Dom Casmurro

dezembro 2013 / Dom Casmurro / Adriana Lisboa

Texto publicado na edição #164

Adriana Lisboa

Poemas inéditos da autora de “Azul-corvo”

> Por ADRIANA LISBOA

Ilustrações: Dê Almeida

Ilustrações: Dê Almeida

 

Lugar

A ermida corpo, sim, caiada
e rústica. Mas também a ferida aberta
da mente, esta nação sem chefe,
este lugar que habito (me habita?)
sem habite-se ou alvará.
Que não me habilita, ademais, ao corpo —
que não se casa a ele nem
nele se cala. Este descampado (ermo
sem fundo) onde não há ermida ou
alpendre: tudo é deserto
e as vozes dos deuses
se confundem nas sarças.

 

•••

Cachorro deitado na neve

Diz ali que foi eleito
o quadro preferido dos visitantes do museu.
A cidade é Frankfurt, o artista
é Franz Marc e o dia
é uma coleção de horas a
transpor, a passar a perder
de vista. As calçadas também sentem
frio, acho, e todos os passantes
devem ter os pés doloridos.
Mas o que será que guarda
em seu coração de tela
o cachorro, esse cachorro alourado
ressonando expressionista sobre a neve,
será que ele dorme em alemão?
Será que ele suspeita como percute
este coração humano
que passa diante dele, igualmente
manso, aguardando o degelo,
o pulo, o verão?

 

Ilustração: Dê Almeida

 

Nesta festa com hora para acabar
para Adriana Lunardi 

Tapamos os ouvidos quando começa
o extravagante baticum,
mas nos escutamos com clareza
através de uma mesa de bar ou café,
nubladas como este Rio de Janeiro
à sombra dos guarda-chuvas.
Temos fracassado em muita coisa,
e buscado amparo não tanto
na esperança quanto na curiosidade:
abrir a fresta da cortina
para uma alvorada estrangeira,
abrir a boca apesar do bafo
desse medo indigesto,
exercitar a inadequação, sabendo-nos
ridículas como missas em latim.
Quando acabar a festa, seguiremos a pé
para casa, brincando de percutir
o mundo roto com os nossos sapatos
ainda mais. Terá sido como a canção
que sua mãe queria (a minha também):
E bandos de nuvens que passam ligeiras
— pra onde elas vão, ah, eu não sei,
não sei.

 

Ilustração: Dê Almeida

Ilustração: Dê Almeida

 

Os anjos

Onde estão os anjos bonitos,
os anjos de Wim Wenders,
com asas e sobretudos? E se
eles estiverem olhando agora,
não apenas para mim — e para
este pensamento de mãos
trêmulas: a você perdôo tudo
mas também para o homem prestes
a ser decapitado e para o homem
prestes a decapitá-lo e para
a mulher com o rosto corroído
pelo ácido e o irmão que jogou
ácido em seu rosto: anjos
de Wim Wenders, por favor
digam onde, onde
essa beleza em câmara lenta
que tanto os comoveu, o mundo no reflexo
dos pára-brisas, o mundo tal como visto
em branco e preto
do céu sobre Berlim?

 

•••

Fresta

Pense na poesia
como o dedo cavando a fresta onde
há ainda uma pequena chance,
algo semelhante à colher numa cela
de presídio investindo contra
o chão de barro: um túnel,
a vaga idéia de liberdade.

 

Ilustração: Dê Almeida

Jerusalém

Já bastava o duplo clichê quando
desembarcaram no campo de batalha:
o para sempre do prelúdio,
o não era bem isso do posfácio.
Mas ainda mais ingênuo foi ter suposto que
a substância do amor, se ele por acaso
acaba (sim, ele por acaso acaba),
não oxida: apenas evapora no ar
como um anjo morto por assepsia.
Que ela não azeda,
não estraga nem fede nem mofa,
não se arrasta nesse purgatório de
partilha, promissórias, honorários,
até que a morte definitiva os repare
(ou o tempo ou o cansaço)
e assim destacados, desenredados
duas vezes da substância do
— como é mesmo o nome?
(eles dividiram as suas vestes e as sortearam)
possam seguir
como os estranhos que são,
Jerusalém enfim libertada.

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