Ensaios e Resenhas

março 2012 / Ensaios e Resenhas / Adeus aos telhados

Texto publicado na edição #105

Adeus aos telhados

As novas gerações são insuficientemente instruídas sobre a história e não se surpreendem com as realidades de hoje, por não […]

> Por NELSON SALDANHA

As novas gerações são insuficientemente instruídas sobre a história e não se surpreendem com as realidades de hoje, por não saberem como eram as coisas antes. Coisas como os quantitativos demográficos, a presença da técnica, os hábitos de convivência. Também não sabem como eram as ruas e os bairros de sua cidade há trinta ou quarenta anos: não alcançaram a visão dos telhados. Sua visão urbana é a dos apartamentos e dos escritórios alojados em altos edifícios.

Até uns tantos decênios a imagem de uma cidade era sobretudo a de um conjunto de telhados. O que se via, ao contemplar o conjunto desde uma elevação, eram filas de telhados, discretos e coniventes, acompanhados de árvores e de praças que retinham uma peculiar dignidade. A visão de uma cidade tinha sua unidade e sua identidade, como na fascinante “Vista de Delft” de Vermeer, em que os reflexos na água confirmam e valorizam a fisionomia do todo. Ou como em Florença, ou em Bolonha, com os telhados agrupados em quarteirões e um grave toque de sépia em vários trechos.

A imagem da cidade seiscentista era a de um grande grupo de perfis e de cores, estas, como aqueles, unificados pelo estilo ou pelo longo trato histórico. Assim também no século 18. No 19 (vão aqui evidentes simplificações), ainda os telhados, entre os quais começavam a aparecer chaminés industriais. Nos chamados logradouros públicos, homens de casaco preto.

A vaga estranheza com a qual os jovens de hoje vêem as figuras do passado corresponde ao fato de terem o espírito preso aos artefatos “modernos”: surpreendem-se ao pensar em épocas em que não havia tevê, em que poucos possuíam telefone, em que mesmo pessoas de classe média alta não tinham automóvel. Pertencem a um tempo em que as máquinas fazem (e desfazem) tudo. Antes o pulsar da vida, nas ruas e nas casas, provinha mais diretamente da presença dos seres humanos; hoje a experiência do viver está presa aos motores e às buzinas.

O furor imobiliário abate aos poucos as antigas casas e, com elas, o conceito de morar, que é o conceito da relação entre o homem e o chão entre as portas e o telhado. Entronizou-se o prédio de apartamento, sucedâneo longínquo das precárias insulae de Roma. Sabe-se que a cidade vem colocando os homens em apartamentos (Ortega observou, ainda em 1930, a diminuição da espessura das paredes), nos quais se acumulam não apenas as pessoas mas também os automóveis, as mobílias, bem como as máquinas para subir a água e os habitantes. Entre finais do século 19 e inícios do 20, tempo da belle époque e do impressionismo, alteraram-se vestimentas e ideologias; ocorreu a Primeira Guerra; começou o reinado do automóvel (Hermann Hesse o chamaria, em O lobo da estepe, de “objeto-rei”). Começava também o reinado da fotografia.

O estranhamento das pessoas de hoje diante de toda a referência ao viver passado, isto é, às imagens e expressões de quase todo o passado, inclusive o não tão passado e até algo recente, corresponde a um crescente e perigoso distanciamento dos homens em relação ao que já não tem vigência. Para aquelas pessoas, parece que o “mundo” sempre foi assim, que o viver social nunca foi diferente, que o aspecto e o sentido das coisas atuais não teve origem nem antecedentes. Ou então, que essas coisas eram, no passado, bizarras e irracionais, como parecem os valores e os costumes de duzentos anos atrás, ou de cem, ou de trinta. Vive-se, então, em um universo sem história; vive-se um atualismo gratuito, convive-se com o virtual e com o momentâneo.

As frases clássicas sobre o homem, que se encontram nos clássicos (os gregos e romanos), tinham por trás de si uma série de notícias, precárias mas expressivas, de povos outros e de épocas pretéritas, épocas e povos que se apresentavam com reis e palácios, espadas e cavalos, e que pareciam ser diferentes, até certo ponto, mas em alguma medida análogas aos dos próprios clássicos. Com isto relacionava-se a figura mesma do homem, idêntico e diverso, o mesmo contudo.

No século 20 tivemos ao mesmo tempo grandes acréscimos no conhecimento do homem, e entretanto um posicionamento ambíguo, por parte do Ocidente, em relação ao passado e à pluralidade de povos: coisa que sempre existiu de alguma forma, mas agora é agravada pelo incremento das técnicas de comunicação. Até o século 14, ou 15, as armas dos europeus eram as mesmas dos antigos persas, ou dos gregos, o que aliás permitiu que o “mundo clássico” não parecesse tão estranho para um estudioso do século 15 — Petrarca, por exemplo. Do mesmo modo que as armas, as casas, as colunas, os navios. As diferenças começam aí pelo século 16 ou 17: surgiram por exemplo as armas de fogo, os canhões que as gerações anteriores não conheceram. Nos séculos 19 e 20, vieram os motores e com eles novos meios de transporte; mudanças maiores nas comunicações e na educação. Mudanças desconcertantes vieram no século 20.

O homem se reconhece, então, cada vez menos. Com isso, o conhecimento da história, no sentido didático, se fez mais constante, porém mais difícil. No século 16 ou 17, grandes pintores figuravam personagens bíblicos em trajes de seu próprio tempo; no 19 isso já não ocorre, mas a pintura se afasta dos temas mais antigos. À medida que os homens ignoram a vida de seus antepassados, e não reconhecem as figuras e as realidades da existência deles, tendem a cair no vazio os questionamentos da antropologia filosófica, as alusões ao “homem” e o apelo das frases dos clássicos. O homem de hoje é isto só, um ser de hoje: será ou não o de amanhã, e não é propriamente o do passado. Um tropel de problemas, de debates e de alterações dificulta toda linha de continuidade. Colaboram para isso, entre outras coisas, a tevê, a ficção científica e o cinema de “efeitos especiais”.

Na Indonésia, dois edifícios enormes são duas supertorres que nada têm a ver com o passado étnico do país. Os Estados Unidos começaram a corrida pelas edificações desse tipo, desde o Empire State, que há décadas espantava os espíritos provincianos; mas, hoje, o prestígio dos prédios muito altos, inclusive os residenciais, ocorre em várias partes, entre elas as regiões subdesenvolvidas. Nestas, a onda de aumentos demográficos obriga as cidades a adotarem o padrão “moderno”, e nisto entra também o surto da violência (no Brasil, por exemplo) e, portanto, grave fator, a insegurança. Falei nisso acima; o surto imobiliário, que é uma onda tão forte quanto a que desmata e desertifica regiões inteiras, torna obsoletos os velhos telhados. Torna obsoletos também os antigos quintais domésticos, coisa de que as novas gerações quase nada sabem, criadas que foram, já, na dimensão específica dos apartamentos, com seus insuficientes playgrounds e suas áreas para festas.

Olhava-se de cima e viam-se os telhados. Hoje, o “de cima” está nos prédios mais altos, e é deles que se pode olhar, mas para ver outros prédios. Os telhados, com as respectivas casas, desaparecem, ou rareiam, ocultos e diminuídos, à espera da demolição.

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