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janeiro 2012 / Quase-diário / Anotações sobre A mulher madura

Texto publicado na edição #116

Anotações sobre A mulher madura

10.09.1985 Repercussão da crônica A mulher madura, publicada no JB. Na Feira do Livro pessoas me abordam e pedem autógrafo […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

10.09.1985
Repercussão da crônica A mulher madura, publicada no JB. Na Feira do Livro pessoas me abordam e pedem autógrafo sobre a folha do próprio jornal. Moacyr Félix me telefona entusiasmado, por ele e pela Kaj. Carlos Eduardo Novaes me diz: “Tive vontade de tocar uma punheta com sua crônica”. Ontem na Federal, outras alunas vieram me falar sobre isso. Na PUC hoje, muitas outras. Uma aluna interrompe minha aula, me chama lá fora e me pergunta quantos anos tem a mulher madura, pois ela tem 18 anos e quer saber. Telefonemas interurbanos. Chegam flores e bilhetes. Hoje à noite uma leitora telefona dizendo que virou assunto de rua. Algumas mulheres dizendo que acordaram os maridos para lerem o texto. Outras dizendo que leram, para outras, ao telefone, chorando. Otto Lara me conta que a deu para quatro senhoras.

04.10.85
Continua a repercussão de A mulher madura. A TV Manchete pede que eu grave o texto em minha voz e fazem um clipe. O JB resolveu ouvir várias dessas mulheres que estão se manifestando e fez uma reportagem de página inteira sobre o tema. Uma delas, Eizabeth, representante da Christian Dior, disse que a crônica mudou sua vida. Separada há pouco do marido que a trocou por uma garota de 21 anos, a partir da crônica, seu astral subiu tão visivelmente, que a semana foi um sucesso para ela, foi promovida a gerente geral da loja.

Estou indo à Bahia (Programa Encontro Marcado) e no aeroporto uma moça se aproxima, tira a crônica da bolsa e pede autógrafo para uma amiga. A amiga se aproxima conta que na Receita Federal onde trabalha o texto quase paralisou o trabalho na segunda-feira. Ela chegou à repartição com o texto para conversar sobre ele com colegas e encontrou na sua mesa já três cópias com clipes e recados. Um rapaz da repartição pegou a crônica e a transformou em poema.

Em Belô, fizeram 180 cópias para o curso de atualização da mulher da Zulma Fróes. Houve um debate na Universidade Católica e tive que ler o texto no final, e saíram fazendo cópias. Aqui no Rio, na academia de ginástica, o assunto voltou. Colegas que passavam por mim, que subiam e desciam a escada, leram ou querem ler. Idem no Departamento de Psicologia da PUC, o chefe. Bernard me dizendo que uma cliente dele começou a ler na praia, chorou e foi assim para a análise. Idem em Brasília, de onde me contou o Walter do CNPq que no Ministério da Previdência foi um tal de fazer xerox. Na reunião da cadeira de literatura brasileira na Federal, Marlene Correia veio dizer que queria ler. Como eu tinha uma cópia, dei-a. Leu e começou a chorar devagar, ficando corada e me dizendo coisas. De Paris, Leny Dornelles me manda a crônica em xerox, com o retrato dela implantado no meio no texto. Uma artista plástica (Denise), que não conhecia, me encontra na rua, me abraça emocionada. Geraldo Mayrink, da revista Afinal, me telefona, vai inserir a crônica e comentário sobre ela em sua reportagem sobre o “Novo homem e a nova mulher”. A TV Manchete levou ao ar um debate com quatro mulheres que o JB entrevistou e agora a Leila Tavares está me procurando.

13.11.1985
A onda d’A mulher madura continua, dois meses depois. Todo dia aparece alguém. Outro dia foi em Natal. Idem em Salvador. Cartas continuam chegando.

31.01.2005
Recebo um e-mail de uma leitora narrando que há 20 anos leu A mulher madura, e como lá eu dizia: “A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir a Grécia… merece sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar”, então, essa leitora, que tinha na ocasião 19 anos, mandou-se para a Europa. Está lá há uns 20 anos, por minha causa. Quer uma outra cópia da crônica e pergunta se esse endereço é meu mesmo.

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