Ensaios e Resenhas

março 2020 / Ensaios e Resenhas / Alerta vermelho

Texto publicado na edição #239

Alerta vermelho

Em "Terras do sem-fim", Jorge Amado solta um spoiler no meio do livro

> Por Adauto Leva

Jorge Amado, autor de Terras do sem-fim

Jorge Amado, autor de Terras do sem-fim

O Ciclo do cacau de Jorge Amado é bem conhecido. São três romances que tratam do tema: Cacau (1933), em que o autor retrata os trabalhadores das roças e sua exploração pelos donos das terras, Terras do sem-fim (1943), onde os coronéis e suas lutas por mais terras e mais roças conduzem a narrativa, e São Jorge dos Ilhéus (1944), romance urbano que traz o ápice econômico e a derrocada financeira das famílias ligadas à terra mas que vivem nababescamente na cidade.

Terras do sem-fim conta a disputa pelas terras de Sequeiro Grande, última reserva de mata rodeada de roças de cacau e moradia de um único habitante: o negro Jeremias, que, fugindo da escravidão, se meteu no meio da mata e com os índios aprendeu os segredos das ervas. Jeremias era o feiticeiro local, o curador de todas as moléstias, o profeta que avisou: a derrubada da mata trará a derrocada de tudo.

Indiferentes a isso, dois grandes proprietários de terras e roças de cacau duelam pelo Sequeiro Grande: um é Horácio da Silveira, o ex-tropeiro que, segundo a crença local, teria um diabinho preso numa garrafa guardada embaixo da sua cama a lhe fechar o corpo contra balas e o patrimônio contra fraudes cometidas por adversários; outro é a família Badaró, representada por dois irmãos, Sinhô Badaró, o mais velho, o ponderado, aquele que só decide um negócio depois de abrir a Bíblia ao acaso e ler uma passagem, e Juca Badaró, o mais novo, o impetuoso, aquele que decide todos os negócios pela força do chicote e da bala. Polos opostos, cada coronel está de um lado da mata e a quer para si. Em comum, a certeza de que não há terra melhor para a lavoura de cacau, como dizem quase todos os envolvidos na disputa.

Aviso
Este texto vai contar o fim da história. Você já está avisado.

Spolier é uma palavra que entrou nas nossas conversas cotidianas recentemente, com o crescimento da TV por streaming e o apego às séries. O spoiler é a revelação de algo de um enredo que o outro desconhece; é aquela piada do cara que sai do cinema e passa pela fila dos que vão entrar na sessão seguinte falando alto “é uma pena que ele morre no final”.

Em língua portuguesa, poderíamos usar o verbo espoliar, termo que Houaiss explica como sendo “desapoderar pertence alheio; privar alguém de algo por meios ilícitos, ilegítimos ou violentos”, fazendo uma aproximação de termos — fulano me privou do prazer da surpresa do fim da história. Não é diferente do que registra o dicionário Cambridge, para o verbo spoil: to destroy or reduce the pleasure, interest, or beauty of something — destruir ou reduzir o prazer, o interesse ou a beleza de algo. Outras acepções do termo, no inglês, são apodrecer, usado para alimentos, e anular o voto, quando se faz uso de cédulas de papel. Poderíamos dizer, então, que fulano me espoliou ao contar o final do filme. Porém, acabamos usando spoiler mesmo — “Fulano deu spolier!”. E Jorge Amado, quem diria, espoliou seus leitores há quase 80 anos.

No começo da guerra, Horácio tem mais terras, mais jagunços, mais armas e um advogado mais esperto nos caxixes (as negociatas fraudulentas que registram terras tomadas de modo ilegal). Não tem, entretanto, a força política local. O grupo ao qual se alinha é oposição ao governo estadual. E a gripe toma conta da casa de Horário, prostrando o coronel e vitimando sua esposa. É o momento em que os Badarós ganham batalhas e parecem estar próximos de vencer a guerra pela mata.

Curada a gripe e sepultada a esposa, Horácio volta com tudo. E rapidamente vira o jogo a seu favor — seria a ajuda do diabinho preso na garrafa? — após Juca Badaró ser baleado na cidade e morrer. Ao mesmo tempo, o governo federal decreta intervenção no governo estadual, dando posse a José Joaquim Seabra (Jorge Amado menciona, aqui, a intervenção que de fato Hermes da Fonseca fez na Bahia, em 1912), e Horácio volta a ser da situação. Os Badarós passam para a oposição e começam a perder a guerra. Horácio vira o senhor das matas de Sequeiro Grande.

Horácio ser um seabrista significa que o coronel do cacau estava ligado ao grupo político de José Joaquim Seabra, o J.J. Seabra, jurista e político da República Velha. Seabra foi eleito deputado federal pela primeira vez em 1890 e a partir de então figurou em cargos importantes no plano federal: Ministro da Justiça, dos Negócios Interiores, das Relações Exteriores e dos Transportes, no período de 1902 a 1912, durante as presidências de Rodrigues Alves e Hermes da Fonseca. Após esse período de presença na então capital da República, o Rio de Janeiro, Seabra se elege governador da Bahia em duas oportunidades, de 1912 a 1916 e de 1920 a 1924, tendo eleito, ainda, seu correligionário Antonio Moniz para o mandato de 1916 a 1920. Assim, o grupo político ao qual o coronel Horácio participava comandou o estado da Bahia de 1912 a 1924 e ainda teve relativa importância até 1930, quando Seabra se aliou aos novos políticos locais.

Desdobramentos
A trama de Terras do sem-fim se desenrola por volta dos anos 1910. Há uma passagem no romance contando a chegada do bispo de Ilhéus, o que aconteceu realmente em 1913. E há, ainda, os altos valores pelos quais o cacau é negociado pelas traders inglesas presentes na cidade, que seguiam as cotações das bolas internacionais. Não seria arriscado situar esse auge cacaueiro antes da quebra da bolsa de Nova York em 1929.

Na estrutura do romance, o desfecho da guerra pelas matas de Sequeiro Grande se dá na sua parte final. O livro é dividido em seis partes: O navio, A mata, Gestação de cidades, O mar, A luta e O progresso. Em cada parte, o autor vai construindo o cenário: o navio que traz todo tipo de gente de Salvador para Ilhéus, a mata e sua importância para o futuro da produção, os povoados que nascem ao redor das fazendas e se transformam em cidades, os acontecimentos derivados da cultura cacaueira na cidade litorânea de Ilhéus, a guerra pela mata virgem, o progresso da zona cacaueira.

O fim da guerra pela mata acontece quando Horácio cerca a casa da fazenda dos Badarós e a incendeia, no penúltimo capítulo da quinta parte do romance (A luta). Porém, há uma passagem, no terceiro capítulo da terceira parte (Gestação de cidades), em que Jorge Amado dá uma pista clara de quem vai vencer a luta. Reproduzo abaixo o trecho, com grifo meu no momento do spoiler:

O povoado de Ferradas era feudo de Horácio. Estava encravado entre as fazendas dele. Durante algum tempo, Ferradas marcara os limites da terra do cacau. […] E no seu caminho nasceram as casas do povoado de Tabocas e mais longe ainda as casas do povoado de Ferradas, quando os homens de Horácio haviam conquistado as matas da margem esquerda do rio. Ferradas foi, durante algum tempo, o povoado mais distante de Ilhéus. […] Ferradas foi um centro de comércio pequeno e movimentado. Iria parar seu crescimento com a conquista da mata do Sequeiro Grande, nos limites da qual nasceria o povoado de Pirangi, uma cidade feita em dois anos. […] Mas, nos tempos da conquista, Ferradas era importante, talvez mesmo mais importante que Tabocas. Falava-se que a estrada de ferro chegaria até lá. Era um projeto muito discutido nas vendas e na farmácia. Ditavam-se prazos, falava-se no progresso que isso traria a Ferradas. Mas a estrada nunca veio. Acontecia que Ferradas politicamente era de Horácio. Mandava ele e mais ninguém. E como ele era seabrista, estava na oposição, o governo nunca aprovara o projeto dos ingleses de criarem um ramal da estrada até Ferradas. E quando Seabra subiu ao governo e Horácio esteve de cima já se encontrava muito mais interessado em levar a estrada até Sequeiro Grande, junto ao qual nascia Pirangi.[1]

A passagem acima mostra como o povoado de Ferradas nasceu e se manteve sob a influência do coronel Horário. Tudo ali girava em torno da sua produção de cacau, por isso era do seu interesse que a estrada de ferro chegasse logo, facilitando o escoamento até Tabocas e daí até Ilhéus. No período que antecede a luta pelo Sequeiro Grande, Horácio está por baixo — apesar da força do grupo político de Seabra, o governo do estado é de outro grupo. Por isso a estrada de ferro não sai. Quando Seabra assume o governo e isso pode favorecer Horário, ele já não está mais interessado que a estação de trem seja em Ferradas, mas sim em Pirangi, que surgiu após a conquista da mata de Sequeiro Grande — Pirangi é hoje o atual município de Itajuípe, limítrofe a Itabuna, antiga Tabocas. Se Horário está mais interessado que a estrada de ferro vá até Pirangi, só pode ser porque ele planta cacau ali. E para plantar cacau em Pirangi, é preciso ser dono das terras onde antes estava a mata. Bingo! Spoiler na metade do livro!

Capa_Terras

Terras do sem-fim
Jorge Amado
Companhia das Letras
280 págs.

O AUTOR
Jorge Amado
Nasceu em 1912, em Itabuna (BA). Começou a escrever profissionalmente aos 14 anos de idade, em veículos como Diário da Bahia, O Imparcial e O Jornal. Estreou na ficção com O país do carnaval (1931) e publicou, entre outros, Capitães da areia (1937), Tieta do agreste (1977) e Dona Flor e seus dois maridos (1966). Foi membro da Academia Brasileira de Letras e venceu os prêmios literários Jabuti e Camões. Morreu em 2001, aos 88 anos.

[1] Amado, Jorge. Terras do sem-fim. Record, 2006. Tal edição foi preparada por Paloma e Pedro Costa, em 1995, sob supervisão do próprio Jorge Amado e com cotejamento frente às 1ª. e 56ª. edições. O trecho encontra-se reproduzido fielmente na edição da Companhia das Letras, de 2008, e em edição sem data do Círculo do Livro (que reproduzia o texto sob autorização da Record).

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