Dom Casmurro

julho 2020 / Dom Casmurro / A varanda de meu pai

Texto publicado na edição #243

A varanda de meu pai

Trecho inédito do novo romance de Livia Garcia-Roza

> Por LIVIA GARCIA-ROZA

Ilustração: Paula Calleja

Ilustração: Paula Calleja

Aos domingos a varanda de nossa casa se transformava no palco de meu pai. Era o dia em que ele recebia amigos para um uísque antes do almoço. Saudava a cada um que chegava de braços abertos e assim tinha início o espetáculo — que era ele próprio. Apesar de mamãe ser a artista, meu pai era a principal atração da casa. Fazia números notáveis em torno de si mesmo. Turbilhonava sobre si próprio. Era agradável com os amigos, chamava-os de “meu caro”, “companheiro”, “meu nego”, e aos olhos deles era divertido, sorridente, bem-humorado; irradiava alegria. Irreconhecível. Ao nos apresentar fazia elogios, nos abraçava, chamava meus irmãos de “my boys” — de vez em quando falava em inglês. Será que fingindo o amor vem? Mas eram os momentos em que éramos uma família, uma família aberta a estranhos e estranha entre si, mas uma família. Todo domingo aquela alegria, casa cheia de pessoas que vinham assistir a meu pai, que tão logo percebia que havia público, postava-se no centro da varanda, pigarreava para limpar a voz e iniciava sua narração com sua grandiloquência excessiva, evoluindo de um lado ao outro, arrancando exclamações, risos, suspiros e, por vezes, palmas. Quando havia mulher bonita então… ele se esmerava. Impressionante a transformação que se operava nele. Era o pai da festa. Na verdade, era um personagem — numa situação limite —, só não sabia em que peça estava. Daí, talvez, seu desespero crônico. Não era uma pessoa comum. Normal, a bem dizer. Tinha espírito demais. Através da fala se empolgava e protagonizava a história; talvez fosse o modo de encontrar o fio narrativo de sua vida. Ou de não perdê-lo. Narrar era, para o meu pai, encontrar a salvação. Naquele domingo, entre muitas histórias, contou a de seu avô, segundo ele um respeitável crítico musical, que uma vez estando numa frisa do Teatro Municipal assistindo a uma ópera, um sujeito ao lado começou a trautear a melodia. Disse o avô: “Veja só, eu aqui, ansioso por ouvi-lo, e aquele sujeitinho lá embaixo no palco a impedir…” Após aguardar a reação da plateia, dizia para mamãe, com voz embargada (que grande ator o teatro perdera…): “Toca o Outono, meu bem, toca…”

Minha mãe então ia para a harpa e embevecia a todos. Essa alegria toda, contagiante, se restringia aos domingos, passado os momentos de efusão, voltávamos ao cotidiano e a sua solidão. Aos instantes loucos.

 

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