Dom Casmurro

março 2019 / Dom Casmurro / André Ricardo Aguiar

Texto publicado na edição #227

André Ricardo Aguiar

Três poemas de André Ricardo Aguiar

> Por André Ricardo Aguiar

Poema

Já não faço poemas sobre gatos
— há muito não crio gatos
nem poemas.

O último que pulou na mesa
(falo de um poema)
também desgovernou a casa.

E o pus de castigo
dentro da caneta
por um bom tempo.

Por extensão
o gato que tinha nele
não foi escrito.
Bolha de sabão

A bolha de sabão é um pequeno planeta
muito delicado. Não o invada.

Veja que os continentes
não vão durar muito. O mesmo se dá
com os mares finíssimos.

Sua atmosfera de roupa lavada
tem um clima instável ao tato.

Talvez a população da bolha sequer se mova
em ondas migratórias, ou o pequeno
planeta, ploft, teria drasticamente
finda a sua geologia
etérea.

Um deus criou este mundo num sopro.
Já começou outro.
Sensitivo

E tem isto: uma ideia,
uma bolha onde ter que pegar
e chamamos realidade

ou coisa que o valha, susto
do meio-dia, desnorte.

E tem você, camada de si
mesmo, a esmo, fingindo
viver o que já é vida.

E algo mais — resíduo
abaixo de zero e as coisas
findas, mais frágeis

que a bolha. Ainda.

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