Dom Casmurro

dezembro 2018 / Dom Casmurro / Antonio Brasileiro

Texto publicado na edição #224

Antonio Brasileiro

Dois poemas de Antonio Brasileiro

> Por Antonio Brasileiro

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Poema

Não faças poemas
para que outros gostem.
(Todos nós gostamos
de nós, apenas.)

Não faças poemas
tristes, pesarosos.
(Todos somos sós;
tu não és menos.)

Faças (sim) poemas
sobre as nuvens altas.
(Mas que não te exaltes:
não vale a pena.)

Olha, Daisy

Olha, Daisy, estou muito cansado.
Acho que não vou vê-la mais à noite.
Vou ler uns livros sobre alguns fantasmas
e rabiscar uns certos desconfortos.
Também quero arrumar uns papéis velhos
deixados nas gavetas da memória —
um homem nunca é mais que amargo espelho
a rebuscá-lo: farpa, sanha, horda
de animais medonhos. Olha, Daisy,
estou muito cansado, como disse,
e mesmo o amor da carne agora fez-se,
dentro de mim, sobejo à longa festa.
Meu espírito, vês, já açambarca
a matéria que sou. Já o que resta
é o homem em sua solitária barca.

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