casmurro, em que ele narra os desmandos e as mazelas praticadas por irresponsáveis que se achavam todo-poderosos. Em A casa cai, Marcelo Backes tenta nos passar a mesma problemática. Outro livro importante, que pode ter servido de modelo para retratar as angústias vividas por alguns personagens deste livro é Crônica da casa assassinada, de Lúcio Cardoso, muito embora em Cardoso a introspecção seja bem maior do que no livro de Backes, e nos livros de Machado a transcendência e a pungência de alguns personagens sejam mais acentuadas e reveladoras. Em meio a uma sociedade plena de distorções, a classe A, residente na zona sul, principalmente em Ipanema e Leblon, passeia por vernissages, coquetéis e exposições de artes. Nomes de vários artistas contemporâneos desfilam pelo livro, juntamente com referências às obras de arte produzidas por eles. Nota-se certa ironia em relação ao panorama artístico brasileiro e mundial. O narrador, quando está entediado, viaja pelo mundo, e aproveita para criticar, assim como faz em relação aos seus conterrâneos, o modo de vida das pessoas de outros países. Em certa passagem do romance, ele resolve tomar um ônibus para ir à favela conhecida como Rocinha, que também fica na zona sul do Rio, local onde teria nascido sua mãe. É cômica a viagem que empreende pelo morro, tonando-se ele objeto de escárnio não só pelo modo como está vestido — uma espécie de dândi contemporâneo — como também a se surpreender a cada momento com as atitudes mais comezinhas da população local. Apesar de criticar o pai, o personagem passa a agir da mesma forma que ele, tornando-se, ele e seu advogado, verdadeiros abutres.

O livro, em sua estrutura, é bem construído, revelando que o autor conhece a carpintaria romanesca. Outro ponto positivo é que se trata de obra ambiciosa, até certo ponto extensa, fato incomum entre os ficcionistas brasileiros contemporâneos. O principal ponto desfavorável é que o romance, em vários momentos, torna-se pretensioso. Talvez por Backes ser ótimo tradutor, tendo obtido o grau de doutor em germanística e romanística na Alemanha, por já ter vertido ao português grande parte do que há de mais canônico na literatura alemã e mundial, tenha se deixado enfeitiçar pelo excesso de erudição. Seu livro é pleno de referências a obras de artes, a doutrinas religiosas, a obras literárias de autores consagrados, à filosofia (até Nietzsche dá as caras), e a curiosidades de outras culturas. Há também referências a acontecimentos que frequentaram as páginas da imprensa nos últimos dois ou três anos, como o incêndio de uma boate no Rio Grande do Sul e o desabamento de um prédio no centro do Rio, entre outros acontecimentos, o que torna o texto datado. A linguagem utilizada pelo narrador ora trafega num misto de variante chula da língua portuguesa, utilizando palavrões em excesso, ora numa tentativa de demonstrar erudição. Talvez do ponto de vista da construção do personagem, a verossimilhança não esteja adequada. Mesmo se tratando de alguém oriundo de um seminário, onde se estuda a vida do espírito, suas atitudes em relação à vida prática são ingênuas demais. Um personagem de tal monta, pertencente às classes abastadas, agiria com mais dissimulação e não cometeria os exagerados e imprudentes atos inverossímeis que permeiam o romance, sobretudo o praticado por ele no final. Os ricos não são ingênuos. É isso que destoa no comportamento deste conflituoso (no mal sentido) narrador.

A leitura deste livro não é para qualquer um, é preciso estar consciente de que a literatura não está para nos causar apenas prazer, mas muitas vezes para nos aborrecer, e tento dizer isto no sentido mais positivo possível.

“Parecia mesmo que eu não ia conseguir voar”, voltando à frase inicial, pode-se dizer que Marcelo Backes, com este seu novo romance, conseguiu voar sim, mas é preciso lembrar que todo voo pressupõe uma rota a seguir. Em literatura, isto significa que não se pode falar de todos os assuntos ao mesmo tempo.

 

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Marcelo Backes

Nasceu em Campina das Missões (RS), em 1973. É autor, entre outras obras, de Três traidores e uns e outros (2010) e O último minuto (2013). Doutor em germanística e romanística pela Universidade de Friburgo, Backes traduziu obras de Arthur Schnitzler, Franz Kafka, Heinrich von Kleist, E.T.A. Hoffmann, Ingo Schulze.

Pra terminar a noite, Nadiejda, Nadienka pra mim, pediu no inglês mais cheio de erres e sem artigos que já ouvi que eu urinasse em cima dela no banheiro, imitando o búfalo da garrafa depois de tanta vodca. Foi a única coisa que eu consegui fazer, e foi bom. Nadiejda, Nadienka pra mim, nem me pediu mais.

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Marcelo Backes
Companhia das Letras
424 págs.