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outubro 2019 / Entrevistas / A verdadeira Clarice

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A verdadeira Clarice

A tradutora Magdalena Edwards fala sobre a experiência de verter Clarice Lispector para o inglês

> Por David Shook

Magdalena Edwards, tradutora de Clarice Lispector para o inglês

Magdalena Edwards, tradutora de Clarice Lispector para o inglês

Tradução: Leandro Salgueirinho

Recentemente, acompanhei o progresso de minha colega Magdalena Edwards com a tradução de O lustre, de Clarice Lispector, observando-a de outra ponta de Los Angeles e, ocasionalmente, com mais detalhes, tomando um café enquanto meu despelado cachorro mexicano descansava em seu colo. Entendo a alegria e a dificuldade de se traduzir uma prosa densa e estilizada como a de Clarice, e ver uma colega no processo de concluir a tradução de um livro completo me pareceu uma afirmação da importância do que nós, tradutores, fazemos.

Fiquei contente quando Magdalena me convidou para apresentá-la no lançamento do livro na The Last Bookstore, e essa conversa, resultante de muitos meses de conversas anteriores mais breves, iniciou-se então — conforme nos correspondíamos por e-mail, fosse do Brasil, da Inglaterra, do Iraque, de Echo Park ou Santa Monica — em torno deste singular segundo romance de Clarice, do seu status de culto sempre crescente aqui nos Estados Unidos e de questões de tradução.

O lustre é o segundo romance de Clarice Lispector, consideravelmente mais longo e mais difícil que o primeiro e estilisticamente diferente de seu trabalho posterior, que, suponho, agora é mais bem conhecido em inglês. Como você entende o lugar deste livro na obra de Clarice?
Quando Clarice Lispector apareceu no cenário literário, em dezembro de 1943, com seu romance de estreia, Perto do coração selvagem, publicado quando ela tinha 23 anos, ela já estava escrevendo seu segundo romance, O lustre. O primeiro romance de Clarice tem capítulos curtos, com títulos expressivos, como “Alegrias de Joana”, “O casamento” e “A víbora”. O segundo, que ela finalizou em novembro de 1944, narra a história de uma garota sonhadora chamada Virgínia e tem oito “capítulos-seções”, mas estes não são delineados de modo óbvio, com títulos ou números. Passagens longas e meditativas mudam da realidade para a memória e para a fantasia e, de repente, tudo fica borrado. Muitos parágrafos de O lustre se estendem por mais de uma página. A biógrafa de Clarice, Nádia Gotlib, escreve que ela “refere-se a ele sempre como o livro que, ‘apesar de ser um livro triste’, lhe deu enorme prazer escrever. Chega a afirmar que foi o que lhe deu mesmo o maior prazer”. [1] Teresa Montero, autora de outra biografia de Clarice e editora de vários volumes de sua obra, descreve a impaciência da escritora com a reação dos críticos a O lustre, ou antes, com a não reação deles: “O silêncio em torno de seu novo romance pareceu-lhe incompreensível. Segundo o seu ponto de vista, um crítico que elogiou o primeiro livro de um autor tem a obrigação de anotar pelo menos o segundo, destruindo-o ou aceitando-o”. [2] Parul Sehgal, do The New York Times, percebe, em O lustre, “todo o corpo da obra de Lispector, em miniatura, aguardando seu tempo”. O livro, ela escreve, é “uma performance vulnerável e comovente”: “Lispector está flexionando, conhecendo seu poder. Ela está brincando, ela está exercitando. Essas páginas estão cheias de exercícios com os dedos, arpejos de pensamento e percepção”. Sehgal termina sugerindo que o romance “pode ser melhor compreendido como uma ponte na obra de Lispector”. Adoro essa ideia de O lustre como uma ponte — e um prazer. A tudo isso, eu acrescentaria que a música, ao nível da frase, é única em O lustre em comparação com outros textos de Clarice. Para mim, o grande desafio era permanecer o mais fiel possível à intensidade dessa música, ao ritmo e ao arranjo de suas frases, muitas das quais são extremamente longas, labirínticas, e elas aceleram e se erguem e envergam e começam a se formar novamente. Enquanto eu vivi essa música por dentro, ouvindo-a e tentando capturá-la em inglês, tive que fazer o meu melhor para não perder o caminho tomado pelos adjetivos ou conjugações verbais ou concordâncias entre sujeito e objeto, todos necessários para reproduzir o significado de cada sentença com precisão. O que estou dizendo é que este romance tem dois modos paralelos de composição: o significado presente na linguagem, composto por frases, e o significado presente na música, composto por sons. Você pode ouvir isso já na primeira frase do romance: “Ela seria fluida durante toda a vida”. É uma frase relativamente curta, com uma rima direta — “fluida” e “vida” — ou seja, “fluid” [fluida] ou “flowing” [fluindo] e “life” [vida], que de modo algum rimam em inglês: “She’d be flowing all her life” [“Ela fluiria toda a sua vida” ou “Ela seria fluida durante toda a vida”]. Clarice, que também era tradutora — ela começou a publicar traduções do francês, do espanhol e do inglês para o português em 1941 e continuou traduzindo ao longo de sua vida —, disse sobre o processo: “traduzir pode correr o risco de não parar nunca: quanto mais se revê, mais se tem que mexer e remexer”. [3]

“Estamos sempre a agarrá-la, a verdadeira Clarice, e quanto mais fome temos dela, mais ela nos escapa.”

Que tipo de decisão, por exemplo, você precisou tomar para preservar a intensa musicalidade que descreve?
São vários exemplos! Cada linha de cada página faz parte da partitura também conhecida como O lustre. Exemplifico novamente com duas versões da frase de abertura do romance. A primeira é minha, e a segunda, de Idra Novey, que traduziu A paixão segundo G.H. (The passion according to G.H., New Directions, 2012). Ambas as tentativas são o resultado de uma deliciosa troca entre tradutoras. Primeiro: “She would be fluid all her life”. Você pode ouvir o eco da consoante “d”, um som que pontua o fluxo quatro vezes na frase original: “Ela seria fluida durante toda a vida”. E segundo: “She would be flowing her whole life”. Aqui temos a repetição do som da vogal “o”, exatamente em “whole” e também em “flowing”, uma das palavras [“fluida”] que rimam no original. Música perdida, música ganha. Desde a primeira frase, você tem uma amostra do fracasso inerente ao processo de tradução, da violência mesmo, como diz um tradutor amigo meu. E, no entanto, você não pode desistir após a primeira linha. Você tem que encontrar a música e sustentá-la, o que me remete a uma passagem longa que começa com Virgínia “à sombra de uma árvore” e “rodeada de instantes vazios”: “Pensava música pequena e límpida que se alongava num só fio e enrolava-se clara, fluorescente e úmida, água em água, meditando um arpejo tolo. Pensava sensações intraduzíveis distraindo-se secretamente como se cantarolasse, profundamente inconsciente e obstinada, ela pensava um só traço fugaz” e então a frase recai em uma meditação que segue por mais ou menos um terço da página, nada veloz. Quero colocar o dedo na “música pequena e límpida” misturada com as “sensações intraduzíveis” e com o “um só traço fugaz”. Todos esses elementos coexistem no português original de Clarice. E eu digo sem falsa modéstia que fiz o que pude para desdobrar isso, bem como os “instantes circundantes” que compõem O lustre, no seu som atual. Uma das grandes alegrias de trabalhar em O lustre foi o contínuo processo de descoberta. Recentemente eu soube, durante uma conversa no Skype com o Brazilian Bilingual Book Club, realizada na Embaixada do Brasil em Londres e organizada por Nadia Kerecuk, que Hélène Cixous discute O lustre com muito cuidado em seu livro Three steps on the ladder of writing [Três Passos na Escada da Escrita]. Cixous traduz a abertura de O lustre como: “She would be fluid all her life, but…” [“Ela seria fluida a vida toda, mas…”] [4] Uma vez que a abertura do romance original é uma frase curta — “Ela seria fluida durante toda a vida.” —, de onde Cixous tira o “mas” que continua a frase em sua tradução? A frase seguinte do original inicia: “Porém o que dominara seus contornos…” É outra frase. Cixous, no entanto, prefere enfatizar a fluidez fluida do “ela” — Virgínia —, ligando a primeira e a segunda frases com uma vírgula que não existe no português de Clarice. Ela muda a pontuação e a música do original. Cixous está errada em fazer isso? Isso muda radicalmente o significado? Eu não sei… Cada tradutor fará escolhas com as quais outros podem não concordar, e nenhuma tradução poderá ser uma cópia perfeita, um fac-símile linguístico, do original. Essa é a beleza e a perfídia da tradução.


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Que outros desafios específicos surgem com a tradução de uma autora como Clarice Lispector, cujo trabalho foi tão inovador e cuja figura — anunciada como a mais importante escritora judia desde Kafka e como a maior escritora brasileira desde Machado de Assis — se tornou tão icônica?
Os desafios de traduzir Clarice são também os privilégios. É uma experiência de dois gumes. Eu entrei em uma grande festa, com grandes personalidades, onde Clarice é a estrela — e o fato de eu lhe dizer isso imediatamente torna o romance A hora da estrela ainda mais visionário. Clarice possui um legado incrivelmente robusto, mantido por uma comunidade diversificada de leitores, tradutores, acadêmicos, escritores e artistas no Brasil e no mundo. Tive essa experiência na recente conferência sobre Lispector na Universidade de Oxford, em novembro de 2017. Vi conversas animadas e inclusivas sobre todos os aspectos de sua obra, incluindo uma fascinante apresentação sobre Clarice Lispector na Era Digital, feita por Karyn Mota, uma pesquisadora do Rio de Janeiro atualmente cursando o doutorado em Brown. O que a palestra de Mota em Oxford deixou claro é que atualmente temos um ecossistema de “internautas” que se envolvem com Clarice, ou com quimeras dela, diariamente nas mídias sociais, nomeadamente no Twitter, e a multiplicação e a circulação obsessivas dessas “micronarrativas” em geral anônimas são como gênios para sempre libertos de suas lâmpadas. Tive um breve momento de pânico quando chegou a hora de começar a traduzir O lustre, porque sabia que essa seria a primeira tradução completa do romance publicada em inglês, uma responsabilidade e uma graça enormes, mas também uma receita certa para o fracasso… E então eu percebi que, sem dúvida, haveria novas traduções por vir, e espero que várias. Uma nova tradução não é um motivo para dispensar, descartar ou abolir traduções anteriores. É a oportunidade de se adicionar uma nova voz. Por exemplo, Emily Wilson adicionou a voz da primeira tradutora mulher ao coro das traduções da Odisseia para a língua inglesa. Espero que algo semelhante aconteça com O lustre — que esta seja a primeira de muitas traduções para o inglês e que este romance denso e suculento também seja traduzido para outras formas artísticas: poesia, teatro, cinema, quadrinhos, pintura e quem sabe o que mais? Isso depende dos futuros tradutores. Elizabeth Lowe, que traduziu Água viva junto com Earl Fitz, descreveu para mim sua amizade com Clarice. Fiquei particularmente interessada na percepção de Lowe sobre a visão generosa de Clarice sobre a tradução. Lowe recentemente tuitou: “Seu espírito generoso [de Clarice] abriu portas a todos os tradutores e críticos que a abordaram de boa-fé”. Também li, no livro pioneiro de André Luís Gomes — Clarice em cena: as relações entre Clarice Lispector e o teatro —, sobre a primeira encenação teatral de sua obra, uma adaptação de vários textos seus, que se chamou Perto do Coração Selvagem, no Rio de Janeiro, entre 1965 e 1966, dirigida por Fauzi Arap. E a respeito de outra peça de Arap, Pano de boca, Gomes escreve sobre a participação da escritora na encenação e sobre o interesse dela no tema do “duelo entre autor e personagem”. [5] Quando comecei a me confrontar com a prosa de O lustre, frase por frase, o trabalho imediatamente se tornou uma conversa íntima, mergulhada em uma espécie de luto, com a autora do texto original. Nossa maratona de trocas me levou para dentro de seu próprio processo criativo, o qual eu comecei a habitar com uma devoção obsessiva, a loucura ou o intenso sonho febril do tradutor. Todos os dias eu saboreava o mínimo detalhe, e depois o seguinte, e o seguinte, num estado maníaco inalterável (fluindo, toda a sua vida). Por exemplo, fiquei encantada com o detalhe de que o amante de Virgínia, Vicente, é um tradutor e que os dois nomes começam com a mesma letra, V, a qual aparece na primeira frase do romance: “Ela seria fluida durante toda a vida”. V para vida e Virgínia e Vicente. Entende o que quero dizer?

“Desde a primeira frase, você tem uma amostra do fracasso inerente ao processo de tradução.”

Estou interessado em como nós, no mundo literário da língua inglesa, construímos nossa compreensão das literaturas escritas em outras línguas, e muitas vezes fico frustrado pelo modo como permitimos que as tradições de línguas e regiões inteiras sejam tão pouco representadas, através — é o que parece — de um mero punhado de escritores que entraram na moda. Que fatores você acha que fizeram Clarice se tornar tão popular em inglês? É justa a sua entronização — tanto para seus leitores como para ela?
Alguns podem dizer que, quando você vê o seu autor favorito nos memes do Twitter, acabou. No meu entender, essas visões de Clarice fazem parte de sua estratégia prévia de resistir à captura. Ela não será vista como uma vaca sagrada da literatura mundial ou como um exemplar de qualquer coisa. Na entrevista filmada de 1977, ano em que ela morreu, ela insiste em que não é uma escritora profissional, mas sim uma amadora e é assim que ela mantém a liberdade dela. Penso nesses doppelgängers online, dispersos no ambiente das mídias sociais, e nas citações pseudoliterárias equivocadamente atribuídas a ela e combinadas com fotos sonhadoras de Ryan Gosling, e em geral eu acho que isso é uma maneira engraçada de ela dizer: “Agarre-me, se puder”. Concordo que é frustrante não termos ofertas abundantes de trabalho de vários idiomas, todos os idiomas, em tradução para o inglês. E é um completo desserviço ter autores únicos representando tradições inteiras: Neruda é o poeta latino-americano, García Márquez é o romancista latino-americano, e Clarice é, acho, a escritora latino-americana. Isso é louco! O número geralmente citado da literatura publicada nos Estados Unidos em tradução é de três por cento, e essa estatística não mudou muito ao longo dos anos. Se a gente quer mais do que um único autor representando tradições inteiras, precisamos promover a tradução mais ativamente.

Acho que estou curioso mesmo é sobre o momento em que um escritor passa para o mainstream comercial — quando ele tem o que eu poderia chamar de “momento Bolaño”. Clarice Lispector existia em inglês desde os anos 1960, mas de repente ela está em todo lugar [de novo?], do The New York Times ao The Believer, apesar de ter morrido em 1977. Não estou dizendo que ela não faz jus à atenção — a meu ver, ela claramente faz —, mas eu me pergunto como esse ressurgimento começou.
Clarice como um fenômeno da literatura mundial é atualmente comercializada, em inglês, por seu biógrafo Benjamin Moser, cujo livro Why this world: a biography of Clarice Lispector [Por que este mundo: uma biografia de Clarice Lispector] (Oxford University Press) foi publicado em 2009, e pela New Directions, que estreou sua série de traduções de Clarice em 2011, com uma nova versão em inglês de A hora da estrela, traduzida por Moser, que também é o editor da série. A atual linguagem de marketing é que a New Directions está “ressuscitando” Clarice em inglês — ela teria sido negligenciada e finalmente está tendo o que lhe é devido. Eu não concordo. Clarice em inglês esteve muito viva e bem desde que as primeiras traduções de textos seus apareceram na década de 1960. As primeiras publicações de Clarice em inglês incluem as traduções de Elizabeth Bishop de três histórias dela na The Kenyon Review em 1964 e a tradução de Gregory Rabassa de A maçã no escuro, lançada pela Knopf em 1967. Outros tradutores iniciais foram William L. Grossman e José Roberto Vasconcellos, Elizabeth Lowe e Earl Fitz, Richard A. Mazzara e Lorri A. Parris, Alexis Levitin e Suzanne Jill Levine. O novo rol de tradutores inclui Katrina Dodson, Alison Entrekin, Johnny Lorenz, Idra Novey, Stefan Tobler, eu, Moser, e também Rachel Klein, que traduziu um punhado de histórias que apareceram na BOMB e na Paris Review e… bem, acho que é importante enfatizar que estamos discutindo apenas traduções em inglês aqui. Há também uma atividade constante de publicações relacionadas a Clarice Lispector no Brasil. Novas edições e volumes de sua obra, livros sobre ela e sua escrita… A Rocco, editora brasileira que detém os direitos de publicação da autora, lançou, em 2016, um volume chamado Todos os contos, baseado, e com o mesmo modelo de capa, no The complete stories, que fora traduzido por Katrina Dodson e publicado nos EUA pela New Directions em 2015. Teresa Montero, uma das biógrafas brasileiras de Clarice, publicou em setembro um novo livro chamado O Rio de Clarice: passeio afetivo pela cidade (Autêntica, 2018), abordando o Rio de Janeiro de Clarice, os lugares que ela frequentou e que frequentemente aparecem em seus escritos. O problema em questão é se a aclamação — a “leonização”, diríamos — de Clarice é justa para ela e seus leitores. Eu mudaria a pergunta para como a leoa permanece em cena. Acredito que Clarice não gostaria de — não quer — ser enjaulada como um animal de zoológico em exibição. A consagração é um tipo de aprisionamento, se não a morte, para um autor. Como um autor no cenário mundial permanece selvagem e livre? Acho que Clarice oferece muitas respostas e variações a essa questão em O lustre e nos seus outros escritos. Novamente, sinto que A hora da estrela é um texto essencial aqui, que oferece uma receita para o que fazer se a própria Clarice se tornar uma mercadoria de exportação internacional como a Coca-Cola ou Marilyn Monroe. Acho que a pergunta de Katrina Dodson — “Will the real Clarice Lispector please stand up?” [“A verdadeira Clarice Lispector pode se levantar, por favor?”] — em seu impressionante ensaio Understanding is the proof of error [Entender é a prova do erro], em The Believer, vai direto ao ponto. Quando um autor se torna consagrado, corremos o risco de perdê-lo completamente em um mar de refrações — ele ou ela se torna algo ou outra pessoa mil vezes. Estamos sempre a agarrá-la, a verdadeira Clarice, e quanto mais fome temos dela, mais ela nos escapa.

“Cada tradutor fará escolhas com as quais outros podem não concordar, e nenhuma tradução poderá ser uma cópia perfeita, um fac-símile linguístico, do original.”

Sei que você é uma escritora e uma atriz, além de tradutora, e que recentemente você realizou uma performance solo com base na obra de Clarice. Conte-me sobre esse evento e, de maneira mais ampla, sobre a influência de Clarice sobre você como escritora.
No verão de 2016, fui convidada a passar algumas semanas em Yaddo, uma residência artística em Saratoga Springs, Nova York, para trabalhar na minha tradução de O lustre. Lá eu conheci muitos escritores e artistas visuais e performers maravilhosos. Foi durante esse intenso tempo criativo que este número solo, baseado na minha experiência de tradução do livro, germinou. I Wanna Be Robert De Niro [Eu quero ser Robert De Niro] começa com uma tradutora chamada Madalena, que está traduzindo O lustre para o inglês, e que começa a enfrentar um problema. Ela entra em conflito com a autora do livro porque ela acha que Clarice é muito severa com Virgínia, a personagem principal do romance. Madalena primeiro apela a Clarice para mudar de rumo, mas isso não adianta e então ela decide tentar fazer algo sozinha, possivelmente alterando a história para que o destino de Virgínia seja menos trágico. Madalena pede ajuda a Robert De Niro. Por quê? Porque De Niro nasceu em 1943, o mesmo ano em que Clarice começou a escrever o romance originalmente intitulado O lustre. No decorrer dos 60 minutos de espetáculo, eu interpreto a tradutora Madalena, além de Robert De Niro quando menino e adulto, e a jovem Virgínia durante o jantar de Irene em O lustre. Ao longo da peça, Madalena se dirige a Clarice diretamente, apela, implora, briga com ela, mas sem sucesso. Eu apresentei uma série de cinco shows com ingressos esgotados no Hollywood Fringe Festival em junho de 2017, o que foi emocionante e catártico. A tradução pode ser incrivelmente solitária, e esse foi um modo poderoso de compartilhar o processo. Conversei muito com Katrina Dodson sobre o que ela chama de “excesso do tradutor” — esse excesso de energia criativa que é o subproduto do processo da tradução e que pode conduzir a novos trabalhos. Katrina tem trabalhado em transformar seu diário de tradução em um livro; Idra Novey escreveu um livro de poemas intitulado Clarice: the visitor [Clarice: a visitante] (Cahiers, 2014) e um romance inspirado em Clarice chamado Ways to disappear [Modos de desaparecer] (Little, Brown and Company, 2016); e eu escrevi e apresentei meu show solo e tenho alguns outros projetos paralelos. No outono de 2018, tive a oportunidade de criar uma segunda apresentação para a conferência Lispector na Universidade de Oxford. The body speaks: translating Clarice Lispetor’s The chandelier [O corpo fala: traduzindo O lustre, de Clarice Lispector] foi bem diferente do primeiro show, porque não aconteceu no palco, mas em um espaço de galeria usado como auditório principal. Nesta peça, desempenhei o papel da tradutora Madalena, da protagonista Virgínia e, por um momento, da própria Clarice. Aqui, a tradução de O lustre não está mais em andamento, como uma conversa íntima entre tradutor e autor, como em I Wanna Be Robert De Niro, mas é a fase de publicação do texto que entra em cena. O que foi interessante para mim foi compartilhar com o público o entendimento visceral de que, para Clarice, a cena da escrita é a coisa mais importante, e que o processo de publicação de um texto cria tanto uma oportunidade para o luto como o impulso para seguir adiante para o próximo trabalho, a fim de continuar sempre envolvida no ato de escrever. Como Clarice diz, em sua entrevista filmada: “Eu acho que quando não escrevo, estou morta”. Em uma carta para Lúcio Cardoso, de 1944, ela fala sobre tentar encontrar uma editora para O lustre, e diz que a solução deve vir “rápido, rápido, porque me incomoda um trabalho parado; é como se me impedisse de ir adiante”. [6] Estreei uma nova performance que aborda a história da tradução de O lustre na Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) no início de outubro: Uma vaga noção de viagem: traduzindo Clarice Lispector para o inglês. Minha apresentação ocorreu na segunda-feira após o domingo de 7 de outubro, data do primeiro turno das eleições presidenciais (o segundo turno entre Bolsonaro e Haddad foi em 28 de outubro), dias muito intensos e eletrizantes no Brasil. A performance encerrou a jornada de apresentações dos estudantes e professores de literatura da UNIFESP, incluindo os co-organizadores Paloma Vidal e Marcelo Moreschi, e o caráter aberto do estado de sonho criativo que eu procurei evocar gerou, acho, um sentimento de esperança e movimento em todos os presentes: “Ela seria fluida durante toda a vida”. Antes, dei também uma palestra na PUC-Rio, em 4 de outubro, intitulada A sociedade das sombras: Clarice Lispector traduzida para o inglês. De certa forma, a segunda apresentação em São Paulo foi uma tradução incorreta da minha palestra-performance no Rio; foi uma tradução inevitavelmente errada — uma “mistranslation” — por ser a primeira uma versão mais tradicionalmente acadêmica e a segunda uma versão mais corporal, mais performance mesma. Foi emocionante apresentar meu trabalho no Brasil e mal posso esperar para voltar. Foi um imenso prazer conhecer tantos tradutores, escritores, artistas e intérpretes que se inspiram e trabalham com a linguagem de Clarice. Recentemente, entrei em contato com a dançarina e coreógrafa Heidi Duckler, de Los Angeles, que adaptou várias obras da escritora para o palco com sua companhia, a Heidi Duckler Dance, e concluiu um filme de dança inspirado em Clarice. Heidi e sua equipe também estão preparando uma adaptação teatral de O lustre, que estreará em abril de 2020 no Wallis Annenberg Center for Performing Arts. Quanto à minha escrita, se eu pudesse falar com Clarice pessoalmente, agradeceria a ela por me ensinar a encontrar novas maneiras de abraçar, profunda e fluentemente, o próprio processo. Ah, sim, a cena da escrita: “Virgínia não entendeu de onde vinha a doçura: o chão era preto e coberto de folhas secas, então de onde veio a doçura? um desejo tomava forma no ar, flutuando atentamente, dissolvendo-se e nunca existiu. Ela retirou as folhas e, com um graveto, escreveu em letras tortas… ”.

Entrevista publicada originalmente no The Los Angeles Review of Books.

NOTAS

[1] Nádia Gotlib, Clarice: Uma vida que se conta (Rio de Janeiro: Editora Ática, 1995; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2013).

[2] Teresa Montero, Eu sou uma pergunta (Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1999).

[3] Clarice Lispector, Traduzir procurando não trair, Revista Jóia, n. 177 (maio de 1968).

[4] Hélène Cixous, Three steps on the ladder of writing (Nova York: Columbia University Press, 1993). Cixous deu palestras na Biblioteca Wellek na UC Irvine em maio de 1990. As palestras foram publicadas pela Columbia University Press em 1993 dando o crédito da tradução a Sarah Cornell e Susan Sellers. Nas notas de rodapé, é dito que as seções citadas de O lustre, que Cixous chama de O lustro, são de “nossa tradução” — um esforço conjunto de Cixous, Cornell e Sellers.

[5] André Luís Gomes, Clarice em cena: As relações entre Clarice Lispector e o teatro. (Brasília: Editora UnB/Finatec, 2007).

[6] Clarice Lispector, Correspondências, ed. Teresa Montero (Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2002

 

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