Ensaios e Resenhas

abril 2020 / Ensaios e Resenhas / A voz necessária

Texto publicado na edição #240

A voz necessária

Em "sereia no copo d’água", de Nina Rizzi, uma “voz” se torna a protagonista dos poemas

> Por Ana Luiza Rigueto

Nina Rizzi, autor de sereia no copo d’água

Nina Rizzi, autor de sereia no copo d’água

Ao longo do tempo, as sereias mudam de forma. Seu primeiro historiador, o rapsodo do livro XII da Odisseia, não conta como eram; para Ovídio, são aves de plumagem avermelhada e rosto de virgem; para Apolônio de Rodes, da metade do corpo para cima são mulheres e da metade para baixo, aves marinhas; para o mestre Tirso de Molina (e para a heráldica), “metade mulheres, metade peixes”.

No trecho acima, extraído do Livro dos seres imaginários (1957), de  Jorge Luis Borges, com colaboração da historiadora Margarita Guerrero, é possível visualizar algumas das mutações pelas quais a ideia de sereia passa. A Odisseia de Homero conta que as sereias eram monstros com uma voz tão linda que, ao escutá-las, os navegantes eram atraídos para sua ruína. Para conhecer o canto e sair ileso, Odisseu arquiteta um plano: ordena aos seus tripulantes que tapem os próprios ouvidos com cera e o amarrem ao mastro. Na tentativa de atraí-lo, as sereias oferecem a Odisseu todo o conhecimento do mundo, mas, amarrado, ele apenas segue com sua embarcação.

Em sereia no copo d’água, quinto livro de poemas de Nina Rizzi, poeta, historiadora, tradutora e editora na revista escamandro, não é possível falar de uma voz encantatória e dessubstancializada, como a das sereias. Nota-se, em vez disso, uma fala a produzir presença.

No poema que também dá título ao livro, na primeira estrofe:

leio ‘change diapers’
cada verso me detém tua visão bebê nadador
— nadadora? nunca terá um sexo que te definha
o índio gerônimo me aparece enquanto agonizo tua visão
                                                                      [antes da queda

Rizzi cita o poema do beatnik Gary Snyder, no qual um homem troca as fraldas de um bebê, enquanto este olha fixamente para o pôster do índio Gerônimo na parede, segurando uma espingarda. No final, o homem diz ao bebê algo como “fique tranquilo, todos aqui somos homens”. No poema de Snyder, essa fala parece querer tranquilizar o bebê, que não tenha vergonha das fraldas trocadas ali, pois não há moças no recinto.

Mas o que fica evidente é que menino, homem que troca fralda e homem no pôster, estão postos no mesmo lugar, “ser homem” é imediatamente “ser humano”, ocupar um lugar de suposta universalidade. Voltando ao poema de Rizzi, a referência feita à troca de fraldas antecede um cenário difícil de aborto, “me foge água, sangre/ pedaços entre as pernas”. Change diapers não contém um apelo trivial para o bebê, “fique tranquilo, somos homens” é uma espécie de suspiro aliviado de quem sabe falar de um lugar mais cômodo, acostumado a nomear o mundo e tomá-lo como seu. O que é dito e o lugar de onde se fala não diz respeito apenas a emitir palavras. Está implicado com a possibilidades de existir e a produção de presença.

Estranhar a voz
No poema onde estaes, negra?, ao literalizar a fala, como se pregasse a voz na página, Nina Rizzi enfatiza o estranhamento quando faz a voz apontar para si mesma: 

sei escrevê e sei dizê a boa língua sim
mas bão é assim fagulha na língua
português gostoso sem contrato e casamento

Em Vaga carne, peça teatral escrita e encenada por Grace Passô, a personagem é uma voz e o cenário, um corpo de mulher. A voz tenta nomear e descrever as coisas, dizer como é estar viva, ser matéria. “Nunca fiz tanto esforço, é como ser um navio e minha voz é a tempestade.” Como a personagem é uma voz, os movimentos do corpo no palco podem se fazer contraditórios à fala. Quer dizer, os movimentos que a voz empreende no corpo são como novos, destituídos de uma lógica ou da obrigatoriedade de ilustrar o que se diz. O que possibilitou, segundo Passô, uma forma não cotidiana de estar em cena. Também é de Grace Passô a adaptação da Medeia que, em lugar de matar os filhos, tenta convencer suas filhas a matarem o pai.

A voz da Medeia, de Passô, parece comparecer no poema sortilégios para matar o meu benzinho, de Rizzi. Neste poema, uma criança observa os movimentos do pai na casa, que fala alto e “tem um cheiro forte de álcool”. Enquanto ouve “os choros abafados de mamãe/ o som surdo dos punhos de papai em suas costas e o engasgo”, a menina estilhaça uma lâmpada de vidro e, como se colocasse em prática um feitiço, enfia na carne que a mãe preparara para o pai caquinhos do vidro junto de um chumaço de cabelos seus. Nisso, recita baixinho “as palavras mágicas de mamãe: só teremos paz quando ele morrer”.

É quase como se também em sereia no copo d’água a personagem principal fosse uma voz, incorporando a fala aos poemas e nomeando experiências enquanto se estranha, “como quem tenta desacostumar um corpo”.

A poesia não é um luxo
No ensaio A poesia não é um luxo, que compõe o livro Irmã outsider: ensaios e conferências, lançado no Brasil em 2019 pela Autêntica, Audre Lorde defende que a vida não deve ser encarada ao modo europeu, como um problema a ser resolvido por meio apenas das ideias que temos das coisas, pois devem ser levadas em conta também as forças ocultas, relacionadas aos sentimentos e à ancestralidade.

Seria da fusão entre racionalidade e respeito por fontes ocultas de saber que se daria uma poesia essencial, “como destilação reveladora da experiência e não como estéril jogo de palavras”. Para Lorde, a poesia não é um luxo, mas uma necessidade vital. “É da poesia que nos valemos para nomear o que ainda não tem nome, e que só então pode ser pensado.”

O primeiro capítulo do livro de Rizzi traz a lenda das bonecas russas na epígrafe: um artesão teria talhado uma boneca tão bonita que não quis vender, levou para casa e a chamou Matrioshka. Sentindo-se sozinha, a boneca pediu um bebê, o artesão talhou uma boneca menor, serrou a Matrioshka e colocou dentro dela a nova boneca, batizada Trioshka. Aconteceu de novo, agora veio a Oshka. Na quarta vez, para acabar com o problema e garantir que não lhe seria pedido outro bebê, o artesão faz rapidamente um bigode no boneco, chamando-o de Ka.

O capítulo matrioshkas é uma série de poemas com cinco nomes femininos: Claire, Hollie, Ivonka, Coralina, Esme. A atenção dada aos nomes (“Esme gosta quando repito teu nome/ Esme”) ou à ausência deles (“me sinto tão mulher/ quando olhos os créditos/ do álbum e no piano leio apenas/ — mulher”) e a enunciação de experiências a partir desses nomes (“agora cá dentro um bicho que me come/ dizem mulher/ digo Coralina”) trazem à cena cada uma das matrioshkas, antes ocultas, tendo filhos e sendo de brinquedo.

Audre Lorde escreve: “Mantidos por perto como apêndices inevitáveis ou agradáveis passatempos, esperava-se que os sentimentos se submetessem ao pensamento assim como era esperado que as mulheres se submetessem aos homens. Mas as mulheres sobreviveram. Como poetas”. E para Lorde novas ideias não existem. O que há são novas formas de fazê-las serem sentidas.

O poema barcarola mulher também exemplifica essa espécie de batismo que acontece com frequência em sereia no copo d’água. Com o gesto de dar nomes (“mulher seu rosto marielle”), emerge o sentido de alteridade. Reconhecer e nomear é dar existência e continuidade ao que seria um apagamento (“inominável teu rosto/ jamais tocado”).

Parece que a voz que nomeia o mundo enquanto o estranha, tornando visíveis formas de existir desviantes, não configura exatamente uma conversa, menos ainda uma exibição oral, vocal. É uma fala entre a memória e o aviso, como se do trauma fosse resgatada uma força e então coisas precisam ser ditas para que tornem a existir de outra maneira. Um dos procedimentos adotados por Rizzi seria, então, uma voz substancializada na fala a partir de seu centro, não por luxo, mas por necessidade.

Nina Rizzi_sereia no copo d’água_240

sereia no copo d’água
Nina Rizzi
Jabuticaba
86 págs.

 

 

A AUTORA
Nina Rizzi
É historiadora, tradutora e poeta. Uma das editoras da revista de poesia e tradução escamandro, publicou, entre outros livros, caderno-goiabada (2013), a duração do deserto (2014), geografia dos ossos (2016) e quando vieres ver um banzo cor de fogo (2017).

 

 

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