Quase-diário

outubro 2011 / Quase-diário / Adélia ontem e hoje

Texto publicado na edição #129

Adélia ontem e hoje

05.03.1985 Do Persona — programa da TV Manchete — no qual Roberto D’Ávila entrevista personalidades, me chamam para ajudar a […]

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

Adélia Prado e Affonso Romano de Sant'Anna

05.03.1985
Do Persona — programa da TV Manchete — no qual Roberto D’Ávila entrevista personalidades, me chamam para ajudar a entrevistar Adélia Prado. Releio suas cartas antes do programa. Hoje já está traduzida lá fora. Mas é bom saber que ela sempre lembra que ajudei a descobri-la. O clima da entrevista foi ótimo. Fraterno. De certo amor. Depois do programa, entre várias pessoas, Fernanda Montenegro me telefona querendo fazer um espetáculo com poesias de Adélia e me pede para fazer o contato.

25.10.2010
Nós (Marina e eu) ali na Travessa/Leblon ouvindo Adélia Prado no lançamento de seu livro mais recente — A duração do dia. Penso em outras “durações”. Recebi seus manuscritos nos anos 70. Passaram-se uns 35 anos, eu era crítico da Veja e resenhei seu primeiro livro.

Agora, eu ali, auditório cheio, atento. Chegamos atrasados, ficamos em pé, olhando, curtindo. Me lembrando que quando ela veio lançar o primeiro livro no Rio (Bagagem), numa recepção na casa de Rubem Braga, embora fosse ela a homenageada, pedia autógrafo de algumas figuras mitológicas presentes. O que é a vida: outro dia, em Paraty, na Flip, era ela que enfrentava durante umas cinco horas a multidão querendo seu autógrafo.

Bonita, essa Adélia. Aquele cabelo branco é um charme só. Está centrada na sua humanidade: o humano é o tema que aborda ao falar durante a entrevista, e é isso que irradia dos seus textos.

Cássia Kiss e Ramon Mello lêem alguns poemas dela.

Me lembro: estivemos juntos em Cuba, nos anos 80, naquela histórica viagem dos intelectuais latino-americanos, que registrei em crônicas. Devo ter em algum lugar uma foto com ela na Biblioteca Nacional.

Me lembro de uma história lá pelos anos 80: Ziraldo, em Belo Horizonte, pedindo ao Araken Távora, do Projeto Encontro Marcado, para levá-lo a Divinópolis pois queria conhecer Adélia Prado.

Araken me contava: “Imagine, o Menino Maluquinho querendo conhecer Dona Doida!”.

02.12.2010
Ontem na Faculdade Pitágoras, em Divinópolis, ocorreu algo raro e lindo. Adélia Prado, com quem, ainda na estrada entre BH e Divinópolis, tinha falado por celular de manhã, apareceu na minha conferência. Chegou atrasada porque estava recebendo uma medalha da prefeitura de Divinópolis. E aí se sentou lá atrás. Eu interrompi minha fala, saudei sua entrada, todos a aplaudiram, ela continuou lá no fundo.

A palestra ia animada, pessoas interagindo, perguntando, quando ela não resistiu e resolveu fazer intervenções. Aí foi lindo, porque virou um concerto a duas vozes e o púbico, que já estava ligadíssimo, entrou em júbilo total.

O Armando Strozemberg da Casa do Saber/ Rio quer que eu a convide para um “diálogo” entre nós, que seria a abertura do ano letivo naquela instituição em fevereiro de 2011. De algum modo houve uma pré-estréia disso em Divinópolis.

Depois saímos com amigos do Projeto Grandes Escritores para um restaurante português, que ela indicou. Estava vazio, nos botaram lá em cima, sozinhos. Adélia recomendou um “bacalhau ao Zé do Pipo”. A noite foi descontraída. E ela estava comunicativa, falante.

Ela disse de novo que acredita na ressurreição da carne. Perguntei-lhe como, com que corpo? Velho? Antigo? Ela acha que é com esse mesmo, mas bonito. Acredita mesmo. Depois conversa geral sobre casamento, amor. Ela dizendo que casada há mais de 50 anos, casamento é isso, exige que você seja menos egoísta , que tenha que abrir mão de coisas.

Dia seguinte passamos por sua casa onde o Zé, seu marido, nos espera no portão. Entramos. Tudo informal, mineiro, caseiro. Na parede fotos de família. Uma foto preciosa: o casamento de Adélia, ela com vinte e poucos anos, bonita, com o Zé — um partidão (era funcionário do Banco do Brasil), o casal saindo de uma igreja no meio de um terreno, uma porção de gente em torno, com aquelas roupas dos anos 50/60. E os dois andando na frente, felizes. Tipo boda campestre nos trópicos.

Conversamos sobre assuntos vários: família, filhos. Ela confirmou que está estudando física quântica com o Zé. Pensei em lhe enviar uma entrevista que dei à Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) sobre “Poesia e ciência”. Pergunto pelas aulas de física quântica dada por um professor particular. Zé me revela, na saída, que o professor é que paga para dar aula, ou seja, vai lá porque gosta do assunto, a aula não tem hora para acabar e outras pessoas participam.

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