Paiol Literário

novembro 2012 / Paiol Literário / Altair Martins

Texto publicado na edição #152

Altair Martins

No dia 21 de novembro, o projeto Paiol Literário — promovido pelo Rascunho, em parceria com a Fundação Cultural de […]

> Por PAIOL LITERÁRIO

Altair Martins. Fotos: Matheus Dias

No dia 21 de novembro, o projeto Paiol Literário — promovido pelo Rascunho, em parceria com a Fundação Cultural de Curitiba, o Sesi Paraná e a Fiep — recebeu o escritor ALTAIR MARTINS. Nascido em Porto Alegre, em 1975, Martins é professor, bacharel em letras pela UFRGS e mestre e doutorando em Literatura Brasileira pela mesma universidade. Estreou em 1999 com a antologia de contos Como se moesse ferro, seguida de Se choverem pássaros e Enquanto água. Em 2009, seu primeiro romance, A parede no escuro, foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura. Seus textos foram publicados no Uruguai, Argentina, França, EUA, Itália e Portugal. Na conversa com o jornalista Irinêo Baptista Netto no Teatro Paiol, em Curitiba, Altair Martins fala sobre a busca pela inovação que guia sua atividade de escritor, a leitura como instrumento de mudança do mundo e o papel da literatura para além do entretenimento. Leia a seguir os melhores momentos do bate-papo.

• Sabotar a realidade
Uma das importâncias da literatura, com certeza, em nível pessoal, é me trazer para esses lugares. É gratificante os caminhos a que ela nos leva. Mas eu sou um escritor que me digo engajado. Não penso a literatura apenas como diversão para o leitor. O escritor é uma figura de intervenção, a literatura não pode ser levada apenas como entretenimento. Na verdade, ela é o revés do que toda a mídia faz: deve mostrar aquilo que não vem sendo mostrado, de alguma maneira colonizar o nosso olhar para que possamos enxergar coisas sutis na realidade. E eu venho desenvolvendo a idéia de que talvez a função mais importante da literatura seja sua capacidade de sabotar a pretensa realidade. Existe uma pretensa realidade e a literatura tem essa capacidade de sabotá-la, de corroê-la. A pretensa realidade é estabelecida por várias coisas, e a gente se acostuma — “isso é real, isso é normal”. E a literatura às vezes vem derrubar essa normalidade sustentada por palitos de fósforo. Educação, por exemplo. Agora no Rio Grande do Sul tem uma moda de discutir educação, mas nenhum professor é chamado. Quem discute é especialista em educação — mas não está na sala de aula. E eles falam de uma realidade que está longe, anos luz, do que é a educação. Anos luz. Alguns acham que educação é o professor que não está a fim de dar aula, que está sem incentivo. Eu tenho colegas professores que ralam o dia inteiro, fazem das tripas coração para dar uma aula. E ninguém fala disso. Então, essa pretensa realidade, às vezes de fora, sem enxergar a nuança — a literatura deve atuar aí. Ela deve mostrar que existe uma pretensão de realidade, muito falsa, produzida às vezes pela mídia. Existe um Brasil da televisão e existe o Brasil real. Então, a função da literatura é esta: de alguma maneira corroer a verdade que pretende ser verdadeira. Por isso o engajamento. O escritor não pode deixar de mostrar que essa realidade é falsa e mostrar uma outra realidade possível — que, ao meu ver, só a literatura vai mostrar.

• O fim da literatura
Agora tem uma campanha para divulgar a literatura brasileira no exterior. E as pessoas se espantam que a nossa literatura nada tem a ver com a imagem que se tem do Brasil. Isso é muito gratificante para os escritores brasileiros. Eu estava na Argentina e conversei com o Bernardo Carvalho. E ele está irritado com essa idéia das pessoas que criaram um Brasil e de que a literatura tem que sustentar aquele Brasil que não existe. Eu não sei se a literatura existe. Eu escrevo para 2 mil pessoas num país de 200 milhões, vamos arredondar. Tinham medo de que o cinema acabaria com a literatura, e não acabou. Será que não acabou? A televisão ia acabar com o cinema e não acabou. Será que não acabou? Será que nós estamos considerando o nosso universozinho intelectual mínimo realidade? Eu não sei, acho que não tem literatura no Brasil. Não sei se tem cinema. Cinema mesmo, de qualidade, quantas pessoas assistem? Às vezes há coincidência de aquilo que é feito com alta qualidade atingir, mas são raros os momentos em que atinge em massa. A literatura às vezes incomoda, e sua função é incomodar. Ela não vai vender mesmo… Tem que incomodar.

• Transformando Capitu
Eu dou aula no ensino médio. Ali eu sinto o “por que ler?”, enfrento o aluno no “por que ler?”. O aluno não quer o abstrato, ele quer o concreto. E aí eu digo: Ivan Izquierdo, maior especialista em memória do Brasil. Quer prova científica, na saúde? Quem lê demora muito mais a desenvolver Mal de Alzheimer, demora muito mais a perder a memória. Ele diz que quem lê desenvolve o poder de discernimento, passa a observar tal coisa e a perceber que aquilo não vai ter importância, e cria atalhos para coisas importantes. Sobretudo a atividade de leitura — qualquer coisa, não é só literatura: ao ler a palavra “casa”, eu faço inúmeras atividades cerebrais. É uma operação colossal no cérebro, a leitura. Isso no nível clínico. Gosto muito da teoria do Italo Calvino nas Seis propostas para o próximo milênio, da visibilidade. Ele diz que só a literatura é a arte da visibilidade, todas as outras artes vêm prontas. A literatura só acontece quando você cria uma cama, cria um fojo, um parque, o padre, a flor — só está acontecendo quando você cria mentalmente um mundo particular, e só a literatura traz esse mundo particular. E essa arte da visibilidade é tão exclusiva que trabalha com uma seqüencialidade que na realidade também não acontece. Na literatura não tem simultâneo. Aqui, vocês podem olhar para mim e ver isso aqui atrás. Em literatura, não. Só existe o primeiro plano. Ela tem o foco visual muito interessante, por isso é essa arte de revelar sutilezas. Não tem um segundo plano, este nós temos que criar. Então, a literatura produz uma matéria visual particular para cada um. Eu sempre digo que ler multiplica o mundo. Como é o olho da Capitu? Bom, vamos multiplicar pelo número de leitores da Capitu. E ela é tão imortal que eu posso ler pela segunda vez e mudá-la; posso ler pela quarta vez e mudá-la. Tanto é verdade que Dom Casmurro, quando nasceu, era o livro de um homem traído. Depois da Hellen Caldwell, uma estudiosa de língua inglesa, passou a ser a história de um homem que acusa a mulher de traição. A Capitu muda. Uma leitura muda o livro, uma leitura muda o mundo. Então, por que ler? Para a gente multiplicar o mundo, para não continuar na mesmice. Ler é aquele ato de levantar a cabeça, sair da posição quadrúpede, olhar o horizonte e tentar ver o que está lá adiante. E a literatura é essa arte da visibilidade, a que permite que o mundo aconteça.

 

“Não sei se a literatura existe. Eu escrevo para 2 mil pessoas num país de 200 milhões.”

 

• Ganhar o Nobel
Eu sou um pessimista e o pessimismo vai salvar o mundo. Disseram que a beleza vai salvá-lo. Não, vai salvar o mundo o feio. É o pessimismo. A epígrafe do meu novo livro, eu abro um chiclete e está lá: “Vamos rir mais”. Achei isso uma ofensa. Rir do quê? Já se ri demais no Brasil. A gente ri demais nesse país, tudo é normal, tudo é tranqüilo. Não, é o pessimista que vai salvar o mundo. É aquele que vai entrar no hospital e dizer: “Isso aqui está uma porcaria”. [O pessimista] é aquele que desconfia de tudo. Isso é desmanchar a realidade. Eu imagino uma aula que não existe. Quanto mais próximo chegar daquela aula, melhor. Agora, não me faça ficar contente com a aula que tenho, com o aluno que tenho. A gente tem que exigir. Não pode se matar também pensando: “Ah, eu não vou conseguir”. É ter uma idéia do que quer. Eu quero ganhar um prêmio Nobel. Se vou conseguir ou não, é outro papo. Não quero ganhar um Nobel, quero produzir uma obra que um dia o mereça. Quero alcançar esse nível de excelência. Tem gente que diz: “É pretensioso”. Não. Eu quero o melhor na minha área. Sou pessimista. Eu não aceito o que tem, acho que dá para melhorar. É nesse sentido que eu acho que o pessimismo vai salvar o mundo. Não posso estar satisfeito, tenho que estar insatisfeito. A minha religião é esta: ser pessimista.

• Guerrilha
Esta [“Lecionar é falar com paredes, recitar poemas para os ventiladores e fingir que avaliamos alguém”, Altair Martins em entrevista ao Rascunho #104] é uma frase provocativa, para mostrar a situação em que está o professor. Sou um pessimista, mas não me considero um derrotado. Sou até vitorioso, em muitas etapas consigo formar leitor. […] A educação hoje é uma guerrilha. Gradual. Perguntaram: “Numa turma de 40, quantos leitores tu tira?”. Talvez cinco. Mas se eu conseguir aqueles cinco, é importante.

• Crise do narrador
A literatura evolui no tempo, evidentemente. Você vai ler um livro do século 19, tem que saber como é o narrador daquele período. Não se pode exigir do livro mais do que a época dele. Há livros sensacionais que transpõem, há caras que antecipam coisas e são esses gênios. Mas é injusto exigir de um livro a época a que ele não pertenceu. […] O modo de narrar também traduz uma época. Não é só o livro, só o tema. Tem um livro emblemático da nossa época que é o do Carlos de Brito e Mello, A passagem tensa dos corpos, em que uma língua narra. Eu admiro esses livros que têm uma estratégia narrativa surpreendente. Então, para escrever alguma coisa, tenho que encontrar o narrador, sempre. O narrador em terceira é perigosíssimo hoje. Porque é a pretensa verdade. É aquele narrador que pára e diz: “Fulano nascera…”. Não dá mais. Ninguém mais acredita nesse narrador que quer te convencer: “Eu tenho uma bagagem histórica sobre o personagem e agora vou mostrá-la”. Mostra na ação, isso aí. Então, há uma crise do narrador hoje. Não consigo ler livro que tenha um narrador absolutamente tradicional. Porque eu já desconfio, sabe? Esse aqui é o cara que está querendo me convencer de um método que não funciona mais. Está querendo me trazer uma outra época, alguma artimanha narrativa ele vai ter que ter ali. Hoje a gente vive uma época da mentira, em que o cara vai na internet e diz: “Eu sou Luis Fernando Verissimo”. A gente vive a era da impostura, em geral. E o narrador tem que traduzir de alguma maneira essa época. Se a literatura é a arte de sabotar a pretensa realidade, o narrador não pode querer fazer o papelzinho dessa pretensa realidade. É por isso que eu digo que a gente vive uma crise do narrador. Vive uma crise da narrativa. Quem escreve hoje sente um desconforto ao começar a narrar. Não sabe como narrar. Fica naquela sensação de o que fazer, como entender esse narrador? Em grandes livros a gente vive essa crise. Por que eu não gostei do Leite derramado, do Chico Buarque? Porque para mim é um livro comum. Do Chico eu esperava mais. Ah, o tema, as coisas que ele diz — tudo bem. Mas eu sou um leitor da narrativa, do narrador, e para mim é um livro comum, como qualquer outro. Um bom livro, mas comum. Não me questiona o modo de ver o mundo. Muita gente fez isso. Ele escreveu um dos grandes livros nessa técnica, mas eu espero mais. Os portugueses estão dando uma surra na gente. Estão inventando muito a questão da narrativa. Mas muitos se aborrecem ao pegar um livro que é intrigante na construção narrativa. O meu livro é um problema, muita gente fala: “Ah, enchi o saco na página 30 porque não sabia quem estava falando”. Mas não tenho saída, meu amigo. Se tenho dez vozes que falam, tu vai ter que ler e aos poucos perceber quem fala. Tem que dar tempo ao livro. E é evidente que vai ter gente que não vai gostar e vai abandonar o livro nas primeiras páginas. Mas fazer o quê? Eu espero do leitor mais paciência, espero que ele sinta que eu estou jogando com o modo como a realidade nos é narrada.

• Chico ou Caetano
Para a maior parte dos leitores, o importante é ler e gostar da história. Em geral, o livro tem que agradar. Mas o escritor compromissado, engajado, tem que fazer algo mais, de alguma maneira. Alguns têm que fazer o sacrifício: “Vou ser lido por mil, por 500, mas vou dar corda à literatura”. É uma opção. Não estou criticando a opção do Chico, só estou dizendo que existe uma babação de ovo. Dizem: “Um método narrativo brilhante”. Como? O método narrativo é comum. Ele escreveu um grande livro? Escreveu. Mas escreveu um grande livro no que já tem. Uma discussão famosa no Brasil: Chico ou Caetano. Oitenta por cento vai dizer Chico, mas eu vou dizer Caetano. Caetano fez muita coisa ruim. Mas naquelas que são geniais, ele chegou onde o Chico não chegou. O estrangeiro. Acho uma obra prima do Caetano. Prefiro aquele que resvala 500 vezes, comete inúmeros erros, mas quando acerta, chega num nível em que ninguém chegou. Eu erro pelo transbordamento. Tem autor que: “Ah, meu português é empobrecido por vontade própria”. Todo mundo está escrevendo num português empobrecido, a linguagem geral da literatura hoje é a jornalística. Para mim, isso é conforto. “Ah, escrevi no tradicional porque não sei o quê.” Isso é conforto. Eu não estou na área do conforto. Um monte de gente não gosta do que escrevo, mas eu estou buscando, de alguma maneira, questionar essa pretensa realidade narrativa. É o que penso de literatura. Não estou dizendo que deva ser assim, não é uma escola. Aliás, que eu saiba, pouca gente pensa como eu em relação à narrativa tradicional. Tem que dar a cara a tapa. É isso o que eu penso.

• Coletor de sucatas
Meu pai era jóquei. Ele vivia numa casa de três peças no bairro do Cristal — até é bonito o nome, mas era um bairro muito pobre em Porto Alegre, próximo ao Jockey Club. Não tinha livro em casa. O primeiro livro que eu vi, meu irmão ganhou de presente da professora Helnay: ela reuniu a gurizadinha e leu. E eu fiquei espantado com aquilo. Porque ela lendo, eu via aquelas coisas. O respeito que eu criei por aqueles livros acho que me tornou um leitor. Além do que, a minha mãe, que estudou até a quinta série, é uma grande mentirosa, assim, contadora de histórias, ela sempre aumenta. É uma tradição gaúcha, mentir e aumentar. Então, educado dessa maneira, eu entrei no colégio com fascínio pelos livros. Eu guardo meu primeiro livro. Devorei a biblioteca pública. No meu próximo livro tem a bibliotecária Vera. Não sei como quero homenageá-la, quero tornar bibliotecário profissão mais importante que doutor. Porque bibliotecário salva uma pessoa. Ela me salvou. Indicou Lya Luft para ler. Foi dando passos de leitura. A metamorfose, de Kafka, ela me deu para ler, a bibliotecária Vera, mãe de um amigo meu que não lia nada. Talvez ela tenha enxergado: vou salvar uma alma. E disso eu fui criando uma vontade escrever, fui evoluindo nesse mundo. Isso me tornou inventivo de tal maneira que eu resolvi escrever, desde muito cedo. Mas como um pessimista, sempre olhei o copo e disse: “Isso aqui não é um copo. Estão me enganando. Tenho que criar alguma coisa aqui”. Por isso, quando terminei A parede no escuro, disse: “Bom, escrevi o livro mais ou menos como queria ter escrito”. Meu projeto era: eu gostava muito de um livro do Faulkner, Enquanto agonizo. Ele tem focos narrativos diferentes, mas a linguagem é a mesma. Eu fiz questão de olhar se em inglês é a mesma, e era. Disse: “Como seria fantástico se cada narrador pudesse narrar com a sua sintaxe, com o seu modo de ver o mundo diferente”. Em A parede no escuro não é só linguagem, há modos de ver o mundo diferentes. Tem fé, ausência de fé. Como fiz isto: peguei envelopes e fui criando os personagens. Demorei sete anos. Onira, personagem que aparece aí, é minha mãe falando, são suas idéias. O Coivara são vários colegas professores que fui juntando num amálgama. Eu sou um coletor de sucatas. Para criar um personagem, vou coletando coisas, e sempre quero inovar de alguma maneira. Sou escritor, preciso criar alguma coisa. Escritor parte do zero e tem que criar alguma coisa.

• Novo escritor
Acho que nos contos eu até me repito. Mas no romance, não queria. Quando terminei A parede no escuro, tive uma ressaca. Muita gente dizia: “Pô, tu criou um modo de narrar, vai nisso”. Eu podia escrever outro livro com vários narradores — cheguei a começar. Mas disse: “Pô, daí estarei sendo um crápula e estarei negando aquilo que defendo na minha guerrilha”. Na minha guerrilha eu tenho que ser um escritor novo a cada livro. Eu posso dizer: nunca repeti narrador. Posso ter repetido por falha, não por comodismo. Gosto de tentar criar um universo próprio, nem que seja em cada conto. Estou muito satisfeito com o livro que sairá ano que vem, chamado Terra avulsa, e criei um narrador completamente distinto. Fiquei muito feliz. É um narrador que tem um humor que eu não tenho, que cria narradores. Achei uma saída muito legal de fugir, de não repetir, não é A parede no escuro. Então, estou escrevendo um livro completamente distinto. O narrador se chama Pedro Vicente. E fui descobrir, ao final de Terra avulsa, que tenho um projeto do qual não sabia: estou escrevendo sobre a crise da família brasileira. Esse meu narrador vive uma crise de identidade e eu fui percebendo que é da mãe. Em A parede no escuro, escrevi sobre a paternidade, que é o pilar da sociedade, desse Brasil patriarcal, e fui percebendo no novo que eu estava escrevendo sobre mãe. Fui deixando rolar. O narrador é alguém que não sabe quem foi sua mãe, ele foi dado.

“Para a maior parte dos leitores, o importante é ler e gostar da história. Mas o escritor compromissado, engajado, tem que fazer algo mais, de alguma maneira.”

 

• Poucos, mas bons
Não tenho muitos, mas tenho grandes leitores. Eu não gosto mais disso aqui [Como se moesse ferro (1999), Dentro do olho dentro (2001), Se choverem pássaros (2002)] que escrevi; gosto disto aqui [A parede no escuro (2008) e Enquanto água (2011)]. Foi uma mudança grande. Ali, era o Altair leitor escrevendo. Aqui foi um Altair que estudou um pouco. Vão traduzir esse livro [Como se moesse ferro] na Bolívia. Eu não queria e me perguntaram por quê. Eu não soube responder, aí aceitei. Gente, essa editora aqui é mínima. WS Editor. É um guerreiro que publica livros em Porto Alegre. Ele acreditou no meu texto, publicou. Aí o livro chega a La Paz e vai ser publicado na Bolívia. Esses leitores que se espalham, a gente não tem controle. Raramente eu tenho leitor de um livro; quem gosta, vai ler o outro. Não tenho muitos leitores, posso dizer que no Rio Grande do Sul eu sou o que mais levou porrada. Os que mais gostam [da minha literatura], gostam da questão da coragem. E dizem que eu escrevo de uma maneira que ninguém está escrevendo. Um elogio que recebi de leitor foi uma coisa que ele conseguiu me explicar e que eu não sabia. Ele falou: “Quando tu usa um símbolo, digamos, um copo d’água, tu não esgota esse símbolo, tu o faz evoluir”. Eu não sabia se isso era bom ou ruim, mas gosto de explorar os símbolos. E disseram assim: “Quando tem um copo d’água no teu livro, ele não está impune; tem sempre a ver com uma camada de leitura, com outra camada e outra, que são esses símbolos que ajudam a ler”. E eu acabei concordando, tanto que usei isso no meu doutorado. Eu tenho um processo de estabelecer camadas. A pessoa pode ler tanto pelo nível da história, do narrador, pelo nível da sociedade — sempre estou falando de sociedade, quando falo de mãe, estou falando do Brasil. Sempre tem camadas — do mais pessoal ao mais universal. Eu não pensava nisso. E percebi que sou meio escravo desse processo, do qual não consigo me livrar, que é tentar estabelecer camadas, níveis de leitura. Então, repito: não são muitos leitores. Pouca gente me conhece. Meus livros demoram a fazer amigos, mas eu não traio as pessoas, elas continuam ligadas.

• Mesmice da crítica
Tem prêmios que nos constrangem porque tu percebe que sei lá como foram dados… Tem muito “brodismo” no Brasil. Escritor conta muito com amigo jornalista. Tem muito elogio de amigos, tem uns prêmios que não sei de onde saem. O Jabuti desse ano teve um exemplo estranhíssimo. Nota dez de um jurado para o livro X, nota zero para o outro. Que filho de uma puta! Ele decidiu o prêmio. Queria dizer quando ganhasse, mas não vou ganhar nunca, então vou dizer aqui: não entendo o Jabuti. Tenho a impressão de que me colocam como finalista mas nunca me leram. Houve anos em que eu perdi e disse: “Aquele livro era melhor”. Gosto muito dos prêmios porque eles dão uma lista de finalistas e a gente vai ler. Mas eu vejo ganhar cada livro de mídia… Vejo a literatura fazer o contrário do que deve: ela vota na mídia. Porra, nós temos que fazer o que a mídia não faz. Eu quero fazer uma literatura que mostre o que não estão falando. É isso que os prêmios devem fazer: mostrar aquilo que talvez o leitor não tenha enxergado. Um cara que ganha pouco prêmio no Brasil e que é um gênio: Luiz Ruffato. Por outro lado, o prêmio não garante nada. O que ele dá é visibilidade. Te abre portas, pelo menos. Mas tem um problema no Brasil, que é da crítica em geral: o medo de dizer que é bom ou ruim. Tem que dizer. Isso aqui é uma porcaria — vai lá e diz. O Marcelo Backes publicou uma crítica contra esse livro [Como se moesse ferro] e está na internet até hoje. Aí um amigo disse: “Por que você não pede para ele tirar?”. Não. Ele está me divulgando. Marcelo Backes, quando detonou meu livro, o fez vender feito louco. Porque muita gente foi ler. Eu acho assim: fala mal; agora, mesmice, não dá. Tem que dizer o que pensa do livro. O [José] Castello tem essa coragem de escrever coisas. Falta isso na crítica, nos prêmios.

• A verdade do livro
Na verdade, ao terminar esse Terra avulsa, não senti vontade de escrever. Depois de tanto estudo literário, hoje é evidente que o escritor não existe, isso aqui é uma pessoa, o Altair falando, o que existe é o leitor. Ele disse que não gosta do primeiro conto. É um dos que eu mais gosto. Eu não sou o dono do livro. O escritor não existe. A verdade é feita do número de leitores, e ela não vai ser eterna. O que é o Enquanto água? Por enquanto ele não existe, não existe no reflexo, que é a crítica, o e-mail que eu recebo. Para mim, esse é um livro que não existe. Infelizmente. Eu caprichei tanto, sabe… A verdade sobre esse livro vai ser feita de cada leitor. Se ele acabar daqui a dez anos, e ninguém mais o ler, bom, a verdade sobre ele é o que foi dito até ali.

• Desintoxicação
Terminado o Terra avulsa, eu ando meio chateado. Porque vejo grandes livros sobre os quais ninguém fala nada — aquilo que eu penso que é literatura ninguém fala nada. Vejo elogio desvalido para livro comum. Não tenho problema com livro comum, só não vai dizer que o cara inovou. Vejo gente dizendo: “A partir deste livro a literatura brasileira é outra”. Como? Mostra! A troco de que ela é outra? Por que é teu amigo? Tem livro que eu não vejo acontecer. Chateado quando terminei Terra avulsa, ainda não tenho vontade de escrever narrativa. O que aconteceu: eu tenho uma vida muito ligada ao teatro. Então, fui assistir a uma peça de alguns amigos. Terminou, esperei eles saírem e fui conversar. O cara disse: “Pô, tu não está a fim de escrever? Então agora é a hora, escreve uma peça”. Aquilo me intrigou. Tenho mais sonho de texto para o teatro do que para o cinema. Porque o cinema é uma adaptação, é do espectador, não é meu. O teatro tem um pouco das tuas apalavras ali, pelo menos. Então, estou escrevendo uma peça. Porque aquela peça me desafia a tentar, no teatro, fazer algo novo, produzir alguma coisa que eu penso em teatro. E é curioso, venho fazendo um exercício de desintoxicação. Terminei A parede no escuro, escrevi conto para não me repetir; terminei conto, escrevi romance; terminei o romance, estou escrevendo teatro. Estou começando a usar isso aí como prática para não deixar de escrever. Então, escrever para tentar encontrar esse terreno novo — que eu nunca vou encontrar. É esse o desafio: tentar encontrar um terreno novo, sabe? Buscar a experimentação da linguagem, provar que ainda tem algo a ser dito, novo. A gente pode incorrer na repetição, ou no outro erro, que é inventar por inventar. Eu sou mais atacado por inventar. Mas é isso. Tentar encontrar aquele leitor que vai abrir o livro, vai ler e dizer: “Pô, aqui tem o desafio da linguagem”. É por isso que eu escrevo: por esse desafio da linguagem. Por alguém que vai encontrar aquela ratoeira da linguagem e vai dizer: “Pô, tem alguém que se esforçou aqui para trabalhar a linguagem”.

• Colonizado por Vila-Matas
Esse livro [Dublinesca] me colonizou por um tempo, sabe? Poluiu um pouquinho do que eu estava escrevendo em Terra avulsa. Porque o meu livro fala também do fim da literatura. E quando lia Vila-Matas, eu dizia: existem fios contemporâneos realmente na literatura. O Vila-Matas brinca com esses subterfúgios da literatura. Talvez o subterfúgio seja uma linha na literatura contemporânea — ou no modo como se narra ou como um personagem que não existe. De alguma maneira a gente está mentindo na literatura para provar que esse mundo aí fora não é verdade. Porque na verdade ele está falando da realidade mais pura, a nossa realidade é mentirosa o tempo todo. Ele encontrou uma coisa genial. Quando o li pela primeira vez, pensei: “Não posso repetir esse cara; tenho que criar outro recurso”. Meu livro tem um personagem que é um pouco Beckett também, que é um mancebo de madeira, como a gente diz no Rio Grande do Sul, um cabideiro. Esse mancebo começa a falar, lá pelas tantas ele narra. E um amigo meu falou: “É a consciência dele?”. Não, é o mancebo. O narrador é um mancebo. Ele diz uma frase e o cara fala: “Mas isso é do Vila-Matas”. E o mancebo diz: “Não, é nosso, senhor tradutor. Vila-Matas nos ensina que a verdade não existe, ninguém é dono de nada”. Então, ele é muito colonizado pelo Vila-Matas, é um dos autores que eu mais aprecio.

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