Tudo é narrativa

julho 2018 / Tudo é narrativa / A verdade flutuante

Texto publicado na edição #

A verdade flutuante

Existe, afinal, algum tipo de ficção que assombra o relato histórico de maneira inerente mesmo, constitutiva? Será totalmente utópico pensar num relato que não contenha qualquer forma de invenção?

> Por Tércia Montenegro

Ilustração: Igor Oliver

Ilustração: Igor Oliver.

Tive um desconforto, alguns meses atrás, quando tentava organizar minha biblioteca. Coloquei bem próximos Natalia e Carlo Ginzburg: havia motivos alfabéticos, familiares e nacionais para isso. Mas eu não podia deixar de pensar que a vigilância de Carlo, sua obcecada perseguição por uma fidelidade histórica entrava em descompasso com os livros de sua mãe, reconhecida ficcionista. Eu poderia me contentar com mais um curioso caso de um filho que segue caminho contrário ao dos pais para afirmar a própria identidade — mas não achei que a coisa fosse tão simples.

Existe, afinal, algum tipo de ficção que assombra o relato histórico de maneira inerente mesmo, constitutiva? Será totalmente utópico pensar num relato que não contenha qualquer forma de invenção? Parti para uma pesquisa que aplacasse minhas dúvidas.

Conversei com profissionais da área, informalmente. E busquei não só historiadores, mas também jornalistas. Dizem que o Jornalismo é o rascunho da História — e, óbvio, há aspectos similares no método investigativo, no tratamento dado ao fato. Mas (agora eu me inquietava) se quisermos considerar um texto que seja o contrário da ficção, qual seria o mais propenso para isso — o histórico ou o jornalístico? Cada pessoa me dava argumentos distintos, indicava referências, emprestava livros.

O próprio Ginzburg, em obra sobre Piero della Francesca, discute como a verdade pode ser flutuante. Ela envolve um processo de adesão, confiabilidade. É um pacto que depende de várias circunstâncias — mas, para o profissional, deve estar na mira de uma disciplina implacável.

Enquanto historiador, Ginzburg eriça-se diante de “séries cronológicas relativas”, que são aquelas indicadas pelos métodos estilísticos. Critica severamente Roberto Longui, atribuindo-lhe “implicações divinatórias” na sua atividade de conhecedor, sobretudo por utilizar múltiplas séries documentais — estilo, biografia, molduras, iconografia etc. — para resolver dilemas na datação de uma obra — no caso, a Flagelação de Piero della Francesca.

Considerando que “mesmo o calendário é coisa arredia às vezes”, o filho da romancista observa que todo elemento iconográfico é polivalente: “Como saber se, num determinado quadro, uma ovelha, por exemplo, representa Cristo e a mansidão ou apenas uma ovelha?”. Às vezes a verdade é improvável, e somente pelo contexto pode ser resgatada. Ginzburg se entrega à extrema modernidade da Flagelação de Piero, que coloca em primeiro plano três personagens misteriosos (cujas identidades provocaram inúmeros debates), numa espécie de desinteresse pelo tema principal. Aproveita para lembrar os também profundamente modernos retratos de Frederico da Montefeltro e sua esposa, Battista Sforza: seus perfis foram prenúncios importantes para o cubismo (e ao ler sobre isso entendi por que a visão destes pequenos quadros na galeria Uffizi, muitos anos atrás, provocou dubiedades em mim).

Didi-Huberman, por sua vez, questiona a certeza do historiador, proclamando um olhar sobre o não-saber, um olhar fenomenológico, experiência sensitiva que — ressalta — é “o mais belo risco da ficção”. No seu livro Diante da imagem, a análise de um trecho branco de muro num afresco de Fra Angelico é semelhante ao impacto que Proust sente diante de Vermeer: Didi-Huberman, a propósito, também tem um trabalho sobre este pintor. A sua análise, junto com o livro de Daniel Arasse, L’ambition de Vermeer, são obras-primas interpretativas. Aliás, Arasse em outros lugares igualmente se debruça sobre Fra Angelico e della Francesca — o que me põe novamente inquieta, agora em busca de possíveis nexos entre os artistas (e os pesquisadores). Mas isso é assunto futuro. Por enquanto, tento circular a ideia inicial. Didi-Huberman afirma que o passado está ligado ao impossível, ao impensável — o seu resgate, portanto, envolve a ilusão “de que o discurso mais exato é necessariamente o mais verdadeiro”. Ginzburg também chegou a comentar que “os mesmos ingredientes, cozidos em molhos hermenêuticos diferentes, resultam em pratos de sabores no mínimo diversos”. Portanto, a tal verdade sobre um fato seria sempre utópica — ou relativa?

Por mais que aceitemos esse deslizamento, não creio que a completa confusão de fronteiras aconteça, até agora. Todo artista oscila ou ocasionalmente mergulha em águas históricas, factuais — mas não se obriga ao testemunho ou ao documento (um tipo de “voz verídica”). O seu pacto com o público é outro: a construção do imaginário. O inventado, o falso e a farsa terão sempre a potência das possibilidades — jamais o fechamento de um ato consumado.

Existe, entretanto, um alerta no parágrafo acima: pensamos na situação até agora. Imagino os historiadores daqui a um século, as dificuldades que terão para se debruçar sobre nossa época, tão farta de notícias e documentos, sim — mas quais destes serão fake news? Com o surgimento de uma sofisticada tecnologia de adulteração da realidade, capaz de manipular áudios e vídeos, o phishing via laser parece abrir caminho para o chamado “Infocalypse”. Nessa altura, a inteligência artificial poderá mudar bastante a maneira como recebemos os fatos. A verdade por enquanto é flutuante — mas haverá um dia em que ela será engolida pela correnteza? No futuro, tudo será ficção? Quem sabe?

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