Vidraça

novembro 2018 / Vidraça / Acordo da discórdia

Texto publicado na edição #223

Acordo da discórdia

Notas sobre literatura e mercado editorial.

> Por Jonatan Silva | Coluna

A Academia Angolana de Letras (AAL) pediu ao governo de Angola que não ratifique o Acordo Ortográfico de 1990. Filipe Zau, o imortal e reitor da Universidade Independente de Angola, é porta-voz da decisão. Segundo o professor, o acordo contém “vários constrangimentos identificados”, “um número elevado de exceções à regra” e que “não concorre para a unificação da grafia do idioma, não facilita a alfabetização e nem converge para a sua promoção e difusão”. Boaventura Cardoso, presidente da AAL, afirmou que os grandes problemas no documento de 1990 encontram-se na ausência de sons pré-nasais duplos plurais e “de respeito pelos radicais das palavras que emigram das línguas nacionais para o português”. “Impõe-se, pois, rever esta situação e, no nosso caso particular, rever a questão da escrita da toponímia angolana, reassumindo os k, y e w na grafia da língua portuguesa”, comentou.

Quase inédita
A argentina Sylvia Molloy inaugura a coleção Nosotros da editora mineira Relicário, que irá se debruçar sobre a produção de não-ficção de autoras latino-americanas. Viver em línguas — que será lançado no dia 12 deste mês, com a presença da escritora no Instituto Cervantes de São Paulo (Av. Paulista, 2439) — é um conjunto de ensaios sobre importantes nomes da literatura mundial. Para Molloy, autora quase inédita por aqui — não fosse o romance Em breve cárcere, esgotado há anos, e um ensaio publicado em 2011 na revista Serrote —, “sempre somos bilíngues a partir de uma língua: aquela onde nos hospedamos primeiro, aquela em que nos reconhecemos.” A tradução da obra é de Mariana Sanchez e Julia Tomasini.

Papéis de Gabo
Morto em 2014, Gabriel García Márquez deixou um conjunto de quatro textos inéditos encontrados em uma caixa que fora doada à Biblioteca Luis Ángel Arango, em Bogotá, pela viúva do escritor colombiano. Os textos, escritos entre 1948 e 1952, são os primeiros a aparecer após a morte de Gabo, que estava recluso havia algum tempo. Os contos estão reunidos no volume Papeles de Gabo, ainda sem previsão de lançamento no Brasil, e podem ser vistos em uma exposição na biblioteca colombiana.

Sabino
Publicado originalmente em 1956 e com mais de 500 mil exemplares vendidos — uma marca e tanto para um livro brasileiro em um mercado cada vez mais sufocado pela literatura estrangeira —, O encontro marcado, de Fernando Sabino, chega à sua 100º edição, enviada pela Record às livrarias no último dia 12, data em que o autor completaria 95 anos. Para Silvano Santiago, crítico literário e escritor, Sabino foi o precursor daquilo que seria chamado anos mais tarde de literatura “young adults”, além de ser um dos primeiros exemplos brasileiros de autoficção urbana.

Em bom estado
São Cuteberto foi um importante santo medieval, cujo corpo foi encontrado intacto uma década após sua morte, ocorrida em 687, no noroeste da Inglaterra. Diante do milagre, muitas oferendas foram concedidas ao santo, entre elas um livro — que é considerado o mais antigo da Europa em “bom estado”. Conhecido como O Evangelho de São Cuteberto, o livrinho vermelho foi descoberto na tumba durante a remoção de seus restos mortais em 1104 e acabou adquirido pela British Library em 2012. Quem quiser ver de perto a relíquia, pode viajar até a Terra da Rainha e visitar a exposição aberta em 19 de outubro.

Prêmios Manaus
A sétima edição dos Prêmios Literários Cidade de Manaus definiu os vencedores em diversas categorias. Entre os vencedores estão o romance Guida ou um bloco de gelo, de Gislaine Buosi Fechus Monteiro; a coletânea de contos Histórias no fim do mundo, de Cyro Pereira de Mattos; e Poesia sem ponto, de Carlos Eduardo Canhameiro. Leandro Rodrigues Mazzini venceu na categoria crônica com Sobre cães e homens. Ao todo são 13 categorias.

Breves
• A Editora 34 publica Humilhados e ofendidos, um dos livros mais ambiciosos de Dostoievski, escrito após dez anos de exílio na Sibéria. Incompreendida em sua época, a obra é considerada um caso prematuro de autoficção.

O Sol na cabeça, livro de estreia de Geovani Martins, será transformado em filme. A previsão é que seja gravado em 2019 e a direção ficará a cargo de Karim Aïnouz.

• A autora espírita Zíbia Gasparetto morreu no dia 10 de outubro, aos 92 anos. A escritora tinha 70 anos de carreira e mais de 18 milhões de livros vendidos.

Bichos da noite é a estreia da poeta Mariana Ianelli na literatura infantil, cuja temática trata dos medos que as crianças têm do escuro.

• Veronica Stigger participa em 7 de novembro, às 19h, da Festa Literária do Colégio Medianeira. A autora é a convidada especial da festa, que inicia no dia 5.

• A DarkSide lança o segundo volume da coletânea Edgar Allan Poe: medo clássico, que traz uma série de poemas, contos e devaneios do escritor sobre solidão, morte e desespero.

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