Nossa América, nosso tempo

agosto 2013 / Nossa América, nosso tempo / Antonio Caso, nosso contemporâneo (Um Hamlet canibalesco)

Texto publicado na edição #161

Antonio Caso, nosso contemporâneo (Um Hamlet canibalesco)

Em 1917, o filósofo Antonio Caso escreveu um pequeno artigo, propondo uma noção inquietante. O pensador mexicano sempre soube dialogar […]

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Em 1917, o filósofo Antonio Caso escreveu um pequeno artigo, propondo uma noção inquietante. O pensador mexicano sempre soube dialogar com um público mais geral, ultrapassando os muros da universidade, a fim de comunicar-se com o common reader, como Virginia Woolf gostava de imaginar o leitor de seus eventuais ensaios críticos.

O texto, inicialmente publicado no jornal El Universal Ilustrado, veio à luz com um título sugestivo: Bovarismo nacional. Talvez a felicidade da expressão tenha predeterminado a recepção, pois o artigo geralmente é lido como uma reflexão amarga acerca do caráter nacional. Afinal, a identificação do “bovarismo” equivaleria a um diagnóstico da inclinação mexicana (isto é, latino-americana) a depender do influxo de idéias forâneas. No século 19, princípios europeus, especialmente franceses; hoje, modas norte-americanas.

Embora tal leitura seja parcialmente correta, ela não está à a altura da complexidade do pensamento de Antonio Caso. Resgatar a ambigüidade de sua escrita é a forma mais fecunda de examinar determinada corrente que atravessa a vida cultural latino-americana.

Em outro texto, igualmente provocador, La imitación extralógica, Caso aproveitou-se com engenho de uma categoria do sociólogo Gabriel Tarde, autor de um livro célebre na sua época, Les lois de l’ imitation (1890). Numa interpretação de ponta-cabeça das leis imaginadas pelo francês, o mexicano delineou de maneira definitiva um dos traços dominantes da história cultural latino-americana:

Nuestros legisladores, sin tener en cuenta aquel axioma que debió ser caro al realismo de Sancho Panza: ‘no se ganó Zamora en una Hora’, dijéronse (en el paroxismo de la imitación extralógica a las ideas revolucionarias francesas): ‘demos a nuestro pueblo no las libertades que les competen, sino las libertades del Hombre’. 1

Compreenda-se bem o ponto para evitar mal-entendidos desnecessários. O filósofo não desejou estabelecer graus diversos para o conceito de liberdade, como se estivesse definindo a proporção “aceitável” nesta ou naquela circunstância. Aqui, a liberdade converte-se em inesperado phármakon, cuja dosagem exata escaparia caprichosamente aos destemperados latino-americanos! Muito menos, por isso mesmo, tratava-se de afirmar uma incapacidade propriamente mexicana (vale dizer, latino-americana) de organização democrática. No fundo, Caso apenas destacou a óbvia inadequação entre determinado processo social — o mexicano — e a imposição mecânica de princípios desenvolvidos em contextos muito diferentes — as idéias políticas e filosóficas amadurecidas no âmbito da Revolução Francesa, destacando-se os desdobramentos do período napoleônico. Ademais, tal problema não foi exclusivamente mexicano; pelo contrário, as pretensões hegemônicas de Napoleão alimentaram a rivalidade franco-prussiana, favorecendo posteriormente o conservadorismo do Congresso de Viena de 1815, em cuja reunião os vencedores do general francês pretendiam o impossível: fazer com que as fronteiras e os regimes políticos retrocedessem no tempo, de modo a reestabelecer a ordem anterior à explosão revolucionária de 1789, pois, como diziam com grande convicção, os princípios franceses não eram “exportáveis”.

Ora, o mesmo disse Antonio Caso.

Nesse âmbito, as palavras do filósofo mexicano podem ser avaliadas com precisão:

Cuando se leen las sesiones del Congreso Constituyente, a través de los discursos apocalípticos de tal o cual poeta jacobino, perfílase la silueta de Don Quijote, ebrio como nuestros legisladores de humanidad y justicia, imitador como ellos, de la caballería irrealista, como ellos también víctima de la santa realidad, tan dócil para quien la gobierna investigándola previamente, tan rebelde y con títulos tan incuestionables para quien pretende violarla sin entenderla. 2

Para Antonio Caso, os juristas e pensadores mexicanos definiram a legislação e o entendimento da realidade nacional com base na leitura passiva de tradições alheias; e a passividade na adoção desses princípios representava o verdadeiro dilema. Assim agiram porque se esqueceram que “no se ganó Zamora en una Hora”, ou seja, que os processos históricos e culturais possuem tempos específicos, sobretudo, olvidaram que a arte de reuni-los não supõe o gesto neutro de assimilação, porém exige o ato deliberado de seleção prévia e criteriosa do que deve ser imitado. Na nota certeira de um destacado intérprete do pensamento de Caso: “Imitar sí, si no se puede hacer otra cosa, pero aún al imitar, inventar un tanto, adaptar; poner por encima a la realidad mexicana de toda palingenesia”. 3

Em termos próprios à poética anterior à eclosão do romantismo, imitar, sim, e, no momento seguinte, emular o modelo anteriormente adotado.

No ritmo antropofágico de Oswald de Andrade: “Só me interessa o que não é meu. Lei do homem. Lei do antropófago”. 4

 

(Antonio Caso e Oswald de Andrade lidavam com o mesmo desafio: como converter a voz alheia em dicção própria?)

 

Outrar-se
De forma pioneira, Caso buscou compreender a dinâmica da apropriação cultural, desenvolvendo um critério interessado de seleção dos elementos que serão adotados, ou seja, adaptados. Portanto, trata-se de processo ativo de reordenação da cultura através do enfrentamento da centralidade do outro na determinação da identidade. Enfrentamento incontornável em qualquer época; afinal, nenhuma cultura é uma ilha ou uma mônada. Contudo, o passado colonial tornou essa circunstância determinante na experiência histórica latino-americana.

Eis, portanto, a questão que praticamente todos os pensadores latino-americanos tentaram responder. Trata-se de pergunta urgente, cuja base remonta à oposição entre o próprio — a realidade local — e o alheio — ideais estrangeiros. Contudo, pelo avesso, a impossibilidade de postular a autonomia do sujeito implica uma liberação potencial, cujo resultado mais promissor remete ao modelo de uma subjetividade macunaímica. Nesse horizonte, o outro é “mais que outro eu” — na fórmula elegante de Emmanuel Levinas. Na equação ainda mais complexa de Antonio Caso (e de Mário de Andrade), o outro é a projeção de múltiplos eus nos quais posso converterme.

 

(Fernando Pessoa empregou com freqüência um verbo decisivo: outrarse. Era bem esse o pressuposto de Antonio Caso.)

 

Portanto, numa leitura superficial, embora parcialmente correta, e inclusive dominante, o filósofo não teria superado o nível elementar de uma crítica às imitações extralógicas, ou seja, ao descompasso entre um eu ideal e um outro ameaçador. Ora, nesse registro monótono, tudo estaria desde sempre explicitado no título do artigo, “Bovarismo” nacional: vítima da cópia indiscriminada, o típico mexicano (isto é, o latino-americano) padeceria de uma patologia coletiva: o “bovarismo nacional”.

Não obstante, leiamos o artigo do filósofo com os olhos bem abertos. Em seu parágrafo de abertura, encontra-se a observação:

Jules de Gaultier es el nombre de uno de los pensadores más distinguidos de Francia. Su concepción cardinal provino de la meditación del libro de Flaubert, Madame Bovary, la novela inmortal que, en la historia literaria del siglo pasado, representa la síntesis más completa del idealismo romántico y el realismo naturalista. 5

Ora, mas não se costuma afirmar que o artigo representa o estudo da miséria do mexicano, sempre às voltas com uma legião de ideais forâneos, que devem ser assimilados de um só trago? Porém, o ensaio é menos um estudo específico do bovarismo nacional que o reconhecimento do sentido antropológico desse mesmo bovarismo. Assim Caso entendeu o famoso ensaio de Jules de Gaultier, Le bovarisme (1902). Por isso, não pensou em definir uma essência exclusivamente mexicana, mas anunciou um traço propriamente humano, daí, antropológico — na acepção etimológica do termo.

Escutemos ao filósofo com ouvidos atentos:

Jules de Gaultier ha estudiado minuciosamente este curioso mal, que se simboliza en todos los personajes de Flaubert, y que Emma Bovary ofrece de relieve: la facultad de concebirse diferente de como se es.

Todo hombre, en el fondo, es un bovarista, un discípulo inconsciente de la célebre heroína francesa. 6

O que significa supor que todo homem, no fundo, é um bovarista? A partir de uma leitura inspirada do ensaio de Jules de Gaultier, Caso intuiu que a imitação não é fruto de uma lacuna do caráter mexicano, antes ela expressa um dado estrutural da condição humana. Dado esse que consiste em definir-se através da adoção de um ou mais modelos. O dilema latino-americano deixa de ser exclusivamente a marca traumática de uma história particular, transformando-se, potencialmente, num laboratório do propriamente humano. Se não vejo mal, eis a lição que Caso extraiu de sua leitura: “Sin embargo, concluye Jules de Gaultier, el bovarismo no es una ley de las morbosidades y debilidades humanas, sino un principio universal de la existencia”. 7

Por fim, o leitor preocupado com um anacrônico Volksgeist encontra a referência que buscava acerca das condições nacionais. Ainda assim, é preciso ler o texto com oswaldianos olhos livres:

México busca su libertad a través de su historia. Cada una de las revoluciones acerca a la patria a la realización de su destino. La vida es, en suma, más tolerable con bovarismo que sin él. Constreñidos en nuestra individualidad, nos devoraría la desesperación de no salir nunca de nuestra miseria. 8

Tudo se decide na leitura da última frase. Se “no salir nunca de nuestra miseria” quer dizer não poder escapar da “increíble miseria de ser mexicano” — para recordar o título do provocador ensaio de Heriberto Yépez, La increíble hazaña de ser mexicano , então, a interpretação dominante se impõe: o artigo de Caso é uma peça retórica, definitivamente fora de lugar e aquém do tempo. Contudo, a última frase pode ser lida como conclusão lógica do texto e, sobretudo, complemento indispensável da frase anterior: “La vida es, en suma, más tolerable con bovarismo que sin él”. Por isso, apesar do título do artigo, Bovarismo nacional, a abordagem de Caso não se reduz ao estudo da psicologia do mexicano. De fato, através do reconhecimento do sentido antropológico da imitação social, seu pensamento abre possibilidades inéditas. Aliás, sentido antropológico que as condições históricas da experiência latino-americana converteram em parte constitutiva das tarefas cotidianas as mais prosaicas — por exemplo, comunicar-se em português ou em espanhol…

Não somos Alonso Quijano, tampouco Don Quijote ou Sancho Panza, porém os três — e simultaneamente. Essa conjunção dos contrários é o móvel dos mais agudos pensadores de Nuestra América. 9

Para dizê-lo de forma mais direta: habitamos a fronteira entre os limites de uma loucura com método, artifício de Hamlet, e a promessa de uma esquizofrenia produtiva, arte de Calibã. Podemos, assim, resgatar a atualidade potencial do filósofo mexicano.

Antonio Caso: nosso contemporâneo.

Um Hamlet antropófago.

Notas
1 Antonio Caso. “Problemas Nacionales”. Antología Filosófica. México: UNAM, 1993, p. 201.
2 Idem, p. 201-202.
3 Mario Magallón Anaya. Historia de las ideas filosóficas. (Ensayo de filosofía y de cultura en la mexicanidad). México: Editorial Torres Asociado, 2010, p. 154, grifos do autor.
4 Oswald de Andrade. “Manifesto Antropófago”. A utopia antropofágica. São Paulo: Globo, 2ª ed., 1995, p. 47.
5 Antonio Caso. “El Bovarismo nacional”. Antología Filosófica. México: UNAM, 1993, p. 197.
6 Idem, p. 198.
Idem, p. 200.
8 Ibidem.
9 O leitor desta coluna já sabe que me refiro ao ensaio de José Martí, “Nuestra América”, publicado em La Revista Ilustrada de Nueva York, no dia 1 de janeiro de 1891.

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