Translato

julho 2019 / Translato / Anatomia textual

Texto publicado na edição #231

Anatomia textual

Na tradução, muito mais do que na leitura relaxada e prazerosa, há que delinear bem o alcance dos termos

> Por EDUARDO FERREIRA

Sentidos estão sujeitos aos humores do momento. A tradução, como qualquer tipo de leitura, padece desse problema. As palavras não contêm os sentidos todo o tempo. Significados são entrecortados, falhados, e exigem alguma complementação, sempre, impondo o alargamento dos conceitos. Na tradução, muito mais do que na leitura relaxada e prazerosa, há que delinear bem o alcance dos termos.

O texto não é algo firme nem certo. A condição valetudinária da escritura — em particular, de seus significados — perpassa e afeta todas as suas leituras. Com o tempo, passam gradualmente a recobri-la camadas cada vez mais espessas de esquecimento. Processo que, sob análise estrita, abala certezas arraigadas na prática da tradução literal.

No presente ou no futuro, uma tensão de baixa intensidade percorre o texto e o torna instável e suscetível a tantas leituras díspares. Nem é preciso distanciar-se do texto no tempo e no espaço. A tensão está sempre lá, pronta a evitar a sonhada cristalização.

A tensão mantém o texto em movimento, sempre líquido ou ao menos pastoso. Os sentidos não estão engastados nas palavras, mas flutuam, navegam lado a lado. É fácil, nesse meio, enxertar ideias. Entregar-se a exercícios criativos. Abre-se a possibilidade de atar e desatar nós. Uma lembrança de deus? Ou a simples busca de um trabalho atilado?

Existe, claro, a tentação da vaidade que afeta todo tradutor. Mas também algo que vai além e vincula intimamente o leitor/tradutor ao texto: a exigência, para a produção da escritura, da liberdade de recuperar e modificar as lembranças, consciente ou inconscientemente.

A palavra atiça a ideia que atravessa o cérebro e se perde, vira fumaça. Ou se registra e vira texto. Retém-se um fio de sentido, nesse segundo caso, mesmo que fio frouxo. O estame vital da escrita. O tradutor tem de refinar o pensamento, sintetizar ideias, processá-las e devolvê-las de forma estruturada. Processar a matéria-prima e entregar o produto acabado.

Nota-se necessidade urgente de burilar os meios de expressão. Do tradutor, exige-se pensar bem para escrever bem, inclusive gramaticalmente bem, com o fito de vazar ideias de forma racional, interessante e inteligível. Não se trata de qualquer tradução, mas de tradução literária, que sempre tem objetivos estéticos e artísticos. É preciso aplicar uma segunda demão de capricho ao texto.

Quais os limites da liberdade na tradução? Será possível conduzir o texto aonde quer que queira o tradutor? Será o tradutor mais artífice ou mais intérprete?

Há certo bovarismo que acomete o tradutor em sua busca pelo sentido perfeito. Toda aquela gesticulação teatral. Todo aquele colorido que se procura realçar. Talvez até alguma pulsão à hipostasia. Ou a percepção de que pode reinventar o original, com base neste e em suas próprias concepções e memórias. Uma autoilusão que conduz à frustração; frustração sua e talvez também dos leitores.

Há autoilusão deletéria, sem dúvida. Mas também há necessidade de um quê de ilusão, que faz parte da literatura e da própria tradução. Quem busca restos de sentido e não os alcança, nem ao longe nem ao lado os vê. Nem nunca os vê. Não enxerga além do anteparo — antes translúcido — que se lhe torna opaco. A tradução exige pesquisa extensa e conclusão densa e ilusoriamente definitiva.

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