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janeiro 2012 / Quase-diário / Ah!, esses mineiros

Texto publicado na edição #113

Ah!, esses mineiros

03.09.1988 Vindo de Diamantina. Final do IV Seminário Sobre Economia Mineira (no Cedeplar). Painel coordenado por Francisco Iglésias, com Antonio […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

03.09.1988
Vindo de Diamantina. Final do IV Seminário Sobre Economia Mineira (no Cedeplar). Painel coordenado por Francisco Iglésias, com Antonio Candido, Maria Arminda Arruda, Otto Lara e eu, para falarmos sobre cinco ilustres ex-alunos da UFMG: Drummond, Pedro Nava, Guimarães Rosa, Emilio Moura e Hélio Pelegrino.

Casos ouvidos: Candido: num congresso internacional em Gênova, Candido conviveu sete dias com Rosa. Um dia, este lhe diz: “Olha, acho que o Astúrias está querendo o Prêmio Nobel, pois está aqui neste congresso. Fui há pouco a um congresso em Paris, ele estava lá. Outro dia, eu estava em Berlim, ele estava lá, depois estive em Varsóvia, estava lá. O Astúrias não me engana, quer o Nobel”.

Contou também que era íntimo de Emilio Moura. Que quando ia a BH na década de 1940, passavam quase o dia inteiro juntos. Que Emilio até lhe dedicou um livro escrevendo: “Ao AC (ofereço, dedico e consagro) com o desenho de um coração”.

Contou também que quando em 1946 participou do 2º Congresso Brasileira de Escritores, saiu numa noitada com vários escritores e foram dar num dancing onde havia as “taxi girls”. E lá iam eles dançando e pagando por minutos dançados. De repente, uma daquelas moças se levanta, atravessa o salão e entrega uma rosa a Drummond. Espantadíssimo, ele disse: “Para mim?”. Ela respondeu: “Para o senhor”.

Candido achava admirável a intuição daquela mulher da noite.

Otto disse que insistiu muito para Nava ser cronista, mas ele estava se guardando para sua obra. (Isso em resposta a uma ponderação que fiz de que Nava teria sido o maior de nossos cronistas, se o quisesse).

Otto revelando que Emílio Moura morreu em meio a uma gargalhada.

Que ele, Otto, numa noite tomou um porre no Parque Municipal de Belo Horizonte, desgarrou-se e caiu escornado e acabou sendo atendido por alguém que passava. Foi saber depois: era Juscelino Kubitschek.

Narrou isso, em Paris, ao próprio JK quando este estava ali exilado. E conversando com ele, ajudado por Fernando Sabino, ocorreu-lhe perguntar: “O que o senhor fazia no Parque Municipal às 2 da manhã?”. “Provavelmente vinha do hospital, do outro lado”, disse JK reticente.

Foi um bom fim de semana. Candido ficou atento à seresta cantada durante o jantar. Isolou-se, carregando sua cadeira para perto dos músicos, para melhor ouvi-los.

Otto, como sempre, falante e engraçado. Iglésias, idem.

Na volta, quase uma tragédia: o carro em que vinham Candido e Iglésias para Belo Horizonte, chocou-se com uma carreta, que acostada entrou na estrada, à esquerda. A perícia do chofer do carro de Candido/Iglésias os salvou, pois desviou o carro para a esquerda.

Candido e Iglésias sofreram leves escoriações. Iglésias assustou-se (falei com ele por telefone logo que cheguei à noite). Ficou, como disse, uma hora em pânico. Mas no hospital de Gouveia tiraram-lhe a pressão: 8 por 13, e estava ótimo.

Candido manteve-se de bom humor. Dizia: “Seria uma glória morrer com o Iglésias conversando, e assim os dois iriam para o além se encontrar com os amigos”. Depois começou a conjecturar brincando como seria o necrológio no Estadão, no JB, etc., como forma de exorcizar o susto.

Tentei ligar para ele hoje, mas ainda não havia chegado de viagem, e eu não quis assustar Gilda. Preferi não me identificar.

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