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outubro 2015 / Rodapé / Anotações sobre romances (25)

Texto publicado na edição #185

Anotações sobre romances (25)

Há, em Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende, uma espécie de “elogio da cordialidade”. Alice, embora andando por lugares que […]

> Por RINALDO DE FERNANDES

Há, em Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende, uma espécie de “elogio da cordialidade”. Alice, embora andando por lugares que não conhece, alguns supostamente perigosos, ou potencialmente violentos (“Porto Alegre é uma cidade enorme, moderna, metrópole, violenta” — está dito logo no segundo capítulo), não tem maiores dificuldades para fluir, para encontrar guarida, atenção — enfim, cordialidade. Exemplo de cordialidade que ampara a protagonista: “[…] deixe minha filha chegar, ela leva a senhora por aí, aqui tem muito paraibano, sim, minha filha conhece todos, eu conheço também as famílias, vai com ela, perguntando […]. Olha ela chegando aí, minha filha vai levar a senhora, não leva, Suelen?// Suelen me conduziu de casa em casa, gente do sertão, do litoral, da Várzea, do Brejo da Paraíba, uns tantos Cíceros, por certo, mas nenhuma notícia de Cícero Araújo, nem nas casas de outros Araújos. Comi tapioca com coco, tomei café, refresco de cajá […]”. Outro exemplo de cordialidade que alcança a protagonista em sua rota pela periferia: “[…] acordei [num sofá velho em que Alice se recostara] já com o dia escurecendo e uma mulher jovem, com uma fala que não era dali, me apertava o ombro perguntando se me sentia mal, se queria uma água ou que chamasse alguém. Envergonhada, recusei, disse que não era nada, apenas um pouco de tontura porque tinha andado demais, Mas já passou, já estou bem, preciso ir embora, estou atrasada. Levantei-me de um pulo e já saí andando, Tem certeza?, não quer mesmo nem um pouco de água?”. A periferia de Valéria Rezende, reitero, é cordial, afetiva. Periferia prestativa, da boa convivência. E Alice, até pelo que virá acontecer com ela, soa como uma personagem franciscana.

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