Sujeito oculto

fevereiro 2012 / Sujeito oculto / Aprendiz de Zatopek

Texto publicado na edição #142

Aprendiz de Zatopek

  Sonhei com Zatopek. Foi nosso primeiro encontro. Na agitação do sono, ele corria. Uma besta enfurecida, sem qualquer técnica. […]

> Por ROGÉRIO PEREIRA

"Sulcava as pistas com passadas de animal voraz. Nada o parava até a linha de chegada. A dor em busca da vitória."

 

Sonhei com Zatopek. Foi nosso primeiro encontro. Na agitação do sono, ele corria. Uma besta enfurecida, sem qualquer técnica. Apenas corria. Forrest Gump de nervuras indestrutíveis, trem sem freios a arrancar sangue dos trilhos. Havia sofrimento nas ranhuras do rosto, no cabelo lambido, nos braços longos, nas pernas esquálidas e torneadas por músculos a romper a geografia do corpo. Sulcava as pistas com passadas de animal voraz. Nada o parava até a linha de chegada. A dor em busca da vitória. Na Olimpíada de Helsinque, em 1952, transformou-se em lenda. Em apenas dez dias, venceu três provas de longa distância, inclusive a maratona. O sonho rápido, em compasso com o personagem, arrastou-me às cartas. Elas, assim como Emil Zatopek, também estão mortas.

Quando o professor gritava “já”, meu corpo desprovido de qualquer adiposidade tentava superar-se. Tinha de chegar antes dos demais ao muro chapiscado, sujo e feio. Sob meus pés, no piso irregular de cimento bruto, uma infância febril. Os braços tentavam em desespero agarrar-se ao ar — Tarzan dependurado em cipós imaginários —, as pernas finas trotavam na ânsia de vencer. Mastigava cada passada com a fome dos desesperados. Transpirava na camiseta de cujo tecido o símbolo escolar já desbotara havia tempo. O barulho seco e oco dos pés na pista denunciava o improviso do tênis inadequado — soldado, em plena batalha, montado em um cavalo-marinho, a combater um submarino atômico. A derrota me esperava no muro adiante.

Nos infinitos segundos daquela guerra, bastava o desvio do olhar para avistá-lo. Pescoço esticado às alturas, braços e mãos em sincronia. Pés gigantes a escavar o cimento. Nada o assustava. Tinha a certeza da vitória. Asas o faziam flutuar quando o cansaço brotava. E, então, os dedos longos tocavam o muro chapiscado, sujo e feio. Logo em seguida, minha derrota se estatelava ao seu lado. O apito do professor levava-nos novamente à sala de aula. Fim da educação física.

Quando a necessidade jogou-me numa fábrica de móveis durante o dia, mudei de turno na escola. À noite, diante do portão semi-escuro, agarrei-me ao cigarro e às bocas disponíveis das novas colegas. O mundo notívago era atraente e não denunciava as imperfeições do muro onde roçávamos os corpos. Ao trabalhar o dia todo, não precisava participar das aulas de educação física aos sábados pela manhã. O pulmão já esburacado pela nicotina agradecia. No entanto, nunca esqueci as derrotas. Escrevi-lhe uma carta, cujo final ainda está impresso nos movimentos da caneta de tinta preta e escrita fina: “Jamais o alcançaria”. Nunca obtive resposta.

Certo dia, ao chegar ao caixa do banco, estendi a conta. O rapaz magro e de óculos olhou-me com indiferença. Pegou a conta, o dinheiro, digitou vários números, imprimiu o valor na máquina de barulho irritante, devolveu-me o documento quitado. Seus movimentos eram lentos e medidos. Fazia tudo com métrica e precisão para evitar qualquer equívoco. Por alguns segundos, parado à sua frente, olhei-o à espera de uma resposta. Ele falou “próximo”. Um aviso para que a fila andasse. Ali, ninguém corria. A lentidão e a impaciência rondavam os clientes. Coloquei a conta paga no bolso da calça e ouvi um barulho oco e seco a cada passada em direção à porta giratória. Nunca mais voltei àquela agência.

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Ao entrar no ônibus, avistei-a. Sentada perto da porta, abaixou a cabeça. Fingia não me reconhecer, ao mesmo tempo em que eu treinava a técnica da invisibilidade. Tínhamos vergonha daquilo que já não éramos, da ingenuidade perdida. Quando ele tocava o muro a denunciar minha incapacidade de vencê-lo, ela olhava-me com carinho. Sabia que seria impossível. Dividíamos a certeza da derrota. Ao partir para a noite, fizemos juras de amizade eterna. Além de ser uma batalha perdida, a infância esconde mentiras eternas. No início, um punhado de cartas tentava nos convencer de que a distância era de apenas poucas horas entre o turno da tarde e o da noite. Quando ela desembarcou do ônibus e ameaçou um leve meneio de cabeça, descobrimos que a distância sempre foi a mesma que, nas corridas, separava-me do caixa de banco que tocava o muro antes de mim: pequena, mas intransponível.

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Ele chegava em terceiro ao muro. No futebol, tinha mais habilidade, corria com desenvoltura, apesar de não ter muito arranque. O toque na bola era refinado, o corpo gingava e iludia com facilidade o adversário. Eu me contentava em jogar a bola para o mais longe possível das redondezas da área defendida com empenho e pouquíssima habilidade. Na corrida, eu o vencia, mesmo perdendo para o futuro caixa de banco, sob o olhar amável da menina silenciosa sentada próximo à porta do ônibus. Éramos ligados pela mesma obsessão: a amizade escolar. E corríamos. Eu corria no encalço do futuro caixa de banco; o bom jogador de futebol corria logo atrás; a menina do ônibus corria os olhos em nossos corpos infantis. O fim chegou rapidamente. As cartas minguaram. A musculatura ganhou novos contornos. A noite de nicotina soterrou as tardes ensolaradas.

Na praça, ele (o bom jogador de futebol) vinha em minha direção. Cabeça raspada, corpo magricelo. Algumas rugas se agarravam aos cantos dos olhos em harmonia com os vincos da testa. Olhamo-nos e um tímido cumprimento perdeu-se por entre os respingos do chafariz inundado pela molecada de rua. Tomamos direções contrárias. Cada qual em sua velocidade imaginária.

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Zatopek sempre rompia a linha de chegada com uma expressão de dor e desespero desenhada no rosto.

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