Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Acho justo que essa sociedade tenha a arte que merece

Texto publicado na edição #112

Acho justo que essa sociedade tenha a arte que merece

Escrever é uma chatice. Chico Buarque, em sua primeira fala pública sobre Leite derramado O título garrafal aí em cima […]

> Por FERNANDO MONTEIRO

Ilustração: Marco Jacobsen

Escrever é uma chatice.
Chico Buarque, em sua primeira fala pública sobre Leite derramado

O título garrafal aí em cima não é da nossa lavra, mas eu creio que cabe bastante bem. Trata-se da opinião de João Adolfo Hansen, citada por Fabio Riggi no texto Virna Teixeira como sintoma da produção literária atual, publicado na revista virtual Sibila, de Régis Bonvicino: www.sibila.com.br.

Sibila é uma das tantas publicações da web que, atualmente, deixam patente uma coisa muito curiosa: a discussão sobre poesia se mostra viva e pertinente, neste momento, “neste país” (malgré a Lulesca indiferença das “grandes” editoras brasileiras para com obras em versos), enquanto a discussão sobre uma ficção indefinida, frouxa e atraída para o fácil, resultou em mergulharmos na fase talvez mais idiota do debate da nossa literatura, servindo como exemplo até algumas cositas publicadas aqui mesmo neste jornal que o irrequieto editor um dia já quis — e, acho, segue querendo — mais ou menos no formato “pode-vir-quente-que-eu-estou-fervendo”.

Bem, decididamente nós NÃO estamos fervendo, nesta hora morna acima de tudo na prosa de Pindorama. Na verdade, parecemos glacialmente longe de qualquer “fervura” interessante no romance, no conto (e Sibila voltou ao tema recentemente: A acanhada produção literária brasileira contemporânea), etc., de maneira que eu fui navegaire por mares nunca dantes navegados pelo menos por este locutor-que-vos-fala, buscando vida crítica inteligente em torno do setor, digamos, amansado por obra e graça em parte de editoras voltadas, nos últimos anos, quase exclusivamente para aquilo que passou, cá, a se entender como sucesso.

A palavra de toque é exatamente essa, na muito citada “sociedade do espetáculo”. Mais do que nunca pautada pela busca do sucesso — agora, a qualquer preço —, essa sociedade fez erigir a oitava maravilha, a pirâmide truncada da fama (?) como vago ápice do milagre midiático que está no lugar da antiga relação mágico-religiosa do mundo regido pelo Eu em harmonia com a idade do Mito.

Passada — há muito tempo — a remota antiguidade disso, vivemos no Ocidente hegemônico que cultua o Eu dividido, montanha de individualismo exacerbado que pariu o rato do “sub-eu” mitômano em consonância com os desregramentos da Era dos minutos de celebridade: quinze, dez, cinco (estão diminuindo, desde a feia múmia viva da pobre Susan Boyle) banhados em falso ouro de 14 quilates do sarcófago nos palcos-mausoléu no centro do “mal-estar na cultura”.

Enquanto dura, o amor desses minitempos de [falta] de cólera santa, mais e mais praticamos a adoração doentia daquilo que o “eu” faça vender mais, conseguindo que seja rapidamente consumido de modo a ser substituído, em seguida, pelos imediatos “sucessos” enfileirados pela mão e a luva: o artista e a indústria cultural, estranhamente apertados num pacto pop que só pode acabar mal.

A literatura caiu nessas unhas, e, sei não, há algo de sinistro no ar. A fantasmagoria cínico-oscarizada do show-funeral do infeliz Michael Jackson, cujo nome durará menos do que já voga, há séculos, a vaga memória do rei Mausolo — deveria nos alertar para qualquer coisa de irreparável atrás dos minutos de hoje, sugados pelo ralo da fossa que estamos chamando de arte.

Direto para o lixo
Voltando à literária, e ao microcosmo das editoras tupiniquins: quantos originais de qualidade nunca são abertos nos escritórios das “grandes”, para depois serem devidamente recolhidos pelo caminhão do lixo, na companhia das letras mortas dos cestos de papéis do “Departamento de marketing” das novíssimas fronteiras da pop-literatura objetiva ou não?

Boa pergunta, porém não demonizemos demasiadamente os nossos publishers. Isso faria incorrer na injustiça de livrar a cara dos outros caras, na repartição de culpas pelo que está acontecendo nesse mercado especificamente. Se ninguém pode esquecer que casas editoras têm o poder de amansar todas as sombras sob o telhado das letras, ainda é preciso que existam, entretanto, Lufts, Plufts & outros fantasminhas camaradas, dispostos a serem os mustangs de vendagem narcotizante da vez, todos sentados nos seus lugares nas salas de espera da “indústria que recupera tudo” (G. Deleuze).

Ora, uma das causas possíveis da surpreendente boa saúde da discussão poética — leia-se: na internet, basicamente — seria conseqüência, por certo, do “razonamiento” editorial ora em vigência. Ou seja, eles deixaram a poesia em paz (viva!), e pelo menos ela ficou afastada do foco da “área de investimentos”, exceto na lírica ainda editável, ou, melhor, naquela poesia midiática no pior sentido da palavra esmaltada dos que pintam unhas para colorir versos de (vendável) pé quebrado.

Tentando não meter os meus pés pelas mãos de cartas marcadas das estrofes alheias, regressemos à web da saúde poética inesperada, entre tantos tiros no próprio sapato editorialmente apertado.

Além da Sibila, logrei surpreender bons debates em outros sites e blogs, e cito, em especial, o Ars Poética (http://ericonogueira.blogspot.com/), de Érico Nogueira, “poeta, editor [Dicta & Contradicta] e professor de línguas e literaturas clássicas”, conforme o perfil do próprio —, passando a expor o essencial de um “post” do Nogueira (QUE EU NÃO CONHEÇO, é bom avisar, uma vez que, aqui in Brazil — como diria Mangabeira Unger — tudo se toma como compadrio, no meio das comadres literárias) que foi, justo, o comentário a desencadear as discussões mais interessantes, recentemente, em Ars Poética de Érico:

É comum ouvir dizer “A poesia brasileira está em baixa”, “A poesia, no Brasil, atingiu o seu auge no início dos anos cinqüenta”, e outras declarações semelhantes. Com efeito, a década de quarenta assistira à publicação de nada mais nada menos que O sentimento do mundo (1940), José (1942), A rosa do povo (1945) e Novos poemas (1948), de Carlos Drummond de Andrade; Mar absoluto (1945) e Retrato natural (1949), de Cecília Meireles; Anunciação e encontro de Mira-Céli (1943), Poemas negros (1947) e Livro de sonetos (1949), de Jorge de Lima; As metamorfoses (1944), Mundo enigma (1945) e Poesia liberdade (1947), de Murilo Mendes; Pedra do sono (1942), O engenheiro (1945) e Psicologia da composição (1947), de João Cabral de Melo Neto; além de duas edições das Poesias completas (1940 e 1948) de Manuel Bandeira. É natural, portanto, diante de uma evidência como esta, concluir que a última década do século 20 e a primeira do 21 não passam de um período de decadência, aqui no Brasil, em matéria de poesia. Uma consideração mais atenta, porém, das publicações das duas últimas décadas pode, se não contradizer, ao menos fazer repensar os parâmetros desta conclusão, cujo caráter automático e quase intocável parece flertar com o dos clichês e lugares-comuns. Dada a variedade e o grande número de poetas, bons e ruins, hoje em atividade no Brasil, escolhi apenas uns poucos — dos quais não vou sequer citar todos os livros que publicaram, mas tão-só os que li e gostei. Qualquer omissão, portanto, ou “injustiça”, é resultado direto da minha escolha e do meu temperamento (…) Nelson Ascher publicou três livros cuja nota é a maestria formal: Sonho da razão (1993), Algo de sol (1996) e Parte alguma (2005) — além do excelente volume de traduções Poesia alheia (1998). Neles, o prosaísmo do quotidiano se mescla com leituras eruditas, que vão dos clássicos latinos à poesia alemã e húngara, resultando numa síntese muito pessoal e altamente sofisticada, que nada fica a dever ao rigor formal de João Cabral de Melo Neto, por exemplo, para citar o aspecto mais notório da poesia do pernambucano. Ascher faz uma poesia aguda e às vezes ácida, na linha epigramática de um Catulo, ou um Marcial. É, numa palavra, um poeta excelente, que acrescenta bastante à nossa tradição. Affonso Romano de Sant’Anna publicou dois livros irmãos, que me parecem os melhores da sua lavra poética até agora: Textamentos (1999) e Vestígios (2005). Na esteira da melhor tradição brasileira — na de Bandeira, sobretudo — esses livros são uma resposta afirmativa à pergunta “É possível transformar a experiência individual em poesia?”. Permanece neles certo tom de “denúncia”, digamos, que caracteriza os outros livros do autor (…) Alexei Bueno é um péssimo editor. Sua edição da Poesia completa de Jorge de Lima, por exemplo, imprime o sexto soneto do Livro de sonetos com treze versos, reproduzindo a falha da edição da José Aguilar de 1974. Ainda assim — e a despeito das indesculpáveis banalidades do seu Uma história da poesia brasileira —, é preciso reconhecer que Lucernário (1993) e A árvore seca (2006) são ótimos livros, especialmente este último. Nele, o autor parece ter renunciado à idealização do poeta e da poesia — característica marcante de sua produção anterior — e aceitado as vicissitudes da condição mortal (…) Quanto a Bruno Tolentino, publicou simplesmente As horas de Katharina (1994), Os deuses de hoje (1995), A balada do cárcere (1996), O mundo como idéia (2002) e A imitação do amanhecer (2006). É o poeta mais prolífico da recente poesia brasileira, e também o melhor. Dono de vasta erudição e um soberbo domínio formal, cada livro seu é um verdadeiro tour de force (…) Enfim, caberia citar ainda Gerardo Mello Mourão e o seu opus magnum Invenção do mar (1998); Alberto da Cunha Melo, Carlos Felipe Moisés e o excelente Noite nula (2008); o Marco Lucchesi de Meridiano celeste & bestiário (2006) e da incrível tradução do poeta persa Rumî (2000); a edição dos Poemas reunidos (2005) de Antonio Brasileiro; e Marco Catalão com Antes de amanhã (2008). Como diz Tácito no Diálogo dos oradores: é por um vício da maldade humana que sempre se louva o velho e que o presente se desdenha.

Vacas sagradas e novilhos
Muito bem. Já dá para ouvir a gritaria esperneada de muita gente, mas, c-a-a-a-l-m-a, eu também não concordo com um ou outro nome — de ontem e de hoje — louvado pelo blogueiro, porém não fiz mais do que transmitir a opinião dele, sem o menos (desonesto) de omitir os poetas que Nogueira resolveu citar, os vates pinçados, pintados, o que queiram, etc., pelo Érico dando nomes aos bois da sua preferência, entre vacas sagradas e novilhos, de coloridos cascos, desmamados recentemente.

Essa citação do seu “post” vale mais pela discussão que a mensagem ensejou — está lá, no Ars Poetica — do que por qualquer outro motivo de escolhas e/ou votos nos melhores vates de todos os tempos da semana passada. Não é isso que importa, para já, porque o que nos parece relevante, nesse blog e noutros (e aqui mesmo, neste “Rasca”, sempre que se trata de poesia), é a bússola orientada no sentido do vero pólo poético, rigorosamente falando (se) em termos da Ars discutida com a sempre boa régua da p-e-r-t-i-n-ê-n-c-i-a.

Essa palavrinha significa algo que eu fiz questão de lembrar, em entrevista que a Bravo!, do bravíssimo Wagner Carelli, nos solicitou, na edição número 10 [julho de 1998]: aquela medida flaubertiana que faltou, na formação da nossa literatura (apesar de Machado), quando urgia largar a canoa modelo José de Alencar (que Ariano Vilar Suassuna ainda hoje acha “mais importante do que Joyce”, nem mais nem menos). De Alencar até a Pedra do Reino — passando pelo hercúleo esforço do próprio Machado, de Dyonélio idem, de Cornélio Penna e de Lúcio Cardoso (para, digamos, nos dotarem daquelas virtualidades psicológicas que, na América, saltaram do regionalismo de um Frank Harris para as profundidades abismais de um Faulkner) — nós estamos caindo, agora, na tardia armadilha de aproximar a narrativa, numa ponta, de um documentarismo mais velho do que o velhíssimo naturalismo à la Zola — e melhor servido pela câmera cinematográfica —, enquanto, noutra ponta, propomos fabulações “imaginativas” de cães sem dono (a medida, onde ficou a medida que nós, realmente, nunca tivemos?), preparados para imitar, emular e copiar a política dos Políticas (Adam Thirlwell, galera) e outros editados internacionais de um Luiz Schwarz ou algum outro “gênio local” do negócio, capaz de pôr a perder romances como o Adeus a uma idéia de Franz Paul Trannin da Matta Heilborn.

[Conheço essa historinha via Carelli, que foi grande amigo de Heilborn; fico de contar quando não estiver tão puto com a sombra de uma sombra debaixo das telhas da chamada prosa vã…]

Pensar duas vezes
Continuando: pode-se ler, à farta, sobre a desmedida da prosa atual nessas “teorias” explicativas expostas por alguns dos novos narradores que precisariam pensar duas vezes antes de deitar fogo fátuo no Paiol de fogo-de-santelmo, ou melhor ainda, antes de palrar, alegremente, por toda parte, em discussões nonsense (talvez da eterna juventude literária?) sobre suas pretensões de autores autistas cheios do vácuo próprio.

Por que não parar para pensar um pouco? Por que não se deter a fim de olhar na direção (anos 60/70) daquela possível medida de uma ficção brasileira pós-moderna deixada num ponto qualquer por um Osman Lins, um João Antonio, um Caio Fernando Abreu?

Longe dos liames do “firme leme” que une o trabalho de três artistas tão diferentes, nós estamos optando por chapéu de couro de dois bicos de rendas enfiado até o pescoço, cingido por coleiras impostas pelos diretores-editoriais, que sabem muito bem o que eles querem dos seus editados: mais $uce$$o, não importa com o quê.

Obviamente, o “resultado artístico” vai sendo desregulado por ponteirinhos de bússolas sem o norte da qualidade, ora apontando para trás, ora para frente (qualquer frente), nos descaminhos mais doidos da narrativa voltada para o já citado realismo servil — por sobre anacrônico — ou para uma decantação do fundo do umbigo da “literatura” tipo de blog

Não consigo escolher (decentemente, pelo menos) o que é menos ruim, nem tampouco continuar com elegância, ó paulistas, baianos, cariocas, paraibanos, mineiros, acreanos, gaúchos, goianos, paranaenses, alagoanos, catarinenses e pernambucanos: que porra é essa, quando começamos a querer discutir, por exemplo, o atual romance brasileiro e suas “premissas” técnico-conteudístico-estéticas?

Nunca vi nada parecido. As entrevistas estão uma loucura, as palestras, nas Bienais, uma maluquice maior do que o mar da Galiléia. Perdi a finesse (já havia perdido a minha vida — também por delicadeza, Rimbaud): “PQP, de que diabo de literatura estão falando, nessa algaravia pra lá da Mongólia de Marrakech?”

Quem sabe, não adiante chorar — ou, pior, choramingar — sobre o leite derramado. Cada sociedade tem, afinal, a literatura que ela merece, e o rebento eterno do engano será, sempre, mais equívoco sobre a suposta excelência de uma ficção que se quer “em bom momento”, quando é a Poesia — a feliz Abandonada — que se mostra em animada fase de depuração (e, talvez por essa razão mesmo: por estar atualmente relegada à oficial indiferença editorial e também das Flips, Flops, Flups e Jabutis & Jabás da Vida Telecômica em promiscuidade nas casas de mãe Joana).

Do outro lado do rio, entre as árvores, nós pelo menos conservamos, saravá!, a lírica de três ou quatro gerações de poetas — de um Jorge Tufic (AC) a um Felipe Fortuna (RJ) — sabendo-se herdeiros da tradição (att. USP: não “modernista”) da alta poesia de língua portuguesa modernamente radicada no projeto de Jorge de Lima e extremamente retomada na poética tanto de Joaquim Cardozo quanto do esquecido Abgar Renault (mais do que na engenharia do engenheiro educado pela pura aspereza da pedra). Não quero abrir polêmicas; pelo contrário, quero fechar as lacunas, as imperfeições — ainda que provisoriamente — na chapa metálica do pattern vicioso que, há anos, tenta nos “obrigar” a pensar em Bandeira, Drummond e Cabral como um trio elétrico acionado pela monotonia acadêmica, um bloco de lisa escultura de Pomodoro, cômodo para teses de doutorado e pós-pós: “estudem os três mestres absolutos, garotos!, longe da poesia secreta do país profundo de Augusto de Anjos”, etc., etc.

Porém, o nosso assunto é menos a controvérsia sobre a medida lírica (deixa pra lá), no firme elogio da poesia, sim, do que a perguntinha muito mais incômoda: “E NA PROSA?”

Ágrafo, à faca
Na prosa, bem, na prosa nós estamos indo de vento em papa, neste momento de polpa de suco industrial congelado. Entramos numa fria: o Brasil do presidente iletrado caminha para ser literariamente ágrafo, à faca. De muitos e variados modos & ma[s]neiras, estamos fazendo desde os “minicontos” de Marcelino Freire (vou citar um conto inteiro de MF, abre aspas: “Tinha idade para ser neta dele. E o pior que era.” Pronto, terminou. Fecha aspas; em tempo, esse conto se chama Conto nanico nº 7” — e pertenceria ao gênero da “twitteratura”, seja lá o que isso for) até o, o… o que mesmo?

Perdi o fio da meada ao abrir “espaço” (?) a fim de citar o conto inteiro, completo, total, do nosso Mar, vocês já o leram (em menos da metade de 24 segundos), e M. é um performático — como Carpinejar é aglutinante de mãe e pai — e seguem capinando no meio do deus nos acuda dos novos escritores que preparam o futuro sem leitura (por que não?), quando tudo for Record e Fofura produzindo, rigorosamente, auto-ajudas da conta bancária lentamente pingada a dez por cento sobre o preço de capa (está nos contratos, gente). É pouco, porém “se você não ajuda a si mesmo, quem vai lhe ajudar?”…

Esse poderá ser o próximo sucesso do país das bienais que cada vez vendem mais, para gente que lê cada vez menos. (É um paradoxo, mas vem funcionando, e eu não mais me surpreendo — nos terraços, nas rodas de uísque ou, mesmo, de sukita-uva com broa de milho — que NINGUÉM que esteja lendo os livros que, dizem, estão solenemente entrando para o cânon da literatura brasileira contemporânea sem nenhum Tomás Eloy Martinez, nem sombra de um Juan José Saer ou qualquer sinal de algum Roberto Bolaño [att: microcontistas, não confundir com Roberto Bolaños, do programa de Chaves, da TV mexicana]).

Talvez eu esteja em busca de inimigos melhores do que já tenho, mas vou seguir a receita de Freire e escrever o meu próprio conto-mínimo: “Tinha talento para ser escritor. E o pior que era”.

O título desse conto é maior do que ele: “E POR ISSO NÃO PERGUNTES POR QUEM OS SINOS DOBRAM; ELES DOBRAM POR TI”, um claro e simples plágio de John Donne, já que estorvos e plágios acabam de entrar na moda (e na “ética” de tipo senatorial) aqui, em Budapeste, Brasília e noutros lugares.

Caso o talentoso Caio Fernando ainda fosse vivo — e o gaúcho de Santiago (1948-1996) não estaria assim tão velho, aos 61 anos —, provavelmente se encontraria sem lugar na literatura brasileira de agora. Ele não poderia imaginar (nem Osman Lins nem João Antonio, e muito menos Guimarães Rosa) o esforço vindo de Machado caído, hoje, no(s) colo(s) ameno(s) dos Chaves da literatira de Xicos e chiquititas, depois de passar pelos divertimentos globo-literários dos Jôs e pela triunfal entrada de carne de lebre na Academia Brasileira de Letras, com o Coelho matando, lá, um só daqueles velhinhos com duas cajadadas e um rabinho de cavalo (a um bicho assim dado, ninguém examina o bafo dos dentes).

Fedores disfarçados
Aliás, a nossa nobre Academia não se importa, galantemente, com coisas que fedem. E os leitores estão começando a aprender que fedores podem ser disfarçados por editores das páginas de cultura de revistas semanais influentes, muitos deles saídos da cobertura política do Congresso, no Distrito Federal, direto para o final da edição das “semanais”. Ali, nas últimas páginas, são apertados (1) Shows e CDs, (2) Filmes, (3) Peças de teatro e (4) Livros — nessa ordem. Cordeiramente resenhados em suas obras pontuais, estamos vendo autores arrivistas chegando com farrapos de contos e falsos bons romances à imagem e semelhança da espetacularização da literatura já quase esquecida daquela sua função antiga: dilatar a consciência dos leitores.

Em vez disso, estamos dilatando as pupilas, os balanço$ e os balacobacos dos textos míopes ou doentes da catarata de plástico de livros descartáveis sob capas de verniz localizado na Veja, na IstoéOuSeja, na brava Época do consumo de literatura dos Caros amigos em tabletes, comprimidos, pó, fumo e sacos de vômito de aviões da Air France, Oropa e Bahia.

É uma nave? É um camelo? É um livro, nada nanico, voando na nossa direção como um tijolão? Sei lá!

Já perguntava a Bruxa Má olhando para o espelho da cultura: quem brilha mais do que eu, entre as estantes e gôndolas redondamente quadradas das mega-livrarias engalanadas pelo brilho enganador de romances lustrosos como catarro em parede?

E o que fazer?

De minha parte, eu resolvo me retirar, pelo menos neste momento, para o território ainda saudável da poesia. Estou retornando ao pequeno inferno de Orfeu descido ao inverno da nossa desesperança, paraíso de esquecimento sobre as cabeças dos bardos deixados em paz para acordar — ou tentar acordar — a consciência da tribo adormecida após a comilança (isso me lembra O enteado do já citado Saer, um dos dois melhores escritores argentinos do primeiro time pós-Borges e Cortázar, agora que a literatura de esplende na prosa, assim como os filmes portenhos também nos ensinam, Fernando Meirelles, a não emular um cinema internacionalizado até o irreconhecível)…

Estou, enfim, de volta aos versos limpos — como ossos brancos —, na forma de um poema longo: Vi uma foto de Anna Akhmátova.

Permitam, então, senhoras e senhores, belas damas e honoráveis cavalheiros — como diz o “Quaderna” do romance mais chato da nossa literatura — que eu possa terminar com fragmento do livro editado pela Fundação de Cultura do Recife, uma vez que não há mais editoras não-públicas interessadas na poesia brasileira de meditação da existência de unhas não-pintadas, mas somente gente querendo ganhar dinheiro com o s-u-c-e-s-s-o de impressos que não machuquem muito [ou só quando a gente ri] de Buarque à — linda, sim — Maitê Proença da saia justa das mulheres à beira de mais um [controlado] ataque de nervos, o que é diferente de um drama ou uma tragédia, porque “viver não é como atravessar um campo”, segundo Boris Pasternak.

P.S. Escrever é uma “chatice”? Só se for enquanto você é aprendiz e vai aprendendo à medida que (já) publica. Trata-se, caro Francisco de Hollanda, de raro caso de cupidez de editores: eles impingem aos leitores as suas obras de, digamos, “treinamento”, como se fossem (já, ibidem) amadurecidas o bastante para publicação, reedição, tradução em várias línguas e transposição imediata para o cinema, por produtores que filmam “grifes” — e não livros. É isso. Te manca, Chico.

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