Dom Casmurro

março 2019 / Dom Casmurro / Amy Clampitt

Texto publicado na edição #227

Amy Clampitt

Seis poemas de Amy Clampitt

> Por André Caramuru Aubert

Amy Clampitt_1_227

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Amy Clampitt (1920-1994), nascida numa fazenda em Iowa, levou décadas até publicar seus primeiros poemas e despontar na cena cultural nova-iorquina. Mas, quando finalmente estreou na revista The New Yorker, a repercussão foi explosiva. O primeiro de seus cinco livros sairia em 1983, com ela já sexagenária. E, quando morreu, catorze anos depois, não mais do que cinco livros haviam sido publicados, todos eles, porém, aclamados pela crítica. A poesia de Clampitt é delicada e lírica, mas não é fácil, como admitiu sua amiga, a poeta Mary Jo Salter, que, no prefácio do póstumo Collected poems, escreveu que é impossível ler Clampitt sem a ajuda de um dicionário. E eu nem precisaria acrescentar que é uma poesia dificílima de traduzir.

On the disadvantages of central heating

cold nights on the farm, a sock-shod
stove-warmed flatiron slid under
the covers, mornings a damascene-
sealed bizarrerie of fernwork
decades ago now

waking in northwest London, tea
brought up steaming, a Peak Frean
biscuit alongside to be nibbled
as blue gas leaps up singing
decades ago now

damp sheets in Dorset, fog-hung
habitat of bronchitis, of long
hot soaks in the bathtub, of nothing
quite drying out till next summer:
delicious to think of

hassocks pulled in close, toasting-
forks held to coal-glow, strong-minded
small boys and big eager sheepdogs
muscling in on bookish profundities
now quite forgotten

the farmhouse long sold, old friends
dead or lost track of, what’s salvaged
is this vivid diminuendo, unfogged
by mere affect, the perishing residue
of pure sensation
Das desvantagens do aquecimento central

noites frias na fazenda, meias-calçadas
aquecidas pelo fogão ferro de passar roupa debaixo
das cobertas, nas manhãs o adamascado e
suave trabalho das samambaias
décadas atrás hoje

despertando no noroeste de Londres, o chá
que chega fervendo, uma rosquinha
Peak Frean a ser mordiscada
enquanto a chama do fogão se eleva cantando
décadas atrás hoje

chaminés de gás em Dorset, habitat
nevoento das bronquites, de
vapores quentes na banheira, de nada
realmente secando até que volte o verão:
que delícia pensar em

almofadas para os pés puxadas para perto,
garfos fazendo o carvão cintilar, garotinhos
convictos e impacientes cães de guarda
se exercitando em eruditos debates
agora tão irrelevantes

a casa da fazenda há tempos vendida, velhos
amigos mortos ou sem contato, o que se salvou
foi este vívido diminuendo, desenevoado
pelo mero afeto, o resíduo que perece
de puro sentimento

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Fog

A vagueness comes over everything,
as though proving color and contour
alike dispensable: the lighthouse
extinct, the islands’ spruce-tips
drunk up like milk in the
universal emulsion; houses
reverting into the lost
and forgotten; granite
subsumed, a rumor
in a mumble of ocean.
Tactile
definition, however, has not been
totally banished: hanging
tassel by tassel, panicled
foxtail and needlegrass,
dropseed, furred hawkweed,
and last season’s rose-hips
are vested in silenced
chimes of the finest,
clearest sea-crystal.
Opacity
opens up rooms, a showcase
for the hueless moonflower
corolla, as Georgia
O’Keeffe might have seen it,
of foghorns; the nodding
campanula of bell buoys;
the ticking, linear
filigree of bird voices.
Neblina

Uma incerteza se impõe sobre tudo,
como se provando que cores e contornos
são ambos inúteis: o farol,
apagado, as pinhas dos abetos
engolidas como leite em
emulsão universal; casas
voltando para o que se perdeu
e esqueceu; as rochas,
absorvidas, um rumor
num balbucio de oceano.
As definições
tácteis, contudo, não foram totalmente
banidas: penduradas, borla a borla,
capim-gordura e grama em flor,
capim barba-de-bode, dentes
de leão, e os brotos de roseira
da estação que passou,
investidos em silenciados
carrilhões da mais delicada,
da mais límpida água-marinha.
A opacidade
invade aposentos, uma vitrine
para a pétala desbotada da dama
da noite, como Georgia
O’Keeffe poderia ter enxergado,
das buzinas dos navios; o vai e vem
do sino das boias de navegação;
o trinado, de linear
filigrana, da voz dos pássaros.

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Written in water

From a woman’s dream of being,
at her age, still deemed desirable,
preserved — the quivering reliquary
of the dew of decades snared
among the fernery — till morning,

to wake in winter to this antic
glare — the Snow Queen’s frore
boudoir, the numbed orthography
of being seen, its milkweed
smithereens turned every which way —

is still to listen for the seep
within the crypt, the mirror-
drip of stalactites, blind milk
of perpetuity whose only witness
is the viewless salamander.
Escrito na água

Do sonho de uma mulher, na idade que
tem, de ainda ser desejável,
conservada — o vacilante relicário
do orvalho das décadas, enredado
entre as samambaias — até a aurora,

para despertar no inverno diante desta
estranha luz — do quarto de vestir, congelado,
da Rainha da Neve, a entorpecida ortografia
de ser olhada, os fragmentos de seus
gerânios espalhados, o caminho —

ainda é o de ouvir escoar
dentro da cripta, o gotejar espelhado
das estalactites, leite cego
da perpetuidade cuja única testemunha
é a salamandra que nada vê.

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Witness

An ordinary evening in Wisconsin
seen from a Greyhound bus — mute aisles
of merchandise the sole inhabitants
of the half-darkened Five and Ten,

the tables of the single lit café awash
with unarticulated pathos, the surface membrane
of the inadvertently transparent instant
when no one is looking: outside town

the barns, their red gone dark with sundown,
withhold the shudder of a warped terrain —
the castle rocks above, tree-clogged ravines
already submarine with nightfall, flocks

(like dark sheep) of toehold junipers,
the lucent arms of birches : purity
without a mirror, other than a mind bound
elsewhere, to tell it how it looks.
Testemunha

Uma tarde qualquer em Wisconsin,
vista da janela de um ônibus Greyhound — mudas
fileiras de mercadorias, as únicas habitantes
da penumbra de uma lojinha de variedades ,

as mesas do único café iluminado, inundadas
por desarticulada melancolia, a membrana superficial
do inadvertidamente translúcido instante
em que ninguém está olhando: fora da cidade

os celeiros, seus vermelhos escurecidos pelo pôr do sol,
retêm os tremores de um terreno deformado —
as rochas encasteladas nos picos, os campos repletos de árvores
já submergidas pela noite que cai, flocos

(como ovelhas negras) de juníperos deformados,
e os reluzentes braços das bétulas : a pureza
sem um espelho, sem outra coisa além da mente, presa
a um outro lugar, para contar como isso parece ser.

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Dancers exercising

Frame within frame, the evolving conversation
is dancelike, as though two could play
at improvising snowflakes’
six-feather-vaned evanescence,
no two ever alike. All process
and no arrival: the happier we are,
the less there is for memory to take hold of,
or — memory being so largely a predilection
for the exceptional — come to a halt
in front of. But finding, one evening
on a street not quite familiar,
inside a gated
November-sodden garden, a building
of uncertain provenance,
peering into whose vestibule we were
arrested — a frame within a frame,
a lozenge of impeccable clarity —
by the reflection, no, not
of our two selves, but of
dancers exercising in a mirror,
at the center
of that clarity, what we saw
was not stillness
but movement: the perfection
of memory consisting, it would seem,
in the never-to-be-completed.
We saw them mirroring themselves,
never guessing the vestibule
that defined them, frame within frame,
contained two other mirrors.
Dançarinos praticando

Cena dentro da cena, a conversa crescente
é como a dança, como se uma dupla pudesse
improvisar o bailado das seis pontas
dos flocos de neve a se dissolver,
jamais dois flocos iguais. Tudo percurso,
sem destino: quanto mais felizes estamos,
menos há para a memória guardar,
ou — pois se tem a memória tamanha predileção
por exceções — acaba barrada
diante da cena. Mas ao encontrar, uma tarde,
numa rua não muito conhecida,
dentro de um encharcado
jardim de novembro, um
edifício de origem incerta,
em seus vestíbulos, espreitando, somos
capturados — uma cena dentro da cena,
um losango de impecável claridade —
pelo reflexo, não, não de
nós dois, mas de
dançarinos praticando frente a um espelho,
bem no centro
daquela claridade, o que vimos
não foi permanência,
mas movimento: a perfeição
da memória consiste, parece,
naquilo que nunca-será-concluído.
Nós os vimos olhando-se no espelho,
jamais adivinhado que o vestíbulo,
que os definia, cena dentro da cena,
continha dois outros espelhos.

>>>

The smaller orchid

Love is a climate
small things find safe
to grow in — not
(though once I supposed so)
the demanding cattleya
du coté chez Swann,
glamor among the faubourgs,
hothouse overpowerings, blisses
and cruelties at teatime, but this
next-to-unidentifiable wildling,
hardly more than a
sprout, I’ve found
flourishing in the hollows
of a granite seashore —
a cheerful tousle, little,
white, down-to-earth orchid
declaring its authenticity,
if you hug the ground
close enough, in a powerful
outdoorsy-domestic
whiff of vanilla.
A menor orquídea

O amor é uma atmosfera
na qual as menores coisas se
sentem seguras para vicejar — não
(apesar de que um dia acreditei)
a exigente cattleya
du coté chez Swann ,
resplandecente entre os bairros afastados,
dominadora nas estufas, êxtases
e crueldades na hora do chá, mas esta,
selvagem, e quase não identificável,
pouco mais que um
broto, encontrei
nascendo nas fendas
das rochas costeiras do litoral —
uma alegre, descabelada, pequena,
branca, despretensiosa orquídea,
capaz de declarar a você sua autenticidade,
se você se aproximar do solo,
perto o suficiente, do poderoso
e familiar-espaço aberto
de aroma de baunilha.

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