Sob a pele das palavras

abril 2019 / Sob a pele das palavras / Além da imaginação, de Ulisses Tavares

Texto publicado na edição #228

Além da imaginação, de Ulisses Tavares

Os poemas de Ulisses Tavares se avizinham, em linhas gerais, à poesia marginal dos anos 1970

> Por WILBERTH SALGUEIRO

O poeta Ulisses Tavares

O poeta Ulisses Tavares

Tem gente passando fome.
E não é a fome que você imagina
entre uma refeição e outra.
Tem gente sentindo frio.
E não é o frio que você imagina
entre o chuveiro e a toalha.
Tem gente muito doente.
E não é a doença que você imagina
entre a receita e a aspirina.
Tem gente sem esperança.
E não é o desalento que você imagina
entre o pesadelo e o despertar.
Tem gente pelos cantos.
E não são os cantos que você imagina
entre o passeio e a casa.
Tem gente sem dinheiro.
E não é a falta que você imagina
entre o presente e a mesada.
Tem gente pedindo ajuda.
E não é aquela que você imagina
entre a escola e a novela.
Tem gente que existe e parece
imaginação.

O poema Além da imaginação, de Ulisses Tavares, foi publicado em Viva a poesia viva (1997). Este livro é especialmente dirigido a jovens, conforme declara o próprio escritor em sua página (ulissestavares.com.br). Trata-se de um poema com estrofe única de 23 versos, que se elabora a partir de uma tensão constrangedora entre modos diferentes de sentir fome, frio, desalento, abandono etc. O poema e o livro oferecem pistas para pensarmos quem é esse leitor jovem que, possivelmente, há de ser afetado pela leitura de tais versos, afetado sobretudo pela má consciência, tal como a entende Nietzsche, um sentimento de culpa, mal-estar e impotência que pode aflorar em certas situações (como esta do poema).

Por sete vezes, o poema se dirige a um “você”, sempre em posição sintático-semântica similar, cujo perfil se assemelha a alguém aburguesado (porque possui condições materiais suficientes de conforto, segurança, abastança, saúde, educação, lazer etc.); provavelmente jovem (porque, talvez vivendo num mundo protegido por pais/adultos, parece desconhecer que há “gente” que não possui as tais “condições materiais”); e assim possivelmente um sujeito “alienado”, “acrítico”, a quem o poema pretende, mais pontualmente, dizer do fosso entre a “realidade” e a “imaginação”. A realidade do “Você” jovem-interlocutor radica numa redoma fantasiosa de proteção, confortavelmente distante da vida da “Gente” bastante real que sofre e transita na imaginação. Este fosso/abismo se formaliza e se fixa na sequência de oito repetições anafóricas de “Tem gente [que]” e das sete repetições de “E não é (…) que você imagina”.

A estrofe compacta de 23 versos simula que, embora múltiplos os problemas da Gente que enfrenta dificuldades, tais problemas e tais dificuldades constituem como que uma única e compacta questão: a realidade miserável da maioria da população. Os dois versos finais — “Tem gente que existe e parece/ imaginação” — põem a descoberto tal abismo entre um Você (que sugere um indivíduo) e a Gente (que sugere um coletivo). O leitor poderá se identificar com este “Você” (suposto jovem de vida tranquila), ou com a “Gente” (maioria miserável no Brasil e no mundo) ou poderá se localizar num entrelugar (um tanto Você, um tanto Gente). De um modo ou de outro, num lugar ou noutro, o poema pode gerar o sentimento da má consciência (negativo, reativo, mas que também pode mobilizar uma força crítica, ativa). A má consciência é uma espécie de culpa, de niilismo, de sofrimento, de ressentimento por aquilo que se é. No excerto Vão espanto, de Dialética do esclarecimento, Adorno e Horkheimer afirmam que “a má consciência social latente em todos os que participam da injustiça e o ódio pela vida realizada são tão fortes que, em situações críticas, eles se voltam imediatamente contra o interesse do próprio indivíduo como uma vingança imanente”. Seja se identificando, ainda que parcialmente, com a “gente” (oprimida), seja com o “você” (mais favorecido que a “gente”), seja um pouco com ambos os lados, o leitor poderá ser tomado por um desconforto — a “vingança imanente” — de quem experimenta ou experimentou a situação de sofrimento ou a de indiferença.

Há muitos estudos que tratam desse objeto estranho que se chama “literatura juvenil”, em particular “poesia juvenil”. Em síntese, é um tipo de produção que tem como escopo e horizonte o destinatário — cuja imagem geral se mistura/confunde à de um adolescente — e para ele elabora uma linguagem que, em tese, seria a mais adequada, a mais sedutora. Acontece que esse leitor jovem muitas vezes já se encontra mais interessado (quando leitor…) em textos “adultos”. De toda forma, mesmo sem abordar aqui a questão a fundo teoricamente, a “poesia juvenil” tem sido relegada a segundo plano, tanto por parte de escritores e poetas, quanto por parte de jovens leitores destinatários. Este gap, este descompasso entre a boa produção regular de “poesia infantil” e a insuficiente produção de “poesia juvenil” parece encenar a cisão entre a gente e o você do poema.

Em Viva a poesia viva, Ulisses Tavares privilegia abordar questões sociais em linguagem palatável e com certo humor, mirando, claro, na recepção de leitores recém-saídos da infância mas já em transição rápida para a vida madura. Três poemas curtos exemplificam e ampliam a mostra: Pimba: “descobri o que há comigo,/ com tanta guerra, dor, miséria,/ poluição em volta,/ fica difícil olhar só/ para meu umbigo” — fala, à semelhança de Além da imaginação, de uma tomada de consciência do sujeito diante de mazelas e desigualdades sociais; Menor abandonado: “são tantos menores/ abandonados pelas calçadas/ que um dia os maiores/ acabam tropeçando neles/ e param de fingir/ que ainda não notaram” — fala explicitamente da imensa população de menores em situação de rua; Vapt-vupt: “o discurso do político/ para o povo/ entrou por um ouvido/ e evacuou pelo outro” — explorando a ambivalência do verbo evacuar (sair; defecar), fala do desprezo popular pela retórica demagógica de políticos.

Poemas como estes tendem a facilitar a leitura, em busca da sedução do jovem leitor (sem excluir outras faixas etárias), a partir de uma linguagem simples, linear, concisa, sem complicações sintáticas, sem vocabulário raro, sem metáforas herméticas, sem jogos intertextuais, sem malabarismos preciosistas. A ideia é cativar o leitor; cativado, este poderá se envolver e perceber que há nos poemas questões sociais bem sérias, que merecem uma atenção prolongada. De modo coerente, em entrevista, o autor sintetiza sua poética: “Gosto de poemas curtos e grossos. Diretos. Enxutos. (…) da ditadura dos anos rebeldes para cá, quis que a poesia servisse para derrubar os poderosos de plantão. Seria uma inverdade histórica afirmar que eles caíram por isso. (…) Poesia está mais para lição de vida que para lição de casa”. Os poemas de Ulisses Tavares se avizinham, em linhas gerais, à poesia marginal dos anos 1970, com seus poemas curtos, bem-humorados, joviais, rebeldes e atentos à história que os cerca.

Ulisses Tavares está na estrada há um bom tempo, e para ele e sua obra, assim como para a de tantos poetas, falta reconhecimento. A despeito disso, seus poemas aparecem em muitos livros didáticos importantes, lidos por crianças e jovens em escolas, o que lhe garante certa popularidade e um feedback que a crítica literária universitária ainda não lhe reservou. Isso ocorre porque, mesmo ainda em pequena escala, tem uma poesia feita para jovens, mas essa poesia boa parte da crítica nem imagina que existe.

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