Fora de sequência

outubro 2011 / Fora de sequência / Abril em Paris (1)

Texto publicado na edição #132

Abril em Paris (1)

Não a percebi. Eu simplesmente não a percebi — ao entrar na sala às escuras. Entrei, e só depois de […]

> Por FERNANDO MONTEIRO

Ilustração: Francisco Brennand

Não a percebi. Eu simplesmente não a percebi — ao entrar na sala às escuras.

Entrei, e só depois de acender a luz é que vi Luiza sentada no sofá, pernas — ainda bonitas — estendidas sobre a mesa de centro onde uma garrafa se apoiava sobre um daqueles livros decorativos que todos folheiam, mas ninguém lê.

Bem, ela os lia. Luiza os lia, comprava a maioria em Paris — sobre a própria Paris ou sobre arte de algum modo relacionado com a “Cidade-Luz” (o chavão que não era vulgaridade na sua boca bem desenhada). Gostava de livros assim não só para folhear; a vida para ela não fora um olhar distraído para páginas de fotos coloridas de pontes e mármores esculpidos. Ela saíra da pobreza da classe média baixa para casar com meu pai, um homem mais velho, dono de uma rede de lojas que ela administrava desde a sua morte. Isso pudera lhe financiar as viagens, os cursos de línguas, o cultivo de gostos caros, nada de muito sofisticado — mas o bastante para transformar Luiza Mattos em Luiza M. Brentano, viúva relativamente rica, que nunca voltara a se casar. Havia ficado viúva com 22 anos e um filho na barriga: eu.

Eu que acabo de entrar, acendendo a luz por hábito (poderia me orientar, perfeitamente, sem necessidade de lâmpada naquela sala), para encontrá-la cantarolando uma canção de Vernon Duke, “April in Paris de Lu” — o refrão, apenas, afinadamente cantarolado, com o acento de quem está sozinha e um pouco triste ou nostálgica. A canção se presta para isso, se parece com ela e Luiza sempre a adorou.

Eu a chamava Lu, nas horas felizes. Nos últimos meses, não haviam sido muitas. Isso podia ser contado, nos seus dedos de unhas brilhantes, praticamente desde a notícia do noivado com Diana. Assim, o “Lu-iza” da — leve — beligerância, ainda, é que vinha à minha boca, naquela hora, entrando no escuro, como um cumprimento claro na sua espécie de tola mágoa meio automatizada (recentemente).

“Boa noite, Luiza. Ainda acordada?”

Admirei o corte novo do seu cabelo, mais curto – e que lhe dava um ar jovial, talvez de menos cinco, oito anos?…

Ela respondeu modulando, ainda mais baixinho, o refrão da música, iluminada pelo clarão que a mostrava para mim, relaxada numa sexta-feira.

A meu pedido, deixara de fumar. Se eu não houvesse sido prontamente atendido, haveria um cinzeiro cheio, ao lado da garrafa, com a fumaça flutuando junto com o verso sobre um curto abril em Paris. Estava ainda de tailleur, meio amassado, sentada como esportivamente se senta uma mulher de camisola ou de pijama, para ver um filme ou ouvir música, a luz apagada.

O copo na mão adejou, então, num “olá” maroto — ao garoto vindo da rua molhada da chuva. Eu amava aquela mão fina, longa, bem tratada tanto quanto pode ser uma mão que segura um copo elegante. Mão que revelava poucos sinais dos anos — para uma mulher de quarenta e sete, isto é, quarenta e oito, no começo do próximo mês (a anotação desnecessária no calendário), oh, eu estaria lembrado, sim.

“Boa noite, Luiza”! — que saudação horrível, sem o “Lu” da intimidade cálida, nunca esquecida. Talvez dito até sem um sorriso.

Mas é que eu tinha no ouvido, na boca, no espírito um tanto aturdido, as palavras escutadas e pronunciadas menos de uma hora antes, na última briga com Diana. A última mesmo. Tínhamos acabado, terminado o noivado. Desta vez, não parecia possível uma volta por sobre as coisas ditas e subentendidas de forma mais direta e mais áspera. Havia sido o fim. E era preciso participá-lo à Lu, logo. Não sei bem por que era preciso, mas era: havia sido sempre assim, a minha vida ligada à dela por mais do que um cordão umbilical num frasco.

E não requeria coragem, pelo contrário. Iria ser bem recebida, tal notícia, com o copo pronto e o refrão elevando-se num fio de voz como em resposta ao meu “boa noite” sem graça, de aparição, intrusa, de carteiro inglês das altas horas, numa peça com sobretudos e capas oleadas: “Boa noite, Agatha querida”.

Eu mesmo ri, por dentro da “alma machucada” (era uma música?). Eu estava ali, parado, consciente de não ter a graça requerida. Pela fração de instante entre acender a luz e vê-la a beber, cantarolar, parar, pensei em tantas coisas. Por ordem: em Diana, em castanheiros em flor, em viagens, em Lu e seu uísque aguado — que era o que ela costumava beber, embora não dessa vez.

Bebia vinho, eu estava vendo. Não que houvesse aderido à mania brasileira, recente, dos vinhos (agora, todo mundo estava querendo conhecer de vinhos, aqui). A minha mãe bebia pouco, deles. Ou, digamos, apreciava vinhos menos do que se poderia esperar de dona Luiza Maria Mattos Brentano, que não precisava do meu meio segundo para responder com graça. Sabia ser espirituosa e leve: leve como um abril de ópera e frio, táxis e parques, lustres de restaurantes e lençóis de hotel escorregando do joelho redondo.

O que você faz quando compreende uma coisa só aludida na sombra?

Você sorri antes de mim. E eu nem sorri, plantado ali como um cipreste de farda de tenente da aviação disposto a voar para os braços da Guerra com a Mãe-Pátria dos outros. Luiza ainda fez um simulacro de continência para a minha patente não tão impressionante quanto a de um almirante perneta entrando num falso navio de Hollywood.

Estou saindo do compasso? Quero rever-me ali, de pé, ainda ouvindo o silêncio depois do refrão trauteado com elegância (dona Luiza era — seria sempre — elegante). E a canção, suavemente lamentosa, combinava com essa elegância e com seus gostos. Só descobrimos algumas coisas muito tarde, outras ficam por descobrir e tudo é tão confuso que… quem canta agora? Sou eu? “April in Paris”?…

Ninguém mais cantava. Luiza olhava para mim.

Desde que hora estava ali? Talvez, obsessiva, houvesse chegado depois de uma noite de serão no escritório da sede das lojas. Lá, na sala ao lado da sua, permanecia a minha mesa, segundo ela, para “quando eu decidisse voltar”, a fim de “ajudá-la” (mas eu não queria voltar para as LB, nem ajudar em nada que não me ajudasse a ficar longe do que nos ligava).

“Chegou tarde, hoje?” — minha pergunta tão desajeitada quanto o “boa noite” educado.

Eu não gostava que ela bebesse. Mais de uma vez havia conduzido essa dama, nas sextas-feiras ou nos sábados, um pouco acima do solo, pesando pouco mas repetindo-se, sentimental a respeito de tudo, rumo à cama (onde a depositava em meio ao cheiro do seu perfume, tentando ser mau-humorado nas reclamações sobre os tais uísques com água).

De outras vezes, ela podia ficar engraçada e me divertia, ou irritava — sem propriamente irritar, no sentido desagradável do que significa, realmente, irritar. Estou sendo confuso. E, possivelmente, também injusto. Ela não fazia isso com tanta freqüência assim, e nem sempre me desagradava, meio folgazã e meio melancólica por ondas, ou tornando-se levada como uma criança numa praia do fim dos verões, entre lembranças das risadas daqueles que já haviam deixado o lugar, nas temporadas, sem a certeza de voltar (quem pode saber se vai voltar para nada?).

Ainda agora, quando uma parte do frescor de antes se fora do seu colo, era possível rever, por sobre o fosco da flacidez (que se insinua sobre todos os rigores das ginásticas), ou sentir, ou tocar, em algo primaveril retido, misteriosamente retido, num gesto juvenil do braço ainda liso — deitados, ambos, para as conversas sem rumo, as coisas preguiçosas que podem fazer duas pessoas se fazendo companhia durante anos. Coisas que eram dos nossos hábitos, fazíamos, gostávamos de fazer, e de ficar fitando o teto e comentando sobre nada importante, nada decisivo, tudo ao acaso das associações que nos faziam rir, quando eram trocadas como loucas cartas de um baralho cômico. Rir, ela sempre soubera rir.

Então, ao entrar, é mais do que o passado recente — e o presente como um vício querido — que paralisa minha capacidade de ver tudo separado, como o mar dividido por um Deus de cólera que eu temo só quando estou fraco ou quando me acho longe desta casa grande demais, num bairro prosaico de ricos (do luxo brasileiro que é pobreza — até na África do Sul dos brancos — de apenas três carros na garagem).

Não gostávamos de sair o tempo todo. Nem sempre havia privacidade em certos lugares, ou, então, chovia e era agradável ficar em casa, sem a governanta na sua folga, sem ninguém, na verdade, porque Luiza estava cansada de gente, após a semana inteira cuidando das lojas, lidando com gerentes e funcionários que ela precisava ver pelas costas nas sextas-feiras, incluindo os serviçais da casa, depois que recolhiam e trocavam os lençóis, faziam a limpeza e providenciavam as compras da semana. Nas sextas-feiras…

Haveria tanto a dizer das pequenas coisas recordadas juntos, estamos sós no mundo, agora é tarde — quando, no mínimo, se faz preciso recuar e recomeçar, talvez, da porta de entrada de novo.

 

CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO.

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