Ensaios e Resenhas

março 2014 / Ensaios e Resenhas / Aos corajosos

Texto publicado na edição #167

Aos corajosos

“Reprodução”, de Bernardo Carvalho, demandou coragem para ser escrito e pede coragem para ser lido

> Por ARTHUR TERTULIANO

 

Bernardo Carvalho por Ramon Muniz

Bernardo Carvalho por Ramon Muniz

Há um ano e meio, escrevi minha primeira resenha para o Rascunho: a obra sobre a qual falei era o último romance de Michael Cunningham, Ao anoitecer. Por ser um de meus autores favoritos, eu não ficaria satisfeito em tratar apenas do livro em questão: tinha de relacioná-lo aos quatro romances anteriores do autor.

Michael Cunningham é um dos membros fundadores da Trindade do C. Esta não é uma instituição amplamente reconhecida — para ser franco, não há provas de que ela exista oficialmente em outro lugar além da minha mente. O grupo é composto por três escritores cujos sobrenomes têm a mesma inicial. Tudo bem, não é apenas isso: são autores que admiro, cujas obras completas quero devorar; são contemporâneos, vivos e, melhor ainda, continuam a escrever. São eles: Michael Cunningham, Michael Chabon e Bernardo Carvalho.

Enquanto o último romance de Michael Chabon resta intocado no e-reader (espero que saia o quanto antes a tradução de Telegraph Avenue), o mesmo não pode ser dito de Reprodução, último de Bernardo Carvalho, lançado ainda em 2013.

Não só o li. Também pude, pela primeira vez, acompanhar a recepção da imprensa a um livro do escritor: as entrevistas com o autor, os comentários iniciais, a evolução das sinopses — das primeiras, mais vagas, às posteriores, mais abrangentes ou precisas. Costumo evitar tanta informação prévia, mas havia algo de irresistível em comparar o que diziam diferentes veículos de comunicação — o que era repetido e o que era exclusivo. Além disso, surpreendeu-me tanta atenção dada pela mídia: por um ano e meio acreditei que a Trindade do C estava destinada a ser ignorada quando dos lançamentos dos novos livros de seus membros — “ignorada” talvez seja uma palavra forte demais, mas certamente não vi muita gente comemorando comigo o lançamento de Ao anoitecer.

Apesar de os membros da Trindade do C não serem muito populares, compreendi a receptividade ao décimo romance de Bernardo Carvalho como uma mistura de reconhecimento pelos muitos prêmios já recebidos pelo autor e o fácil interesse do público por um livro em que o escritor “parece fazer picadinho — com um humor convulsivo — de um típico personagem da nossa era: o comentarista de blogs e portais da internet”, tal como discorre a quarta capa do livro. Todo mundo conhece a figurinha: ou já viu algum comentário que fez perder momentaneamente a fé na humanidade ou já escreveu um, mesmo que ironicamente.

Na transcrição da conversa ocorrida no evento Um escritor na biblioteca, da Biblioteca Pública do Paraná, Bernardo Carvalho revelou o seguinte sobre Reprodução, ainda não lançado na época:

“Tive que reescrevê-lo [o novo romance] muitas vezes, porque queria que os personagens fossem todos do mal e muito burros, mais ou menos o modelo dos comentaristas de internet. Eu queria que os personagens, todos eles, fossem como esses caras que fazem comentários na internet, que querem se expressar, gente que tem idéia sobre tudo, que são super orgulhosos com as próprias opiniões. Queria fazer um livro que só tivesse personagens assim, que todos fossem uns idiotas.”

Outras vozes
Em sua fala, o escritor não destaca o estudante de chinês detido pela Polícia Federal durante os procedimentos de embarque para Pequim. Fala de personagens, o que deveria preparar o leitor comum para outras vozes a serem lidas. E para as que não o serão. Pois não encontramos no romance propriamente um monólogo, como anuncia a quarta capa, mas diálogos omissos, em que a voz de um dos interlocutores é calada — como se fosse a gravação de uma entrevista, cujo repórter tem um problema em seu microfone e só conseguimos ouvir as respostas dadas pelo entrevistado.

O resultado se encontra entre o que o autor já havia feito na primeira parte de Teatro (1998), Os sãos — o monólogo de um paranóico — e a construção por ele utilizada em Medo de Sade (2000) — tanto a falta de divisão em parágrafos do Ato 2 quanto os empréstimos do gênero dramático do Ato 1, tais como o uso extensivo de diálogos e a presença de rubricas (poucas) onde o narrador fornece informações não passíveis de serem subentendidas pelas declarações dos personagens. Sobre a semelhança com Teatro, vejamos um trecho deste:

O paranóico é aquele que acredita num sentido (…) É aquele que vê um sentido onde não existe nenhum. O paranóico não pode suportar a idéia de um mundo sem sentido. É uma crença que ele precisa alimentar com ações quase sempre militantes, para mantê-la de pé, tal é a força com que o mundo a contraria. O paranóico é aquele que procura um sentido e, não o achando, cria o seu próprio, torna-se o autor do mundo.

Dá para reconhecer o estudante de chinês na descrição, porém ele estaria mais para um paranóico com déficit de atenção. Ainda que não possamos avaliar em que medida as mudanças de assunto e o discurso fragmentado do personagem se devam às constantes interrupções de seu interlocutor (às quais não temos acesso), ao estresse da situação ou — como somos levados a crer — à pulverização das informações na cabeça de alguém que lê tudo e absorve muito pouco, que não consegue formar um discurso coerente sem o auxílio do wifi, essa parece ser uma boa forma de alcunhá-lo.

Não perguntei nada. Deduzi. Ela contava as coisas fora de ordem, eram só uns lances, assim, de repente, e por isso eu nunca soube como é que ela veio parar aqui, nesse país, porque desapareceu antes de poder contar, no meio da lição 22 do quarto livro do curso intermediário.

Ele deduz demais — o que, por vezes, nos faz duvidar se a história inteira não é uma imensa teoria da conspiração produzida por sua mente (uma possibilidade bastante plausível, aliás). Ele repete demais — o que parece ser menos uma confirmação de sua posição perante os outros do que uma reafirmação do sentido do mundo, para si mesmo. Ele sabe demais. Ele generaliza — ele afirma que “todo mundo sabe” algo sete vezes no romance; cinquenta vezes ele fala em nome de “todo mundo”. Ele se contradiz — não é por criar um personagem “idiota” que Bernardo Carvalho abdica da ambição de torná-lo complexo; há aqui e ali momentos em que é possível concordarmos com algum posicionamento do estudante de chinês. É sempre surpreendente quando nos pegamos concordando com um babaca, mesmo que seja apenas brevemente e num tópico muito específico.

Ler Reprodução não é uma tarefa das mais fáceis. Ao escrever um livro em “que todos fossem uns idiotas”, Bernardo Carvalho prolonga a experiência de ler um de tais comentaristas de internet. Se poucas frases de um comentário de blog têm a capacidade de mortificar quem as lê por, digamos, uma tarde inteira — “como é possível existirem pessoas que pensem assim dos dias de hoje?” —, imagine a sensação após ler mais de 60 páginas dessa forma de expressão, sem respiração entre os parágrafos? Há, ainda, o agravante do estudante de chinês ser alguém mais velho, nascido em 1960 — o que explica um pouco o jeito “tiozão” de se fazer referência à internet. Em sendo um adolescente, a imaturidade de pensamento seria mais facilmente perdoável.

É um livro que demandou coragem para ser escrito e que pede coragem para ser lido. Um livro corajoso para corajosos, portanto.

Ligações
A leitura do novo título de um escritor cuja obra inteira já lemos não costuma ser inocente. Comigo, particularmente, sinto como se uma seção do cérebro fosse reservada para, em segundo plano, buscar ligações com os livros anteriores durante a leitura. Há um laivo de superinterpretação nisso, não nego.

Entre os diversos temas recorrentes na obra do autor, um em especial se destacou. Em Mongólia (2003), O filho da mãe (2009) e Reprodução há, respectivamente, as seguintes frases: “Não existem homossexuais na Mongólia”, “Qualquer tchetcheno a quem se fizer a pergunta dirá que não há homossexuais na Tchetchênia” e “Não tem gay na China”. A princípio, acreditei que a ligação entre os três romances era óbvia: de alguma forma, o autor apresentava a situação de como, em alguns locais do mundo, a homossexualidade ainda é um tabu — as citações acima não parecem inverossímeis quando lemos o prefeito de Sochi, sede dos Jogos Olímpicos de Inverno deste ano, afirmar que não há homossexuais na cidade.

Perguntei ao escritor, em entrevista para o blog Posfácio, se haveria um “apagamento da questão homossexual em nossos dias”, ao que ele respondeu: “Não, acho que a questão homossexual está muito presente e muito visível, provavelmente mais do que em qualquer outra época. Mas, mais uma vez, isso não é suficiente para impedir que se reproduzam um ódio e uma violência primordiais contra os gays. É como se houvesse um ponto cego aí, como se, de novo, a consciência não bastasse. Eu não sei direito o que é. Às vezes, acho que pode ter a ver com a não-procriação, com o prazer sem procriação. O prazer do outro pode ser insuportável, ainda mais quando não há um labor aí, quando o prazer é ostensivamente um fim em si mesmo. Mas não sei se é isso, é mais uma especulação.

Não sendo uma denúncia do apagamento, a resposta do autor forçou-me a observar mais atentamente o contexto em que as frases citadas aparecem nos respectivos romances. A sobre a Mongólia é proferida por um guia local; a da Tchetchênia também parte de uma opinião dos tchetchenos, segundo o narrador em quem confiamos. A grande diferença da frase que há em Reprodução é que ela é pronunciada pelo estudante de chinês — alguém que nunca foi à China, que ainda não entende direito o chinês (por mais que o estude há anos) e que profere generalizações a respeito do que “todo mundo sabe”. Um paranóico com déficit de atenção.

O autor parece acenar para o leitor que já leu outros de seus livros — “olha, estou usando uma construção semelhante às que há em Mongólia e O filho da mãe!” —, mas talvez esteja tentando nos ensinar a sermos mais críticos a respeito do que lemos na internet, a fonte de todas as informações proferidas pelo estudante de chinês. Ele se une aos Arctic Monkeys para dizer “What do you know? Oh, you know nothing!”.

Por exemplo: recentemente, um artigo repercutiu na internet apontando que, como a poluição atingira níveis alarmantes na China, o governo do país teria providenciado que passassem a exibir o pôr-do-sol em imensas telas de alta definição ao ar livre. No final, descobriu-se que o texto fora escrito por alguém sem conhecimento de causa, que viu uma foto na internet (que retratava um outdoor gigante, uma intervenção publicitária com nenhum envolvimento governamental) e inventou a história toda. O artigo de quem denunciou o erro mostrou como a falta de conhecimento dos ocidentais a respeito da China nos incentiva a acreditar em qualquer coisa estranha que nos digam sobre o país.

Num mundo em que todos sabem de (e têm uma opinião sobre) tudo, o desconhecido assusta. Mas, creio, ainda é preferível que saibamos que nada sabemos.

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Bernardo Carvalho

Bernardo Carvalho

Nasceu no Rio de Janeiro, em 1960. Estreou com Aberração (1993) e desde então tem se destacado como um dos principais ficcionistas contemporâneos brasileiros, traduzido para diversos idiomas.

Tudo começa quando o estudante de chinês decide aprender chinês. E isso ocorre precisamente quando ele passa a achar que a própria língua não dá conta do que tem a dizer. É claro que isso significa, também, que a possibilidade de dizer não está no chinês propriamente dito, mas numa língua que ele apenas imagina, porque é impossível aprendê-la.

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Bernardo Carvalho
Companhia das Letras
167 págs.