Dom Casmurro

março 2016 / Dom Casmurro / Arco de virar réu

Texto publicado na edição #191

Arco de virar réu

Trecho do romance de estreia de Antonio Cestaro

> Por Antonio Cestaro

Ilustração: Rafa Camargo

Ilustração: Rafa Camargo

A voz rouca da Carolina me acorda e o temor fica na floresta, de onde trago o orvalho das folhas que molham o travesseiro. No relógio da cabeceira os ponteiros parecem assustados a marcar três e quarenta e cinco, e um caminhão de lixo mastiga na rua as sobras dos nossos dias enfadonhos. A Carolina um dia me perdoa! Quisera eu ter sonhos bons, de bicho anjo a me entregar confortos. Adormeço. De volta à floresta, dois olhos vermelhos espreitam de longe o corpo defunto de um índio, com a zarabatana, o arco e a flecha ao lado do corpo ainda a protegê-lo. É mamaé ruim, de outros tempos, os da infância, reconheço pela malevolência oculta no arco e flecha. Ao fundo, um murmúrio choroso vai somando vozes numa prece de resgate que se avoluma e, no ápice, estanca num grito apavorante.

Atravessem a ponte! Golpeiem com lâminas afiadas os cães com mandíbulas de morder calcanhares!

Acordo. Preciso não dormir e não ter que abraçar a ossada de um corpo decomposto e tirar da sepultura as memórias perversas que ficaram por anos sob uma camada de terra insuficiente para mantê-las isoladas do meu mundo. Esfrego os olhos numa tentativa inútil de enganar o cansaço que me empurra de volta para a cama, onde esse e outros embates continuarão numa peleja incansável, que mistura os conflitos armados do Pedro, seus soldados e generais, com os guerreiros e maus espíritos da mitologia indígena. Histórias distintas em mundos diversos, conflagrações que usam de forma oportunista os meus temores e os sobrepõem aos desvarios do Pedro. Que me fazem pagar por mim e por ele um preço para além da minha resistência. Sinto esvaírem-se as minhas forças de combate, e os meus planos de enfrentamento e de poder resolutivo são frutas verdes que ainda não devem ser mordidas.

[…]

Protelo o sono o quanto posso até os olhos se fecharem sem eu me dar conta. Acordo sentado na frente de uma fogueira, com oito índios em círculo ouvindo atentos as instruções de como desmembrar, levar ao fogo e servir o inimigo capturado no combate do dia anterior. Os seus órgãos serão assados e dispostos sobre folhas de bananeira, toda a sua carne consumida, e os seus ossos moídos em pilão até virarem pó para ser misturado ao mel. As palavras fluem da minha língua com a convicção dos ungidos e a sabedoria de um ancião que transmite o conhecimento sagrado da cultura de um povo ancestral. Quem sou eu afinal? Acordo com a interrogação suspensa no escuro da noite e a urgência de olhar para o espelho para ver quem encontro.

Observe! Enxergue com os olhos da alma o que as vistas não alcançam. Livre-se das insígnias e assuma sem resistência a personalidade primitiva!

O amanhecer ainda vai demorar, o silêncio é temperado pelo tritinar de grilos e o uivo distante de um cão. O que estarão fazendo os que dormem profundamente é uma curiosidade antiga. As respostas que tive nunca chegaram perto daquilo que eu desejava ouvir. Estou assimilando a ideia de que dormir e sonhar é o ensejo para mergulharmos na natureza essencial daquilo que seríamos se não fosse o pacote de regras que exigem, desde o berço, que sejamos o mais próximo daquilo a que fomos, por manipulação e interesses alheios, destinados.

Apanho na cabeceira o meu caderno de anotações, onde encontro palavras e frases inteiras sublinhadas com uma tinta verde que presumo ter saído da caneta da Carolina. Para onde foi a Carolina? O Juca quer que eu acredite que ela não vai mais voltar. Caminho até o quarto da Carolina, abro a porta sem bater e encontro uma cama arrumada e o armário vazio. Algumas vezes é melhor acreditar nas verdades que o Juca inventa.

[…]

Você, mais do que qualquer outro, poderá compreender que do ponto de vista físico o meu tempo marcava as últimas medidas, e sem esforços concluirá que o melhor e o pior são, em muitos casos e neste em particular, opções de valores equivalentes, representando apenas diferentes alternativas a serviço de toda a gente, em disposições, ainda que distintas, surpreendentemente igualitárias. Assim refletindo, você aceitará o fato de que a perda no sentido figurado se mostra por vezes vestida de ganho no sentido prático, tendo exercido parte da sedução mobilizante que suscitou os desfechos definitivos por mim há tanto almejados. Sei que você se irritará neste mesmo instante com a lembrança de ter passado todo o tempo reafirmando que nunca me compreenderia na plenitude enquanto eu continuasse a fazer uso de argumentos moldados na dicotomia. Quero admitir, nesta última vez, que o contraditório realmente abarcou toda a minha lógica e o fez movido pela naturalidade de um pulmão a inspirar e expirar inconscientemente. Vida e morte num só tempo e em todo o tempo.

Volto dezenas de anos no passado. Tenho voltado inúmeras vezes e deparado sempre com a imagem nítida daquele artefato indígena que transformamos em arma na segunda noite daquele último acampamento de férias da escola. Aquele, Juca, foi para mim o arco de virar réu, e dividiu em boas e más águas o rio que banhava a virtude, na época por mim projetada tão durável quanto uma existência. Me pergunto se você ainda se lembrará do nome daquele que foi o sujeito do segredo mais bem guardado da nossa história. Da minha parte, aquela abominável arma indígena irrompeu, desde então, todas as vezes que fechei os olhos.

Nunca o culpei e ainda agora não penso que a sua e a minha responsabilidade sobre aquele acontecimento tenham sido suficientes para nos colocar nas vias da aflição tal como sucedeu nos primeiros tempos e depois, ao longo de todos esses anos, em mim, na forma de má e indelével reminiscência. Não obstante a sua facilidade em abstrair e superar os efeitos de tal ocorrência, visitei aquelas cenas até os meus últimos dias, e sobretudo nos últimos dias. Sei que o nosso feito decorreu muito mais da circunstância do que de convicções, pois naquele tempo não as tínhamos estruturadas em comum. O preço que custou, esse sim o pagamos em pro­porções tão diversas quanto as nossas habilidades em escamotear interiormente a importância e as implicações dos nossos atos em vidas alheias.

Sem arrependimentos, Juca, apenas a consta­tação do distúrbio e da clareza que desde então combateram em mim. A lição daquela tragédia, no entanto, ainda que arrebatadora, não resultou em força simbólica suficiente para conter novas transgressões, abalizadas sempre, é bom dizer, por razões que tínhamos ou que forjávamos ao ânimo do momento. E assim também o fizemos nas ou­tras vezes, ocasionalmente com ferramentas cor­tantes da sua preferência. Sem arrependimentos, primo, apenas a constatação do lado sóbrio que fora a segunda voz de uma mente amadurecida para o desengano.

 

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