Ensaios e Resenhas

agosto 2011 / Ensaios e Resenhas / Abismo e esperança

Texto publicado na edição #136

Abismo e esperança

Melhores poemas de Luiz de Miranda, com seleção e prefácio de Regina Silberman, apresenta-nos uma coletânea bastante representativa do conjunto […]

> Por VILMA COSTA

Melhores poemas de Luiz de Miranda, com seleção e prefácio de Regina Silberman, apresenta-nos uma coletânea bastante representativa do conjunto da obra do autor. O poeta gaúcho tem uma farta produção (29 livros publicados, mais de 2 mil páginas escritas), um número bem expressivo de premiações, um público fiel de leitores e muitos dos seus livros esgotados. Daí a importância da coletânea, que permite ampliar esse leque de público, apresentando para quem ainda não teve a oportunidade de conhecê-lo, um panorama da sua produção.

Podemos imaginar, com essa breve apresentação, a variedade de temas e problemas suscitados desde 1969, com Andança, seu primeiro livro. Neste sentido, partimos do princípio de que só a leitura de cada poema pode nos oferecer essa variedade de temáticas e formas expressivas. Cada um deles, entretanto, traz entre si um elemento de unidade: trata-se da relação muito íntima dos sujeitos líricos, na busca de autoconhecimento de sua subjetividade, com a vida social do país, com as cidades, com sua aldeia, com seus amores, com os amigos e com a linguagem. Enfim, criação poética e vida intensa, tanto a interior quanto a cotidiana, caminham de mãos dadas. “Criar, criar, criar/ único modo de me salvar!”

A marca da vida nos traços dessa linguagem é apresentada por algumas tensões recorrentes: vida-morte, desencanto-esperança, tempo histórico-tempo mítico, silêncio-linguagem, natureza-sociedade, presença-ausência, encontro-desencontro (amor), idealização-realidade, etc. “Amanhecemos sobre café e notícias/ troar de tambores anunciam a morte/ de todas as flores e a gota orvalhada/ de silêncio estremece pétalas e desce/ na agonia do azul” (Andança). A construção poética se dá no entrelugar desses conflitos. A manhã que surge a cada dia, entre café e notícias, traz a morte anunciada pelo contexto histórico da ditadura militar e a solidariedade de uma natureza viva enternecida por imagens de medo, assombro e agonia. Essa literatura é engajada na medida em que esse sujeito está comprometido com o seu tempo e oferece sua voz como contraponto para o silêncio que é a morte da linguagem, e a sua paixão como contraponto à capitulação. Entretanto, no poema, o engajamento não se dá sob a forma de panfleto, mas sim pela busca de formas e expressões que não mascarem esses conflitos, pelo contrário, os radicalizem mostrando as feridas e os nervos expostos do sujeito e da sociedade.

“Amargo o encargo/ de guardar ovelhas/ nesta fronteira/ despedida do reino” desabafa o sujeito do poema Pastoral, tomada intertextual de Álvaro de Campos. Antes, contudo, é categórico: “Não se omite a verdade/ em corredores de fumaça/ a verdade é fruto em fatias/ jogada neste cansaço/ bate em nossa cabeça/ com eternidade”. Essa poética lida com os aspectos político e ético como componentes inerentes da busca de expressão. Neste sentido, a verdade como valor ético está dentro do universo mais amplo e perene de um tempo que vai além do tempo histórico tão limitador e massacrante. Esse tempo histórico, entretanto, percorre quase todos os poemas, afinal ele é a vida que palpita a costurar momentos, a tecer as horas do presente, no qual se cria e se sobrevive, do passado, que é retomado no tempo da memória e, até, da perspectiva de futuro, nas asas do sonho e da utopia. “Do passado ninguém volta,/ o futuro é nossa pressa/ e nossa fúria/ que vai latindo/ nos poros do dia,/ meu legado, minha alquimia.” O futuro como construção utópica e redentora aponta para um tempo mítico, associado a outras imagens de sonho, esperança e realização amorosa.

Dionísio renasce após cada morte: “meu pensar é puro deserto/ Mas longe ouço um longo cantar./ Morro e renasço, sem me matar./ Os azuis possíveis planam no ar”. É Eros que impulsiona o sujeito na busca de completude no encontro amoroso, na criação poética e na identificação identitária com o espaço físico e simbólico que o acolhe. “Irei longe,/ à vastidão do mundo./ Começo celebrando/ a rua onde moro,/ suas árvores copadas/ e todas as coisas/ que me são amadas./ O resto é o mundo,/ poço sem fundo.” Para cantar o poço sem fundo, que é o resto do mundo e sua humanidade, canta a sua rua, a sua aldeia e as cidades onde vive e por onde passa. “A cidade que escreve por mim/ é mais que paisagem/ ou fotografia ou retrato/ revela-se à veia cristal/ que a paixão anuncia/ com seus faróis de fogo.” A cidade sobre a qual escreve ajuda-o a escrever mais que a paisagem, mais que um retrato. Antes de mais nada serve de manancial para a construção de uma memória afetiva e de um momento presente de criação.

O sujeito não apenas habita a Cidade, a cidade é personagem, é amada, habita nele. Neste sentido, o filho de Uruguaiana e amante de Porto Alegre medita sobre o rio Uruguai de sua infância e sobre as águas nebulosas do Guaíba: “Porto Alegre Porto Alegre/ Alegria pra nós que precisamos/ (…)/Rio Guaíba/ a grande alma da cidade/ retrato do sol/ caindo na noite”. Segundo Barthes, em Semiologia e urbanismo, a legibilidade de cada cidade está relacionada a um canal, a uma baía, a um rio, algum curso de água, que simbolicamente represente uma lente, que ajude a leitura dos signos. Quantos poetas já cantaram a Baía da Guanabara, o rio São Francisco, o Jaguaribe, o Tietê, o Tejo, o Sena e tantos outros? Para Luiz de Miranda, o Guaíba é muito mais que paisagem. Como lente, ajuda na leitura dos signos. É a grande alma da cidade que com ele comunga a poesia nossa de cada dia no que esta tem de sustos e abismos, no que tem de sonhos e esperanças renovadas.

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Luiz_de_miranda_Melhores_poemas_PB_136

Luiz de Miranda
Global
201 págs.