Vidraça

fevereiro 2019 / Vidraça / Adeus, Amós

Texto publicado na edição #226

Adeus, Amós

Notas sobre literatura e mercado editorial

> Por Jonatan Silva | Coluna

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O israelense Amós Oz morreu no final de dezembro, aos 79 anos, vítima de câncer. Com mais de quatro décadas de carreira e 35 livros publicados, Oz é um dos nomes mais importante da literatura mundial, além de ter papel fundamental no ativismo pela paz entre judeus e palestinos. Seu livro mais conhecido é o romance autobiográfico De amor e trevas, publicado em 2002 e que narra o trágico destino da mãe do escritor, ainda menino, e da busca por uma identidade própria.

Futuro nenhum
Os mineiros Adriane Garcia e Sérgio Fantini organizaram a coletânea Contos para futuro nenhum. Além da dupla, outros 12 nomes participam do livro, que está disponível em inglês, espanhol, italiano e, claro, português. O ponto de partida é a eleição de Jair Bolsonaro. “A ignorância demonstrada sobre a história, a política, a cultura e todas as pautas humanistas passou a ser ostentada como uma bandeira; o culto a elementos há muito dados como danosos à sociabilidade, como a homofobia, o racismo, a xenofobia, o machismo e a misoginia passou a pautar as atitudes das pessoas”, afirmam os organizadores.

Mal cotidiano
A Zahar publicou em janeiro Mal líquido, de Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis. Continuação de Cegueira moral, o livro debate a banalização do mal e a construção das desigualdades por meio de ações rotineiras e comuns. “Se antes o mal era personificado por Estados totalitários e brutais ou pela perda de sensibilidade em relação ao outro, agora ele se esconde nas teias produzidas diariamente pelo modo líquido moderno de comércio e interação”, explica a apresentação da obra. Bauman e Donski fazem uma interessante relação com a literatura de importantes nomes, como Kafka, Orwell e Huxley. 

Adeus, Lamadrid
Morreu em janeiro o editor espanhol Claudio López Lamadrid, responsável pelos selos Literatura Random House, Caballo de Troya e Reservoir Books, da Penguin Random House. Lamadrid, que chegou ao mercado editorial na década de 1970, trabalhou em importantes casas editoriais do seu país como a Tusquets, fundou dez anos mais tarde a Galáxia Gutemberg. Lamadrid foi responsável por difundir na Espanha autores como David Foster Wallace, Cesar Aira, Philip Roth e Amós Oz. O editor tinha 59 anos e sofreu um infarto  

Absurdo
Lucky Jim, livro mais conhecido de Kingsley Amis, ganhou no começo de 2019 sua primeira edição brasileira. Publicado pela Todavia, o livro é uma narrativa absurda sobre as desventuras de Jim Dixon, professor universitário que tenta — a todo custo — manter a ordem no caos do seu dia a dia. Tudo isso enquanto busca conquistar uma colega de trabalho que ainda se recupera de uma tentativa de suicídio. O romance traz como posfácio um ensaio de Christopher Hitchens, um entusiasta da obra de Kingsley, filho do renomado Martin Amis. 

Retorno digital
O mineiro Francisco de Morais Mendes prepara edições em ebook de sua obra, incluindo Escreva, querida, publicado em 1996 e que venceu os prêmios Guimarães Rosa, do governo do Minas, e Cidade de Belo Horizonte. Serão lançados também, no formato digital, A razão selvagem e Onde terminam os dias, além de uma coletânea de narrativas curtas. Leia nesta edição do Rascunho (págs. 28 e 29) o conto inédito Autópsia. 

Despejo
A situação da Saraiva, que acumula uma dívida de quase R$ 700 milhões e entrou com pedido de recuperação judicial no ano passado, parece não melhorar tão cedo. Depois de fechar inúmeras lojas, as últimas sendo as duas de Curitiba, a livraria pode ser forçada a encerrar as atividades de outras 33 — de um total de 85 —, que estão com pedido de despejo.

Breves

• Neste mês chega às livrarias Livre para voar: A jornada de um pai e a luta pela igualdade, o relato de Ziauddin Yousafzai, pai de Malala Yousafzai, sobre sua história e sua longa batalha para que meninos e meninas tenham as mesmas oportunidades.

• A adaptação cinematográfica de Caixa de pássaros, de Josh Malerman, deu novo fôlego às vendas do livro. Estrelado por Sandra Bulloch e transmitido pela Netflix, o filme ajudou a vender quase 6 mil cópias do livro após o lançamento, em fins de dezembro.

• O escritor Márwio Câmara (colaborador do Rascunho) começou 2019 com um novo projeto literário: o canal do YouTube (Entre)Vistas. Entre os primeiros entrevistados estão os poetas Thiago Camelo e Paulo Henriques Britto.

• O suíço Joël Dicker, conhecido por aqui por A verdade sobre o caso Harry Quebert, acaba de lançar O desaparecimento de Stephanie Mailer (Intrínseca). O romance trata do assassinato brutal do prefeito de Hamptons e sua família, e também de outra moradora local.

• Vendas de livros impressos nos Estados Unidos cresceram 1,3% em 2018 em comparação com o ano anterior. No total, foram vendidos 695 milhões de exemplares, de acordo com o Nielsen.

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