Ensaios e Resenhas

março 2013 / Ensaios e Resenhas / Anatomia de uma lavagem cerebral

Texto publicado na edição #155

Anatomia de uma lavagem cerebral

Quem por acaso visitasse Versalhes no ensolarado novembro de 2008 teria uma feliz surpresa: encontraria, entre os retratos de Luís […]

> Por RAFAEL DYXKLAY

Quem por acaso visitasse Versalhes no ensolarado novembro de 2008 teria uma feliz surpresa: encontraria, entre os retratos de Luís XVI e Maria Antonieta, o busto de um jovem artista norte-americano, aspiradores de pó junto às rainhas da França, uma lagosta inflável em meio a seus lustres, a pantera cor-de-rosa em seu salão principal e, por último, mas não menos importante, uma escultura dourada, em tamanho real, de Michael Jackson e seu macaco de estimação como Maria e Jesus na Pieta de Michelangelo.

E lá estava o mestre do kitsch, Jeff Koons, ostentando seu sorriso de genro perfeito e aspecto de vendedor de Chevrolets. O homem que certa vez promoveu uma das maiores vendas de arte da história — e, em seguida, as obras desvalorizaram 900% —, no qual alguns vêem um visionário, outros um charlatão.

Um ano se passa e o romancista francês Michel Houellebecq, muito mais reconhecido por americanos do que por franceses, escreve para Koons os textos do livro de fotografias da exposição. A relação é inegável. Houellebecq também foi sempre visto de formas radicalmente opostas, há forte estratégia comercial em torno de sua obra e o autor somou alguns milhões a sua conta em uma troca “futebolística” de editora. A diferença está em que realmente assume uma imagem controversa, atacando o islamismo, defendendo a prostituição e dizendo que a literatura do século 20 nada significa para ele. Ao buscar sua imagem no Google, encontramos um senhor de aparentes sessenta anos, ou mesmo setenta, ora sem camisa, ora em pé numa cadeira, usando óculos de sol característicos de um jovem de vinte.

Em setembro do ano seguinte, o autor lança seu romance mais ambicioso, e suas primeiras palavras são — adivinhem — “Jeff Koons”.

Supervalorizado
O mapa e o território retrata a vida de um artista plástico francês chamado Jed Martin, que, depois de falhar no quadro Jeff Konns e Damien Hirst dividem o mercado da arte,alcança reconhecimentocrítico e financeiro através de uma série de pinturas de personalidades no exercício de suas atividades. Dentre todos os trabalhos, sua provável obra-prima é o perturbador retrato do grande escritor francês Michel Houellebecq (sic).

Contudo, o enredo pouco diz da obra. É sobretudo nos diálogos e digressões que o autor empenha sua pretensão universalizante. Por Jed passam reflexões sobre a arte, o amor, a política, o capitalismo e a morte. A arquitetura da qual seu pai tanto fala é sempre uma metáfora para o comportamento humano, assim como suas obras são para as profissões, uma reflexão sobre a organização da sociedade, os anos 2040 (no qual termina a narrativa), uma teoria de a que rumos estamos caminhando.

Enquanto isso, seu estilo busca a radicalidade da arte contemporânea. A apropriação de aspectos do best-seller, o trabalho com clichês, a estética do kitsch, observações sensacionalistas e a tentativa de um estilo “branco” ou de uma ausência de estilo — em analogia a artistas como Koons, que nem mesmo tocam em seus trabalhos — são os motivos do repúdio e da devoção em torno de sua obra.

Poucos dias após seu lançamento, o romance possui toda a atenção da imprensa. Apesar de alguns raros posicionamentos radicalmente desfavoráveis — e uma paródia chamada A massa e o supositório —, é seu livro mais bem recebido. Entra na corrida já avançada dos prêmios literários anuais, recebendo, de imediato, alguns de médio porte e se tornando forte candidato ao já nem tão prestigioso assim Goncourt, concedido anteriormente a autores como André Malraux, Simone de Beauvoir e Marcel Proust.

Se seu funcionamento equivalesse a sua ambição, teríamos uma obra tão brilhante quanto foi considerada, e seu autor mereceria o rótulo — dado invariavelmente por estrangeiros — de melhor autor da França atual. No entanto, embora muito acima de seus companheiros de alta vendagem, Houellebecq nivela por baixo os grandes mestres da contemporaneidade, quando a eles comparado.

Duas perguntas surgem, afinal: de que maneira o romance falha e por que o autor é supervalorizado?

Dentre acertos notáveis, o romancista subestima seus leitores ao moldar um texto predominantemente auto-explicativo, com páginas e páginas de informações imprescindíveis sobre arte e história, geralmente encaixadas de forma inorgânica ao personagem que as enuncia, como é característico de livros juvenis, ou de autoria de Dan Brown. O que não metaforiza a era da informação alienada, mas é tão somente um fator gratuito.

Outro problema é sua retórica insuficientemente madura para concatenar tantos âmbitos do conhecimento humano sem cair na generalização ingênua e pouco convincente. Erros que, por exemplo, W. G. Sebald não comete, ao se deparar com casos semelhantes em seu último romance.

Houellebecq vai ao mercado
A França hoje é vista de forma simplista, em associação ao liberalismo sexual e a decadência da Europa. Sua última figura pública de maior influência resolveu assediar uma camareira. Por transferência, também não se espera muito de sua literatura. Além disso, a dúzia de autores que nos são traduzidos passam primeiro pelo julgo anglófono. Na Wikipédia em inglês, e não no francês, há uma página dedicada ao movimento literário do “depressionismo francês”, em que apenas Houellebecq é citado. A revista americana The New Yorker considerou Marie Darrieussecq como uma das maiores promessas da jovem literatura européia por ser a “metamorfose erótica de sua geração”. A mesma revista dedicou uma matéria bem mais longa e elogiosa a Paulo Coelho.

O autor brasileiro também figura, junto a Houellebecq, nas edições norte-americana e britânica dos 501 grandes escritores e 1001 livros para ler antes de morrer. Dadas as devidas proporções de qualidade, o pessimismo de um e o misticismo de outro são vistos de forma igualmente exótica. O filtro do sucesso comercial funciona para a crítica estrangeira exatamente como para a decisão do autor francês de escrever um romance sobre arte contemporânea citando apenas os dois artistas que dominam — e não “dividem” — o mercado.

Precisamente como todo o resto dos artistas plásticos de hoje, seu conterrâneo mais jovem Mathias Énard, autor de um romance de quinhentas páginas e uma única frase de título La zone, considerado por alguns franceses como “o romance da década, senão do século”, é excluído automaticamente da disputa pelo trivial rótulo de maior autor francês por três motivos simples: sua vendagem é muito mais baixa, sua dificuldade de leitura bem maior e, em países como o Brasil, sua obra, vários anos após seu lançamento, ainda não foi traduzida.

Dois meses depois, O mapa e o território vence o Goncourt.

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Michel Houellebecq

Michel HOUELLEBECQ

Nascido Michel Thomas, Houellebecq é um escritor francês, nascido na ilha da Reunião, em 1958 (de acordo com sua certidão de nascimento) ou 1956 (segundo a biografia do jornalista Denis Demonpion). Seus romances Partículas elementares e Plataforma lhe valeram a reputação internacional de provocador, embora sejam freqüentemente considerados sinal de renovação da literatura francesa.

Jed possuía fotografias de Koons sozinho e na companhia de Roman Abramovitch, Madonna, Barack Obama, Bono, Warren Buffet, Bill Gates […] os fotógrafos irritavam Jed, especialmente os grandes fotógrafos, com sua pretensão de revelar a verdade de seus modelos; não revelavam absolutamente nada, contentavam-se em se posicionar na frente deles e disparar o motor da câmera para bater centenas de fotos totalmente aleatórias, dando risadinhas, e mais tarde escolhiam as menos ruins da série, eis como eles procediam, sem exceção, todos aqueles supostos grandes fotógrafos.

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Michel Houellebecq
Trad.: André Telles
Record
400 págs.