Dom Casmurro

dezembro 2018 / Dom Casmurro / Anna Mariano

Texto publicado na edição #224

Anna Mariano

Dois poemas de Anna Mariano

> Por Anna Mariano

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Quietude

Deixar o dia passar em brancas nuvens
sem cobiça, sem querer, como quem troca
palavras desatentas com a vizinha
— hoje a tarde está tão quente, talvez chova —
receitas sobre o muro, madressilvas.

Deixar o tempo correr por sob a casa
entre canos de cimento, fundamentos
lá por trás do assoalho, lá por baixo
onde brincam amores fracassados
e uma dor tão velha que nem mais é triste.

Também a noite deixar que passe em branco
sobre o sereno lacrimar das pedras
sem ouvir o coração pulsando sangue
e no fundo mais profundo de ti mesmo
adormecer sofrendo normalmente.

Lembrar por lembrar que o leiteiro
num repicar de vidros e garrafas
acordava com leveza as madrugadas
afagava os que dormiam com seus sonhos
e partia sem saber que foi poema.
Lavados

Sobre a corrente do arroio
arregaçavam as saias
deixavam entrever o cerne
da rosa rubra, carnosa
escura rosa de carne
que lambaris beliscavam.

Com mãos de chumbo batiam
na pedra branca segredos
de muito, ensaboados
lençóis, cortinas, babados
o sangue da negra virgem
o choro azul da sinhá
o suor de quem lavou
o sêmen do seu sinhô
na mesma água encadeados
corrente abaixo rolavam.

E se alguém perguntasse
porque assim ocorria,
a luz cinzenta dos gansos
diria em voz de mil banzos
que nos lavados do amor
não tem sinhá nem sinhô.

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