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agosto 2015 / Rodapé / Anotações sobre romances (24)

Texto publicado na edição #184

Anotações sobre romances (24)

Em Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende, o relato que lemos é, substancialmente, o registro feito pela protagonista-narradora no caderno (com […]

> Por RINALDO DE FERNANDES

Em Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende, o relato que lemos é, substancialmente, o registro feito pela protagonista-narradora no caderno (com a imagem citada da Barbie) que ela leva de João Pessoa para Porto Alegre; registro de suas lembranças (da “balbúrdia de imagens, impressões, sentimentos acumulados por quarenta dias”), dessas várias anotações feitas nos panfletos publicitários, os quais Alice dispõe na mesa da cozinha do apartamento (ofertado pela filha) em que ela fica sozinha em Porto Alegre. É aqui, no apartamento, que a professora aposentada faz o seu registro. As ilustrações que formam o pórtico de 16 dos capítulos são bem produzidas (foram compostas por Andrea Vilela de Almeida) e funcionais — antecipam informação semântica ao leitor, apontando para o circuito da protagonista, para as suas andanças pelas dobras da cidade. As falas que Alice dirige à boneca Barbie, por sua vez, e amainando a voz um tanto tensa da protagonista-narradora, são lúdicas, humoradas, e, em certos passos, lembram o registro da literatura infantil (é bom lembrar que Valéria Rezende é autora premiada de obras infantis), como nestes exemplos: “‘Bonjour’, mudinha, continue quieta […]”, “Nada disso lhe interessa, não é, Barbie?, você é oca e indolor […]”, “Vamos lá, boneca, desculpe perturbar mais uma vez seu sono eterno […]”, “Pena que você não tem nada dentro dessa cabeça […]”. Por outro lado, a protagonista-narradora Alice expressa valores que configuram uma imagem positiva do ethos do Nordeste e da periferia. Ao se encontrar em Porto Alegre, e sendo de “lá” (do Nordeste), como às vezes indica, ao se deslocar pela periferia da cidade tentando achar Cícero Araújo, desaparecido, filho de uma conterrânea sua, operário da construção civil, Alice embarca numa aventura por recantos em que, quase sempre, se depara com pessoas solidárias, vários nordestinos, que têm compaixão dela, que se comovem com a narrativa que ela sempre usa do desaparecimento de Cícero. Narrativa na qual enfatiza a desolação da mãe paraibana que ela, Alice, num ato, convenhamos, de desprendimento, também de muita solidariedade, decide, e de modo obstinado, ajudar. Nesta perspectiva, há no livro uma espécie de “elogio da cordialidade”.

 

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