Dom Casmurro

janeiro 2020 / Dom Casmurro / Anna Apolinário

Texto publicado na edição #237

Anna Apolinário

Três poemas de Anna Apolinário

> Por Anna Apolinário

Talismã

Nas mãos de um anjo
o mineral mistério
onde o desejo se enraíza
e diabólico, floresce
cruel e escura ferida
no coração de Deus.
R.E.M.

Dentro dos livros,
interminável, vive.

Entre os lírios da língua,
alucinante, flutua.

No precipício das pupilas
atreve-se,
em insanas acrobacias.

Impiedoso,
dissolve os relógios.
Inesperada fera,
enfeitiça a memória.

Espanta o apocalipse,
acende três palavras mágicas
nas entranhas da eternidade.

Sob os cílios insinua-se,
indecifrável.
Códex

Uma canção toma de assalto a minha boca
e estilhaça a paz que não queremos.
Dentro da casa que erguemos,
não há mordaça que baste:
o sonho cresce selvagem no sangue.

Um verso acende molotovs na língua,
verve virulenta inventa a rebelião.
Um gatilho para o tumulto,
entre corpos pacatos e obedientes,
um acorde eriça a revolução.

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