Sob a pele das palavras

abril 2018 / Sob a pele das palavras / Aguafuerte porteña, de Ricardo Corona

Texto publicado na edição #216

Aguafuerte porteña, de Ricardo Corona

O próprio alcance da noção de “América” está em todo o poema

> Por WILBERTH SALGUEIRO

América,
ao norte e sob um sol falso,
teus filhos se afastam
do aroma dos prados.

Os mesmos filhos
que atuaram contra a desobediência civil
de Thoreau
e fazem da democracia
um inimigo invisível.

Os mesmos
que têm a melanina impermista
e detestam semente
de melancia.

São eles, América,
os benevolentes
que cobram somente os juros
da dívida do terceiro mundo.

São eles, América,
os beneficiários
que cumprem religiosamente a sua parte
na permuta de cifra bélica.

Os mesmos
que sacodem bandeiras
quando tropas ultrapassam fronteiras
e nutrem
um orgulho cívico
para cada medalha espetada no peito
das baixas
devolvidas à vida civil.
América, são eles,
os mesmos de sempre,
que, a cada estação,
reimprimem a cicatriz neo não
e reorganizam etnias
em açougues.
São eles, América,
os adeptos da assepsia
que os deixa menos imunes
ao terror químico.

São eles, América,
os jogadores de cassino
que inflam suas bolsas escrotais
com o sobe-e-desce da Nasdaq
— o mundo que se foda
com seus bolsões de pobreza.

São eles,
sim, são eles, América,
os mesmos
que têm a maior indústria de entretenimento
do planeta
e representam grande parte da tristeza
existente neste
mundo.

Não, América,
não são os que Walt Whitman separou
feito as folhas da relva
e os fez americanos.

Os americanos estão dentro da América
— ao sul, ao norte e ao centro —,
feito o anagrama
“Iracema”.

Em Aguafuerte porteña (Corpo sutil, 2005), de Ricardo Corona, a dedicatória a dois ativistas — “para Noam Chomsky e Michael Moore” — críticos do american way of life já antecipa o tom combativo e contundente do poema. Na Antologia comentada da poesia brasileira do século 21 (2006), em que comparece o poema de Corona, Manuel da Costa Pinto comenta: “a crítica ao imperialismo norte-americano pega carona no livro homônimo do escritor modernista argentino Roberto Arlt, assumindo um tom de protesto juvenil, fazendo um elogio da poesia libertária de Walt Whitman”. Se água-forte significa uma técnica de gravura que trabalha com ácido, não espanta que, por extensão, o termo tenha se ampliado a “pensamento ou descrição que se caracterizam por expressão vigorosa e incisiva”. Incisivos e vigorosos, ácidos, os versos destilam, em suas dez estrofes, críticas e protestos a torto e à direita.

Este é um poema que, a despeito das muitas citações incorporadas, não se deslumbra com jogos verbais autotélicos. Ao contrário, a gama de autores (desde a dedicatória) e textos que agencia desenha um quadro ideológico relativamente transparente: é um poema que se rebela contra o imperialismo norte-americano, arrogante e agressivo. O próprio alcance da noção de “América” está em todo o poema: diferentemente do que os estadunidenses propagam, a América é todo o continente americano (“ao sul, ao norte e ao centro”) e não apenas um país, eles, os Estados Unidos. Não se trata de um mero libelo juvenil contra os ianques, contra a pátria de Whitman, nem tampouco um engrandecimento ufanista da pátria de Alencar. É, antes, um alerta quanto à postura invasiva, neocolonialista, autoritária que sustenta há tempos a política norte-americana, com apoio da maioria da população.

O título do poema recupera título de obra de ensaios e crônicas do argentino Roberto Arlt, Aguafuertes porteñas, que vai, justamente, falar, de problemas da capital Buenos Aires. Esse diálogo que Corona estabelece entre Brasil e Argentina, países da América, já por si contesta a pretensão ianque de donos ou protagonistas do mundo. O poema cita também Thoreau e Whitman, dois escritores (filósofo, poeta) norte-americanos que poderiam ser irmanados sob o adjetivo “libertários” — o poeta brasileiro, é claro, com eles se identifica. Além desse espírito libertário, de Whitman vai buscar o estilo de poemas longos, declamáveis, retóricos; de Thoreau a ideia central de “desobediência civil”, antigovernista, rebelde.

O conflito étnico-racial que aqui e ali (mal) se disfarça encontra no poema um disfarce semelhante na estrofe 3: brancos são os “mesmos/ que têm a melanina impermista/ e detestam semente/ de melancia”, ou seja, os caroços negros. A opressão em direção ao Terceiro Mundo mais a fachada e a alienação religiosa são referidas nas estrofes seguintes (4 e 5). A estrofe 6 fala do “orgulho cívico” com as mortes em guerras “quando tropas ultrapassam fronteiras”. A estrofe 7 não mede palavras, acusando esse “eles”, os “mesmos” que se locupletam da miséria alheia, que inflam “suas bolsas escrotais” com as variações da bolsa Nasdaq e “— o mundo que se foda/ com seus bolsões de pobreza”. A estrofe 8 cita, ao avesso, trecho de canção de Caetano Veloso, trocando a apologia de “os americanos representam boa parte da alegria existente neste mundo” do baiano (que ainda não gravara Base de Guantánamo) por “grande parte da tristeza existente neste mundo”. A última estrofe, encenando um grand finale com metáfora romântica, pode, no entanto, ser lida com mais vigor, acompanhando a força do poema. Nesse caso, mais que uma idealização, “Iracema” seria a pujança do híbrido, daquilo que resiste aos incessantes ataques etnocêntricos dos Estados Unidos, escudados, ainda, numa hegemonia política e econômica, ameaçada, é certo, por outras forças (seja que querem o seu lugar, seja que não querem ninguém nesse lugar).

No poema, há expressões que, em meio ao conjunto, podem por vezes perder parte da veemência: o “sol falso” da estrofe 1 parece insinuar a fragilidade do fascínio que os States produzem, haja vista a intensa e incessante migração para lá que, embora combatida, persiste; sob o aparente domínio da legalidade e da justiça, a democracia, no entanto, se apresenta como “inimigo invisível” (estrofe 2); logo a seguir, a ironia desmascara os “benevolentes” americanos “que cobram somente os juros/ da dívida do terceiro mundo”, o que já é uma “cifra bélica” (estrofe 5) suficiente para aumentar o abismo entre nações ricas e exploradas. Bélica também, e sobejamente, é essa cultura que, de um lado, invade territórios quando lhe apraz (ou mesmo apoia golpes travestidos de “constitucionais”), sob tácita cumplicidade mundial, e de outro testemunha genocídios no próprio território de cidadãos que, legalmente armados, fabricam chacinas em massa. A desigualdade se traduz e amplifica nas violentas imagens de “etnias/ em açougues” e “adeptos da assepsia” sobrepostas às “bolsas escrotais” de abastados “jogadores de cassino” que se locupletam dos terceiro-mundistas “bolsões de pobreza”.

A estrofe 8 toca no ponto nuclear do debate ao afirmar que os EUA “têm a maior indústria de entretenimento/ do planeta/ e representam grande parte da tristeza/ existente neste/ mundo”. A indústria cultural de entretenimento é planetária, está em todo lugar, mas é evidente o esforço e as ações de expansão da cultura norte-americana para os demais povos. No aforismo 96, Palácio de Jânus (1945), de Minima moralia, Adorno diz: “Desde há um quarto de século os velhos burgueses acorrem sem resistência à indústria cultural, cujo perfeito cálculo inclui os corações necessitados. Não têm nenhum motivo para se indignar contra a juventude corrompida até à medula pelo fascismo. Os privados da sua subjectividade, os culturalmente deserdados, são os legítimos herdeiros da cultura”. A tristeza de que fala o poema se assemelha a esse quadro de “corações necessitados”, “juventude corrompida pelo fascismo” e “culturalmente deserdados” produzidos em escala industrial. É contra esse estado triste (regressivo, estandardizado, de egos fracos e manipulados), hegemônico hoje, que o poema — água-forte de palavras — se ergue. Porque um poema não precisa, como os Estados Unidos se querem o dono do mundo, versejar liricamente em torno do próprio umbigo. Há sul, norte e centro, e há anagramas, em todo poema, em toda gravura, em todo corpo sutil.

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