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setembro 2013 / Rodapé / Anotações sobre romances (2)

Texto publicado na edição #162

Anotações sobre romances (2)

Rinaldo de Fernandes lê “O tigre na sombra”, de Lya Luft

> Por RINALDO DE FERNANDES

A pergunta que vem após a leitura de O tigre na sombra, de Lya Luft, é: a família é mesmo possível? No livro, ela é inviável, insustentável, imobilizada por seus desencontros, descaminhos. O mal-estar profundo da protagonista Dôra poderá ser pior na próxima página. Ela tem um conflito incontornável com a mãe e perde a referência amiga e acolhedora da irmã Dália. O que a mãe queria para Dália — a perfeição em tudo ou quase tudo — termina tonificando a narrativa ao apresentar, já para o final do livro, a virada da personagem, que passa de “boa” para “má”, que se perde na bebedeira e nos amores, incluindo o marido de Dôra. Dália inverte o que a mãe intuía e instruía. Torna-se maldita, disforme. Dôra, por seu lado, traz uma infelicidade que sufoca, subornada e/ou sacrificada que é em seus afetos tanto pela mãe como pela irmã, que terminam tendo uma construção especular no livro. De um lado, Dôra; de outro, Dália e a mãe. O pai se apaga diante de figuras tão centrais na vida da protagonista. Apenas Vovinha aparece como um eixo afetivo que aplaca a dor, que, em incertos e fortuitos momentos, faz a assepsia da grande ferida na alma de Dôra. Os membros dessa família estão decididamente afastados por algo que a narradora não alcança, desvenda. Busca mas não consegue desvendar. Afogada em sua dor de mulher traída pela irmã e destratada pela mãe, Dôra, que ainda carrega o trauma de ter uma perna curta, soluça no íntimo, inviabilizada. Embora parecendo perder um pouco o ritmo no meio — começa e termina bem, com muita intensidade, com uma personagem-narradora compacta —, o livro de Lya Luft tem força e se impõe pela linguagem bem elaborada, pelo estilo enxuto, exato. O retorno da autora ao romance não poderia ser mais auspicioso.

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO

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