Intercâmbios ficcionais

maio 2012 / Intercâmbios ficcionais / A volta dos que foram

Texto publicado na edição #145

A volta dos que foram

Cabe ao escritor escolher entre dois extremos: julgar o outro ou fundir-se com ele

> Por CAROLA SAAVEDRA

Todo relato narra uma viagem ou um crime, diz o escritor e ensaísta Ricardo Piglia

 

Todo relato narra uma viagem ou um crime, diz o escritor e ensaísta Ricardo Piglia, toda história seria Ulisses ou Édipo. A partir dessa afirmação de Piglia, é possível construir diversas hipóteses sobre a trajetória geográfica ou investigativa do escritor. Mas deixemos momentaneamente o crime de lado e voltemos nosso foco para a questão da viagem — o escritor como aquele que foi e depois voltou para contar a história. Podemos pensar o escritor como um aventureiro, talvez como uma espécie de Hans Staden contemporâneo. Mas o que seria isso? Comecemos então com uma breve biografia do personagem: Hans Staden foi um mercenário alemão que viveu no século 16, e, entre outras coisas, fez duas viagens ao Brasil, lutou contra índios e franceses ao lado dos portugueses, naufragou na costa de Santa Catarina, foi capturado pelos Tupinambás, e por muito pouco não foi devorado por eles. Ao voltar para a Alemanha, publicou o relato originalmente intitulado História verdadeira e descrição de uma terra de selvagens, nus e cruéis comedores de seres humanos, situada no Novo Mundo da América, no qual conta sua experiência durante os nove meses em que permaneceu prisioneiro.

Independentemente da qualidade do relato (não se trata aqui de crítica literária), vale a pena tomar esse acontecimento como base inicial para pensar a forma como o escritor lida com seus personagens. Assim como Hans Staden, o escritor faz uma viagem, que pode consistir em atravessar o Atlântico ou até mesmo uma viagem interior (na realidade, mesmo atravessando o Atlântico trata-se sempre de uma viagem interior). Ele vai, cruza a fronteira, tem sua experiência, volta e depois senta diante da folha em branco, ou do computador, pronto para narrar o que vivenciou. A partir desse momento há duas formas básicas de lidar com a alteridade: 1) Convivemos durante vários meses com uma tribo de índios canibais, voltamos para casa felizes de termos escapado ilesos, e escrevemos a partir daí um relato sobre os cruéis e nus comedores de seres humanos. 2) Convivemos durante vários meses com uma tribo de índios canibais, voltamos para casa felizes de termos escapado ilesos, e escrevemos a partir daí um relato sobre um estranho prisioneiro que conviveu conosco durante um longo período de tempo. A diferença entre esses dois relatos? O lugar a partir do qual narramos. Na primeira opção, trata-se do relato ao estilo Hans Staden, narramos a partir do nosso próprio ponto de vista, ou seja, o outro é alguém de quem mantemos certa distância, que temos dificuldade de compreender. Na segunda hipótese, há uma aproximação, talvez mais do que isso, há um exercício de colocar-se no lugar do outro, quem é esse índio canibal, o que ele pensa, como vê o mundo, quais as suas crenças e idiossincrasias, quais os seus medos, seu heroísmo, sua crueldade — em outras palavras, um exercício que nos exige enxergar ali características potencialmente nossas (que talvez carreguemos adormecidas em nós). O outro deixa de ser apenas um canibal para tornar-se humano, e talvez até mesmo, dando uma volta maior ainda, ele nos permita olhar novamente para nós mesmos e encontrar algo desconhecido em nós. Entre esses dois extremos — desumanizar, julgar o outro ou fundir-se com ele — situa-se o escritor, que a cada livro, cada personagem, faz sua escolha.

Voltando à afirmação de Piglia, todo relato é uma viagem ou um crime, deixemos agora a viagem de lado, e concentremos nossa atenção no crime. Imaginemos um escritor interessado em escrever um romance em que o personagem principal comete um crime. Para tornar o relato mais verossímil, mais realista, ele resolve visitar um presídio e conversar com os mais diversos tipos de criminosos, assassinos, estupradores, etc., ou seja, faz a chamada pesquisa de campo. Vai lá, grava, anota suas conversas, faz comentários de pé de página, tem experiências únicas e intraduzíveis. Ao voltar para casa, diante da folha ou da tela em branco se vê novamente diante dessas duas possibilidades. Construir o assassino a partir do olhar de quem observa à distância (e também julga), ou colocar-se ele mesmo na pele desse personagem, o que pensa, como age, como vive, como ama, como odeia esse outro à primeira vista tão distante. Na realidade, trata-se de buscar dentro de si mesmo o cerne da própria crueldade, o assassino que ele não foi mas poderia ter sido. O crime que ele jamais cometeria (afinal, ele é uma pessoa de bem, cumpridora de seus deveres, etc.), mas que existe como possibilidade. Para que então, mais tarde, o leitor seja capaz de reconhecer-se ele também nesse jogo de espelhos, e, aceitando sua desumanidade, talvez tornar-se mais humano.

Reconhecer-se no personagem de um livro é sempre um risco que o leitor corre. E talvez seja isso que faz com que uma obra se torne um clássico, a possibilidade de, no decorrer dos anos, continuar surpreendendo, capturando (das mais diversas formas) os mais diversos leitores. Um bom exemplo disso é o romance Amor insensato, do escritor japonês Junichiro Tanizaki. Escrito em 1924, o livro narra a historia de Joji Kawai, engenheiro que conhece Naomi, uma garçonete de quinze anos, apaixona-se, casa-se com ela, e entra num processo de loucura e degradação por causa desse amor que ele não consegue sustentar e ao mesmo tempo vê-se impossibilitado de esquecer. Se de início seu plano é transformar Naomi numa mulher refinada, ele pouco a pouco percebe que quanto mais o tempo passa, e ele se esforça, mais ela foge ao seu controle, Naomi se transforma de serva em senhora dos desejos do marido. O livro, viagem e crime metafóricos (um Tanizaki-autor que incursiona pela humanidade de seus personagens, sem jamais julgá-los), encerra-se com uma afirmação, que de certa forma reafirma as possibilidades de Joji e Naomi em nós: “Aqui termina o meu relato sobre nossa vida de casal. Os leitores que o acharem idiota, sintam-se à vontade para rir. Aqueles que dele possam tirar um ensinamento moral, tomem-no como lição. Quanto a mim, estou apaixonado por Naomi e pouco me importa o que as pessoas pensem a meu respeito”. Se todo relato, como diz Piglia, narra uma viagem ou um crime, talvez para o escritor valha a pena permanecer num lugar intermediário, com um pé aqui e outro lá, Joji e Naomi.

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