Dom Casmurro

fevereiro 2018 / Dom Casmurro / Andrée Chedid

Texto publicado na edição #214

Andrée Chedid

Quatro poemas de Andrée Chedid

> Por ADRIANA LISBOA

Andrée Chedid_2_124

Seleção e tradução: Adriana Lisboa

Nommer

Nommer
Foudre et limon
Ciel et terre
Confondus

Se nommer
Dans le bref

Entre la lueur
D’un chant
Et les serres
De la nuit.

 

Nomear

Nomear
Relâmpago e limão
Céu e terra
Confundidos

Nomear-se
Brevemente

Entre o brilho
De um canto
E as garras
Da noite.

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Ce lieu

En ce lieu qui s’absente
En ce lieu qui te hante
Nul besoin de voyages
En ce lieu qui t’enfante.

 

Este lugar

Neste lugar que se ausenta
Neste lugar que te atormenta
Viagens não fazem falta
Neste lugar que te inventa.

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Le silence à vivre

Certaines tombes ne jaunissent pas
Certaines fins multiplient le vertige
Certains départs s’adossent à la fraîche souffrance
Certains corps brûlent à tous les âges du nôtre

Certaines paroles bouleversent
Tout le silence à vivre.

 

O silêncio a se viver

Certos túmulos não amarelam
Certos fins multiplicam a vertigem
Certas partidas se apoiam no renovado sofrimento
Certos corpos queimam em todas as idades do nosso

Certas palavras subvertem
Todo o silêncio a se viver.

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Porteurs de cicatrices

Les morts aux visages rompus se redressent
La langue des humiliés se gonfle
Orageuse se lève la marée des victimes

Mais prenez garde porteurs de cicatrices!

Éteignez dans vos chairs les volcans de la haine

Piétinez l’aiguillon et crachez le venin

qui vous apparenteraient un jour aux bourreaux

Étouffez ces clairons ces sonneries qui forcent la ressemblance qui commandent le talion

Questionnez vos viscères
Percez vos propres masques

Soyez autres!

 

Portadores de cicatrizes

Os mortos de rostos exauridos se aprumam
A língua dos humilhados incha
Tempestuosa se ergue a maré das vítimas

Mas cuidado portadores de cicatrizes!

Apaguem em sua carne os vulcões do ódio

Esmaguem as picadas e cuspam fora o veneno

que os acumpliciariam um dia aos carrascos

Sufoquem esses clarins esses chamados que forçam a semelhança que presidem o talião

Questionem suas vísceras
Perfurem suas máscaras

Sejam outros!

 

Andrée Chedid
Nasceu no Cairo (Egito), em 1920. Foi poeta, romancista, contista e dramaturga. Nascida de uma família libanesa no Egito em 1920, mudou-se para a França em 1946 e passou a escrever em francês. Ganhou os prêmios Goncourt (duas vezes), Mallarmé e Albert Camus, entre outros. Morreu em Paris, em 2011.

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