Dom Casmurro

maio 2018 / Dom Casmurro / Amiri Baraka

Texto publicado na edição #217

Amiri Baraka

Seis poemas de Amiri Baraka

> Por André Caramuru Aubert

Amiri_Baraka_217

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Amiri Baraka (1934-2014) nasceu Everett LeRoi Jones, e com esse nome lançou, a partir de 1961, seus primeiros livros de poemas. Membro da cena artística de Nova York, vivia no Village e foi amigo de Beats, de poetas da New York School e da San Francisco Renaissance. Mas aos poucos se afastou desses grupos (há um registro da mágoa de Frank O’Hara, na época) e se aproximou dos movimentos de afirmação negra do Harlem. Logo após o assassinato de Malcolm X, em 1965, mudou o nome para Amiri Baraka e passou a escrever uma poesia cada vez mais política.

Way Out West

for Gary Snyder

As simple an act
as opening the eyes. Merely
coming into things by degrees.

Morning: some tear is broken
on the wooden stairs
of my lady’s eyes. Profusions
of green. The leaves. Their
constant prehensions. Like old
junkies on Sheridan Square, eyes
cold and round. There is a song
Nat Cole sings… This city
& the intricate disorder
of the seasons.

Unable to mention
something as abstract as time.

Even so, (bowing low in thick
smoke from cheap incense; all
kinds questions filling the mouth,
till you suffocate & fall dead
to opulent carpet.) Even so,
shadows will creep over your flesh
& hide your disorder, your lies.

There are unattractive wild ferns
outside the window
where the cats hide. They yowl
from there at nights. In heat
& bleeding on my tulips.

Steel bells, like the evil
unwashed Sphinx, towing in the twilight.
Childless old murderers, for centuries
with musty eyes.

I am distressed. Thinking
of the seasons, how they pass,
how I pass, my very youth, the
ripe sweet of my life; drained off…

Like giant rhesus monkeys;
picking their skulls,
with ingenious cruelty
sucking out the brains.

No use for beauty
collapsed, with moldy breath
done in. Insidious weight
of cankered dreams. Tiresias’
weathered cock.

Walking into the sea, shells
caught in the hair. Coarse
waves tearing the tongue.

Closing the eyes. As
simple an act. You float
Para o Oeste

para Gary Snyder

Um ato tão simples
quanto abrir os olhos. Apenas ir
absorvendo, aos poucos, as coisas.

Manhã: alguma lágrima cai
nas escadarias de madeira
dos olhos de minha mulher. Profusão
de verdes. As folhas. Suas
constantes apreensões. Como os velhos
viciados da praça Sheridan, de olhos
frios e arregalados. Há uma canção de
Nat Cole que diz… Esta cidade
& a intrincada desordem
das estações do ano.

Sem conseguir falar
de algo tão abstrato quanto o tempo.

Ainda assim, (curvando-se sob a densa
fumaça do incenso vagabundo; todas
as possíveis questões preenchendo a boca,
até que você sufoque & caia morto
no opulento carpete.) Ainda assim,
sombras rastejarão sobre sua carne
& esconderão sua bagunça, suas mentiras.

Há samambaias selvagens e sem graça
do lado de fora da janela,
onde os gatos se escondem. De lá,
à noite, eles uivam. No cio
& sangrando nas minhas tulipas.

Sinos de aço, como a cruel
e suja Esfinge, arrastando no crepúsculo.
Velhos assassinos sem filhos, por séculos
com seus olhos mofados.

Estou aflito. Pensando
nas estações do ano, como elas passam,
como eu passo, a minha juventude, o
doce amadurecer da minha vida; escorrendo…

Como grandes macacos rhesus;
pegando seus crânios,
com inocente crueldade
chupando os miolos.

Não adianta a beleza
ruir, com seu bafo de
mofo por dentro. O insidioso peso
de sonhos aflitos. O bem curado
pau de Tirésias.

Caminhar para dentro do mar, conchas
presas no cabelo. Rudes
ondas ferindo a língua.

Fechar os olhos. Um
ato tão simples. Você flutua

>>>

The Dead Lady Canonized

(A thread
of meaning. Meaning light. The quick
response. To breath, or the virgins
sick odor against the night.

(A trail
of objects. Dead nouns, rotted faces
propose the nights image. Erect
for that lady, a grave of her own.

(The stem
of the morning, sets itself, on
each window (of thought, where it
goes. The lady is dead, may the Gods,

(those others
beg our forgiveness. And Dambalah, king father,
sew up
her bleeding hole.
A mulher morta e canonizada

(Um fio
de significado. Significar luz. A reação
imediata. Respirar, ou o odor doente
das virgens diante da noite.

(Uma trilha
de objetos. Nomes mortos, rostos apodrecidos
sugerem a imagem das noites. Erigida
para aquela mulher, um jazigo só para ela.

(A haste
da manhã, se define, em
cada janela (de pensamento, para onde
vai. A mulher está morta, permitam os Deuses,

(que aqueles outros
implorem por nosso perdão. E que Damballa , rei-pai,
costure
o orifício dela, que sangra.

>>>

A Poem Welcoming Jonas Mekas to America

This night’s first star, hung
high up over a factory. From my window,
a smile held my poetry in. A tower, where I work
and drink, vomit, and spoil myself for casual life.

Looking past things, to their meanings. All the pretensions
of consciousness. Looking out, or in, the precise stare
of painful reference. (Saying to the pretty girl, “Pain
has to be educational.”) Or so I thought, riding down

in the capsule, call it elevator lady, speedless forceless
profile thrust toward the modern lamp, in lieu of a natural
sun. Our beings are here. (Take this chance to lick yourself,
the salt and stain of memory history and object.) Shit! Love!

Things we must have some use for. Old niggers in time on the
dreary street. Man, 50… woman, 50, drunk and falling in the street.
I could say, looking at their lot, a poet has just made a note of your
hurt. First star, high over the factory. I could say, if I had any courage

but my own. First star, high over the factory. Get up off the ground, or
just look at it, calmly, where you are.

>>>

Poema de boas-vindas a Jonas Mekas aos Estados Unidos

A primeira estrela desta noite, pendurada
lá no alto de uma fábrica. Da minha janela,
um sorriso segura meus poemas. Uma torre, onde trabalho
e bebo, e vomito, na vida descuidada que me arruína.

Olhando para o que passou, o que significou. Todas as pretensões
da consciência. Olhando para fora, para dentro, o olhar exato
da alusão dolorosa. (Dizendo para a garota bonita, “A dor
precisa ser educativa.”) Ou assim pensei, viajando para baixo

na cápsula, chame-a de senhora elevador, perfil sem velocidade e
sem força, sob a moderna lâmpada, no lugar do sol
natural. Nossos eus estão aqui. (Aproveite a chance para se lamber,
sal e mancha de memória, história e objeto.) Merda! Amor!

Coisas que devem ter algum uso. Velhos crioulos, a tempo, na
rua sombria. Homem, 50… mulher, 50, bêbados e caídos na rua.
Eu poderia dizer, olhando para eles, que um poeta acabou de anotar
a dor que sentem. Primeira estrela, no alto sobre a fábrica. Eu poderia dizer, se fosse mais corajoso

do que sou. Primeira estrela, no alto, sobre a fábrica. Erga-se do chão, ou
apenas olhe para ela, calmamente, de onde está.

>>>

Wise 1

If you ever find
yourself, some where
lost and surrounded
by enemies
who won’t let you
speak in your own language
who destroy your statues
& instruments, who ban
your omm boom ba boom
then you are in trouble
deep trouble
they ban your
omm boom ba boom
you in deep deep
trouble

humph!

probably take you several hundred years
to get
out!
Sábio 1

Se um dia você se
encontrar, de alguma maneira
perdido e cercado
por inimigos
que não lhe deixarão
falar em sua própria língua,
que destruirão suas estátuas
& instrumentos, que banirão
seu omm bum ba bum,
você estará encrencado,
muito encrencado
eles banirão seu
omm bum ba bum,
você muito muito
encrencado

humf!

e provavelmente levará muitas centenas de anos
para você
escapar!

>>>

X

Everything we don’t understand
is explained
in Art
The Sun
beats inside us
The Spirit courses in and out
of us

A circling of transbluesency
pumping Detroit Red inside, deep thru us
like a Sea
& who calls us bitter
has bitten us
& from that wound
pours Malcolm
Little
by
Little
X

Tudo aquilo que não compreendemos
está explicado
na Arte
O Sol
bate dentro de nós
O Espírito corre para dentro e para fora
de nós.

Uma circulação de transazulzice
pulsando dentro de Detroit Red , fundo, dentro de nós,
como um Mar
& quem nos chama de amargos
nos tem mordido
& daquela ferida
Malcolm sangra
Pouco
a
Pouco
>>>

Brother Okot

Our people say
death lives
in the West
(Any one
can see
plainly, each evening
where the sun
goes to die)

So Okot
is now in the West

Here w/ us
in hell

I have heard
his songs
felt the earth
drum his
dance
his wide ness
& Sky self

Ocoli Singer
Ocoli Fighter
Brother Okot
now here w/ us
in the place

Where even the Sun
dies.
Irmão Okot

Nosso povo diz que
a morte mora
no Oeste
(Qualquer um pode
ver
claramente, a cada entardecer
para onde vai o sol,
para morrer)

E então Okot
está agora no Oeste

Aqui c/ a gente
no inferno

Eu ouvi
suas canções
senti o chão
batuquei sua
dança
sua ampli tude
& ser Celeste

Cantor Acoli
Guerreiro Acoli
Irmão Okot
agora aqui c/ a gente
no lugar

Onde até mesmo o sol
morre.

Print Friendly