Ensaios e Resenhas

outubro 2019 / Ensaios e Resenhas / Amor impossível

Texto publicado na edição #234

Amor impossível

"O que te pertence", de Garth Greenwell, narra a conturbada e obsessiva relação de um professor com um garoto de programa

> Por Antonio de Medeiros

Garth Greenwell, autor de O que te pertence

Garth Greenwell, autor de O que te pertence

A narrativa em primeira pessoa do romance O que te pertence, do norte-americano Garth Greenwell, é dividida em três partes, como um tríptico, e rememora uma relação conturbada e obsessiva vivida entre um professor americano de literatura, inominado, que narra o livro, e um garoto de programa búlgaro, chamado Mitko.

A primeira parte do livro, intitulada com o nome do michê, já havia sido publicada antes como uma novela e se inicia com o encontro deflagrador dessa relação. O aparente aspecto insólito do local onde se dá o primeiro encontro, dentro de um banheiro público no Palácio Nacional da Cultura em Sofia, capital da Bulgária, permite ao narrador, estrangeiro e com dificuldade de se comunicar, um ambiente em que se sentirá à vontade, tanto para manifestar seu desejo sexual por homens quanto para se comunicar em uma língua que ainda não domina; uma vez que a linguagem do desejo é universal, e o flerte nesses locais onde ocorre pegação (cruising) depende menos de palavras do que de gestos e de olhares.

O romance tem como cenário predominante o espaço urbano da Bulgária, marcado pela presença dos blokoves e suas enormes torres remanescentes da arquitetura soviética. A cidade também aparece nos deslocamentos do professor nos transportes públicos e pelos vários parques. Mas o exotismo local é mais notado devido ao uso das palavras búlgaras, inseridas na narrativa e que vão sendo assimiladas durante a leitura, como “tchakai, tchakai, tchakai” [“espere, espere, espere”]. Outra palavra recorrente é “priáteli”, cujo significado principal é “amigo”, mas que o narrador vai depreendendo novos sentidos por meio dos variados usos que Mitko faz dela. Então a palavra passa a significar também cliente, protetor e namorado. É de um modo sutil que vamos compartilhando com o narrador o aprendizado de uma língua e a sensação de ser estrangeiro.

Não falta densidade à escrita, porém muitas vezes os parágrafos parecem blocos imensos de cimento, remetendo talvez à arquitetura com traços soviéticos da Bulgária. Como a história é contada de modo indireto, sem diálogos, como uma rememoração, as frases se estendem e os parágrafos jorram, o que pode causar uma dispersão no leitor mais acostumado a seguir uma linha narrativa.

A relação de dependência e dificuldade de se livrar desse relacionamento baseado em interesses se assemelha à famosa e doentia relação entre os personagens Philip Carey e Mildred, do romance Servidão humana, de Somerset Maugham.

Figura paterna
Na segunda parte, Um túmulo, a notícia do estado terminal de saúde do pai do narrador deflagra uma corrente de recordações da infância. Nesse grande fluxo de memória são explicados a origem de alguns traumas do narrador e o desencanto causado pelas rejeições sofridas nessa época, como a de um amigo e a não aceitação de sua sexualidade pelo pai.

Por mais que o narrador reitere a sua necessidade de contar tudo o que ocorreu, de escrever como quem se confessa, ele se dá conta da impossibilidade desse intuito, pois nem tudo pode ser compartilhado. Isso não ocorre por pudor, mas pela dificuldade de transpor em linguagem uma experiência única de um indivíduo específico e de retransmiti-la a outra pessoa, de modo que o outro possa vivenciar essa mesma experiência. Garth Greenwell, que também é poeta, em diversos momentos do livro alcança essa difícil tarefa, principalmente por meio de metáforas e imagens poéticas, como em “o amor não é apenas uma questão de olhar para alguém, eu penso agora, mas também de olhar junto com esse alguém, de encarar o que ele encara” e “(…) agarrando seus quadris com as duas mãos como agarramos a borda de uma xícara para beber”.

A figura paterna é central na história e o rompimento com o pai é um dos ocos que o personagem tenta preencher por toda a vida. Esse vazio do narrador corresponde à definição spinoziana de desejo como carência, ausência e falta.

Pode-se fazer uma relação entre o ápice da rejeição do pai à sexualidade do filho com a briga com Mitko. Na cena do banho com o pai, eles tomavam banho juntos quando o narrador era menino, ao notar a ereção do filho, a reação do pai é de asco e de violência. Depois disso, o pai mudou a forma de tratá-lo, e a partir daí o menino nota nele um novo rosto, como se a autêntica personalidade do pai finalmente aparecesse e o tomasse de surpresa, como se o pai fosse um estranho.

Essa mesma reação se dará na primeira briga entre o narrador e Mitko. A discussão entre os dois faz com que Mitko revele as suas verdadeiras motivações e deixe claro “o que te pertence”, ou seja, o interesse dele em obter vantagens e a carência e vontade de protegê-lo pelo narrador.

Decadência
Na terceira parte, intitulada Sífilis, Mitko reaparece doente para pedir ajuda e avisar ao narrador que contraiu sífilis. Já não são os favores sexuais que prendem o narrador ao personagem, mas uma junção de pena, culpa e interesse pela figura decadente.

Greenwell se destaca pela capacidade de se aprofundar nas relações humanas, por conseguir em vários momentos com que o leitor perceba as nuances das reações fisionômicas e de comportamento dos personagens e por sua habilidade e sensibilidade em tratar do tema.

A parte do meio do romance se encerra com uma cena em que o narrador vê um cavalo abandonado, doente e magro, sob o sol escaldante. Ele se aproxima do animal e pousa a mão sobre o seu flanco quente, “que era escuro e estava tostando ao sol, quase quente demais para tocar. Acho que ele soltou um súbito suspiro, um sopro de alívio ao deslocar um pouco o corpo”. Esse trecho é representativo da empatia que o narrador sente pelos abandonados e rejeitados, seja um cavalo ou um garoto de programa sem perspectiva de mudança de vida em um país agonizante.

A imagem de tríptico para o romance é devido à independência das três partes, que ao mesmo tempo formam um corpo inteiro e que poderiam ocupar perfeitamente uma outra sequência. O autor atualmente trabalha com contos situados ainda na Bulgária, com o mesmo narrador, como interstícios desse livro. Portanto, é como se o livro nunca terminasse, assemelhando-se ao desejo de André Gide em Diário dos moedeiros falsos, que queria colocar tudo o que viveu na obra, ou como Proust com seus constantes acréscimos a Em busca do tempo perdido. Assim como Proust escreveu o primeiro e o último volumes de sua obra romanesca antes de iniciar os livros que compõem o meio da saga, o mesmo pode estar acontecendo agora com a obra de Garth Greenwell.

 

 

Garth Greenwell_O que te pertence_234

O que te pertence
Garth Greenwell
Trad.: José Geraldo Couto
Todavia
208 págs.

O AUTOR
Garth Greenwell
Nascido em 1978, o norte-americano é poeta, crítico e professor. O que te pertence o transformou em um dos nomes mais festejados da ficção contemporânea.

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