Dom Casmurro

novembro 2017 / Dom Casmurro / Acontecimento em alto-mar

Texto publicado na edição #211

Acontecimento em alto-mar

Conto inédito de Marcílio França Castro

> Por Marcílio França Castro

Ilustração: Fabiano Vianna

Ilustração: Fabiano Vianna

Então as criaturas que andavam pelas águas médias e profundas começaram a ascender e espalhar-se, e provinham de todo canto e latitude, e eram das mais variadas espécies,  raras ou comuns, em cardumes ou solitárias, e vieram os cachalotes e os golfinhos, as baleias-brancas e as azuis, vieram os ouriços, as medusas, as moreias, vieram as raias e seu algoz, o tubarão-martelo, e também o tubarão-azul e o tubarão cego do Ártico, pela primeira vez longe do escuro, e vieram as anêmonas, que tiraram os pés do chão, as sardinhas, as lagostas, vieram as tartarugas-de-pente e as cabeçudas, os peixes-lanterna e os peixes-dragão, vieram os bichos com tentáculos, os bichos com antenas, os ásperos, os duros e os triangulares, as ostras, grávidas ou não, e os habitantes das fossas, carregados de eletricidade, vieram os peixes de bigode, os que comem a cauda de outros peixes, os que creem ser planta ou caverna, e os que se agarram à língua de outros peixes, vieram os cavalos-marinhos e os peixes-donzela, que já estavam por ali, e até mesmo as conchas soterradas e os animais com raiz vieram, revolvendo areia e plâncton, e no alto, tocando a lâmina d’água, começaram todos a esbarrar-se e a empurrar-se, espremendo-se, infectando-se, borrifando uns contra os outros seus venenos ancestrais, numa algazarra de ondas e guinchos, submetidos à vizinhança do ar, e amavam-se erradamente, ofendendo-se, misturando espumas e ácidos, alguns assustados com o vulto dos pássaros e os barcos perdidos, ou prendendo-se entre os sargaços, e não encontravam na linha do oceano nenhuma gruta ou abrigo onde se pudesse recolher em segredo, e os que antes viviam do próprio esquecimento descobriram o que era o esquecimento, e assim foram perdendo o instinto da caça e do sexo, não distinguiam entre a presa e a pedra, o couro e as escamas, a hora de dormir e a de morrer, não experimentavam mais a fome nem o medo, nem a memória da fuga, pois em todas as direções o que se deparava era apenas a superfície — o estorvo da luz.

 

 

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