Dom Casmurro

julho 2020 / Dom Casmurro / Ana Santos

Texto publicado na edição #243

Ana Santos

Três poemas de Ana Santos

> Por ANA SANTOS

Atacama

Sob as constelações,
elas cavam a areia
em busca de outras
constelações:
lascas, ossos
esparsos, pedaços
de homens que amaram.

Ainda no sapato, avulso,
o pé de Alfonso.
Este crânio
só pode ser de Hernán —
a mesma falha
entre os dentes da frente.

Há tantas vértebras
sem o calor de um nome,
tantos nomes sem vértebras.

Elas, também de osso,
exaustas, seguem:
a lepra do Chile,
a mancha no deserto.
Elas se lembram.

Tudo o mais se esconde
na noite insondável do chão,
avessa aos telescópios,
tudo o mais é pó
e cálcio, brilho de agulha
em palheiro, vontade alheia
feita na terra
como no céu.
Uma poética
It is impossible to say just what I mean!
T. S. Eliot

A vida dos lepidópteros,
a solidão dos astronautas,
os guarda-chuvas quebrados depois da tempestade,
um sem-teto estendendo roupas ao sol,
a hora do almoço dos operários,
os erros ortográficos nas cartas de amor,
as fotos dos desaparecidos,
os peixes sufocados.

As coisas perdidas ou deixadas a um canto,
o primeiro cão, a primeira morte,
as casinhas à beira da estrada
e quem dorme dentro delas,
as abóboras que não viraram carruagens douradas,
as últimas palavras de pessoas comuns,
a última dança de Kazuo Ohno,
a canção mais triste de Sérgio Sampaio.

A paz dos amnésicos e dos recém-nascidos,
meu destino nas cartas de tarô,
cada sístole e diástole,
o fato de dizermos sempre “até amanhã”
ou “parece que foi ontem”,
o susto dos telefones tocando fora de hora,
o milagre de chegarmos quase intactos à noite,
as aves-do-paraíso apaixonadas,
tudo o que escrevo quando tentava escrever outra coisa
e tudo o que jamais caberá neste poema.
Ouvindo Elomar

Não tenho junhos
nem sertões.

Aqui há menos
fogueiras, quase
nenhum balão,
faz frio demais
para os terreiros.

Me fecho atrás
de altas janelas,
não brinco, não canto,
não rodo o baião.

Mas também tem um bicho
rueno
rueno
o meu coração.

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